Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra

Crítica


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Sinopse

Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra acompanha um homem que surge em uma icônica lanchonete de Los Angeles afirmando ser do futuro. Armado e desesperado, ele faz os clientes reféns enquanto tenta convencer desconhecidos comuns a se tornarem recrutas improváveis de uma missão que, segundo ele, pode salvar o mundo - se acreditarem antes que seja tarde demais. Comédia/Aventura.

Crítica

O título é tão estranho e inesperado quanto… o próprio filme (ou ao menos sua premissa). E, para piorar, não faz muito sentido. Ninguém aqui está dependendo da sorte para alcançar seus objetivos – tanto é que o protagonista já se viu dezenas de vezes na mesma situação justamente para testar a melhor combinação dos elementos e não ficar sujeito a intervenções externas. Depois, o que menos os personagens buscam é diversão – pelo contrário, estão todos ou lobotomizados, ou tentando salvar o mundo. E por fim, todos acabarão morrendo, de um jeito ou de outro, se não no percurso dessa jornada, com certeza não muito após o seu término. Então, por que se preocupar? Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra é um filme tão anacrônico quanto seu batismo, pois parte de uma crítica que ele próprio incentiva – e determina continuidade. O resultado, se por um lado aponta para um alívio moral, do tipo “bom, ao menos a minha parte eu fiz”, por outro consolida um esvaziamento de debate e reflexão, investigando um imenso cenário desprovido de consequências.

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Para começar, vale um aviso: o diretor é Gore Verbinski, que escolheu esse projeto para voltar aos holofotes após quase uma década de ostracismo. Para se ter uma ideia, ele não dirigia um longa desde o malfadado A Cura (2016). Se no começo da carreira foi responsável pelos episódios iniciais de duas franquias de imenso sucesso (O Chamado, 2002, e Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, 2003), chegando até mesmo a ganhar um Oscar (pela animação Rango, 2011), o tropeço com O Cavaleiro Solitário (2013) foi tamanho que tudo que havia conquistado até aquele momento por muito pouco não foi posto a perder. Esse período afastado poderia ter servido para o recolocá-lo como um cineasta mais comedido e antenado ao discurso de hoje, mas seu conceito de modernização é tão ultrapassado quando a proposta que carrega consigo.

A partir do roteiro escrito por Matthew Robinson (Amor e Monstros, 2020), Verbinski conta com Sam Rockwell para garantir a atenção do espectador. O oscarizado ator surge como ‘o homem do futuro’, alguém enviado de muitos anos adiante para o passado – dele, mas presente no agora – para recrutar um grupo de pessoas aparentemente aleatórias em uma lanchonete para que, juntos, consigam impedir a criação da realidade virtual que acabará por tomar conta da humanidade. As primeiras cenas, ainda antes de sua chegada, ditam o tom dessa distopia apocalíptica: praticamente todos os personagens estão hipnotizados de olho nos seus smartphones, que se tornaram extensões de suas próprias mãos, enquanto a garçonete transita entre as mesas sem ser sequer notada.

Após um estranhamento inicial mais do que esperado, um time se verá formado. Não chega a surpreender – pelo contrário, pois o argumento é bom e ninguém aqui parecia disposto a se decepcionar tão cedo trama adentro – que serão exatamente os intérpretes menos conhecidos dentre os tipos recrutados os primeiros a serem descartados. Sim, ainda que a ideia soe original e provocadora, a estrutura que logo assume é velha conhecida: como em um videogame, os envolvidos terão etapas com crescentes níveis de dificuldade a serem superados em seus caminhos para que possam, enfim, alcançar o intento desde o começo declarado. É o prêmio no final do arco-íris, por assim dizer. E esse se mostrará ainda disposto a uma reviravolta de última hora que, se não chega a ser revolucionária, também não é de fácil antecipação. É como um flamejar de esperança, mesmo após tanto já ter sido desperdiçado durante a jornada até o ponto em que os sobreviventes se encontram. Um bom sinal, mas ainda assim sem grande relevância.

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Verbinski e Robinson se esforçam para fazer de Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra um libelo antissistema, mas pouco alcançam nesse sentido. A mensagem explícita no nome – tão deslocada que chega a ser inserida nos diálogos não uma, mas em duas ocasiões distintas, à força e sem preparo – acaba valendo mais à audiência e menos aos personagens. Se esses terminam por se sentir esgotados, estará entre os presentes da plateia a ingrata missão de separar o joio do trigo. Ou seja, perceber que os apontamentos levantados, por mais urgentes e necessários que possam se mostrar num primeiro momento, pouco impacto alcançarão por meio de um discurso como esse que aqui percorre, curioso enquanto dura, mas facilmente esquecível – para não dizer irrelevante – assim que termina e se confirma sua incapacidade de se mostrar viável em uma realidade que faz uso dos próprios meios que critica para disseminar tal reflexão. O pensar é válido, obviamente, mas incapaz de se distanciar daquilo mesmo que busca eliminar. Uma contradição que abafa mesmo as mais preciosas das boas vontades.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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