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Após um mês de atividades em São Paulo, Brasília e Recife, o BrLab encerrou a 15ª edição com a divulgação de uma carta-manifesto voltada à construção de uma indústria audiovisual mais sustentável. O documento é resultado direto das discussões realizadas no Think Tank Petrobras, um dos eixos centrais da programação deste ano, e sintetiza reflexões sobre produção, meio ambiente e responsabilidade socioambiental no setor. Siga o fio e saiba mais!

BRLAB 2026

Com cobertura ampla do Papo de Cinema, a edição comemorativa de 15 anos do BrLab aconteceu entre 07 de abril e 08 de maio e reuniu mais de 140 profissionais de 16 países, além de registrar um número recorde de 768 projetos inscritos para os laboratórios de longas-metragens e séries. Com atividades distribuídas entre workshops, consultorias, masterclasses, rodadas de negócios, exibições e grupos de trabalho, o evento reafirmou sua posição como um dos principais espaços de desenvolvimento criativo e articulação internacional do audiovisual latino-americano.

THINK TANK PETROBRAS

Entre os destaques da programação esteve o Think Tank Petrobras, criado para aprofundar o debate sobre sustentabilidade socioambiental na cadeia audiovisual. A curadoria ficou a cargo de Ariene Ferreira, em parceria com a Cinema Verde, e reuniu profissionais da Argentina, Brasil e Colômbia em discussões fechadas e painéis abertos ao público. A programação do Think Tank abordou temas como mudanças climáticas, políticas públicas, inovação digital, tecnologias emergentes, processos de produção sustentável e responsabilidade ambiental no audiovisual. As atividades aconteceram em São Paulo entre 11 e 14 de abril e integraram a itinerância do BrLab no Cine Brasília no dia 16 de abril, com mesas voltadas à produção sustentável e à apresentação dos primeiros resultados do encontro.

A CARTA-MANIFESTO

O principal desdobramento desse processo foi a elaboração coletiva de uma carta-manifesto dirigida ao setor audiovisual. O documento propõe reflexões, práticas e caminhos para uma indústria mais comprometida com impactos sociais e ambientais positivos, reunindo a assinatura de 18 profissionais que participaram das discussões. A carta também conta com apoio de entidades de classe e instituições como ABRA, Apaci, API, BRADA, Projeto Paradiso e Upex, entre outras. 

BrLab 2026 :: Think Tank Petrobras
BrLab 2026 :: Think Tank Petrobras

Para Rafael Sampaio, criador, curador e diretor do BrLab, em nota à imprensa, “a continuidade de iniciativas como essa se torna cada vez mais necessária diante das dificuldades de financiamento e da pressão sobre a estrutura dos eventos setoriais”. Já Ariene Ferreira destacou a importância de “inspirar o setor a se tornar uma referência em sustentabilidade e transformação”. 

PARCERIAS E CONTINUIDADE

A edição de 2026 contou com patrocínio master da Petrobras, via Lei Rouanet, além do copatrocínio do Programa Ibermedia, Projeto Paradiso e Prefeitura de São Paulo, por meio da Spcine e da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa. Segundo a organização, esse apoio “permitiu não apenas a realização da programação comemorativa, mas também a montagem de uma mostra de filmes com 22 títulos e a criação de novos espaços de debate, como o próprio Think Tank, reforçando a vocação do BrLab para unir desenvolvimento de projetos, reflexão crítica e articulação de mercado”.

CARTA-MANIFESTO NA ÍNTEGRA 

Carta-Manifesto pela Sustentabilidade no Audiovisual

Resumo

Este documento foi produzido a partir dos diálogos realizados durante o Think Tank Petrobras, atividade que ocorreu entre os dias 11 e 14 de abril de 2026, em São Paulo, como parte da programação da 15ª edição do BrLab.

A carta-manifesto propõe ações e reflexões que visam uma transformação contínua e gradual do setor diante da crise socioambiental. O documento convoca profissionais, associações de classe e instituições públicas e privadas responsáveis por políticas e programas de financiamento e regulação do setor a repensarem como se produz, como se imagina e como se narra formas de coexistir no planeta.

Partindo da compreensão do audiovisual como um ecossistema diverso e interdependente, o manifesto articula princípios e caminhos que integram responsabilidade ambiental, justiça social, acessibilidade, inclusão e inovação criativa em toda a composição do ecossistema audiovisual.

Ao abordar desde práticas materiais — como cenografia, figurino e uso de tecnologias — até o papel das narrativas e das políticas públicas, o manifesto defende uma mudança estrutural baseada em colaboração, inclusão e valorização dos territórios.

Propõe-se um audiovisual capaz de reduzir impactos negativos e gerar efeitos positivos concretos, fortalecer comunidades e inspirar novos presentes e perspectivas de mundo, posicionando o Brasil e a América Latina como agentes ativos na construção de uma cultura mais sustentável no setor.

Eixos do Manifesto

A crise socioambiental atual determina a chegada de um ponto de inflexão em que o audiovisual brasileiro deve reduzir seus impactos e, ao mesmo tempo, reinventar as formas como narra e constrói novos imaginários do mundo. Trata-se de ajustar práticas produtivas e transformar os modos de criação, produção, preservação e circulação de imagens.

Em um campo onde imaginário, ética, estética, técnica e economia se entrelaçam, a sustentabilidade precisa ser entendida como uma questão transversal, que atravessa dimensões corporais, materiais, simbólicas e políticas.

Nos bastidores da produção, essa transformação já se revela de forma concreta. Nos departamentos de direção de arte e figurino, por exemplo, a materialidade do audiovisual se torna evidente em objetos, tecidos, cenários e adereços que carregam valor estético, mas também histórias de origem com implicações no uso e no descarte.

Ao mesmo tempo, esses departamentos concentram grande potencial criativo para práticas mais sustentáveis, seja por meio do reaproveitamento de materiais, do uso de estoques locais ou da criação de soluções que consideram o pós-filmagem. Cada cena é um espaço de representação e deve ser também um espaço de responsabilidade e inovação.

A crise climática também reflete uma crise de imaginários nas formas de coexistir no planeta. As narrativas audiovisuais são fundamentais para construir e inspirar os modos como a sociedade percebe o mundo e elabora novos futuros possíveis.

O roteiro, como peça fundamental da narrativa audiovisual, define o que ganha visibilidade e o que é omitido, dando voz e, ao mesmo tempo, silenciando, enquanto determina quais perspectivas são valorizadas. Por isso, é importante desenvolver formas de narrar a complexidade ecológica e a crise climática sem recorrer apenas ao didatismo ou à catástrofe, incorporando múltiplas camadas e perspectivas, dando voz a diferentes saberes, culturas e visões de mundo.

Ao mesmo tempo, o avanço das tecnologias exige um olhar crítico. Ferramentas como produção virtual, captação remota e plataformas digitais podem reduzir deslocamentos e otimizar recursos, além de ampliar possibilidades de acesso e atuação para diferentes corpos e profissionais com deficiência, para os quais determinadas formas remotas de trabalho não representam uma escolha, mas uma condição concreta de permanência e participação no setor.

Por outro lado, essas tecnologias também aumentam o consumo energético e geram novos impactos, muitas vezes invisíveis, além do risco iminente de ceifar postos de trabalho no setor, ainda desconhecido em forma de dados concretos. Inovar precisa ir além da eficiência e assumir responsabilidade sobre as consequências sociais, ambientais e culturais dessas escolhas.

As mudanças necessárias passam, necessariamente, pelo fortalecimento de políticas públicas. São elas que permitem transformar iniciativas isoladas em práticas estruturais, criando condições para que a sustentabilidade se torne parte estrutural, com práticas integradas aos diferentes elos da cadeia produtiva e a todo o setor.

Isso inclui a incorporação de critérios socioambientais nos mecanismos de fomento, a definição de métricas e a criação de incentivos e infraestrutura que estimulem formas de conciliar a viabilidade e eficiência econômica com a responsabilidade socioambiental coletiva.

Pensar a sustentabilidade socioambiental no audiovisual é acompanhar toda a trajetória de uma obra, do desenvolvimento à circulação, passando por formações, pesquisas, laboratórios de desenvolvimento de projetos, eventos de mercado, festivais, espaços de circulação e instituições de preservação, reconhecendo que cada etapa envolve decisões que podem reduzir impactos e gerar benefícios.

Trata-se de compreender o setor em sua totalidade, reconhecendo a diversidade como oportunidade de fortalecer territórios, valorizar culturas e construir novas economias.

Situação-Problema

A crise socioambiental contemporânea impõe ao audiovisual brasileiro reduzir seus impactos e reinventar a forma como imagina e narra o mundo. É preciso ajustar práticas produtivas e transformar profundamente como criamos, produzimos e circulamos imagens.

O audiovisual é um espaço onde imaginário, ética, estética, técnica e economia se encontram e, por isso, a sustentabilidade precisa ser tratada como uma questão transversal: material, simbólica e política.

Nos bastidores, direção de arte e figurino revelam a materialidade do cinema: objetos, tecidos e cenários são também territórios de grande potência criativa para a sustentabilidade, por meio do reaproveitamento, do uso de materiais locais e do pensamento regenerativo.

A crise climática também é uma crise de imaginários de formas de coexistir no planeta. As histórias contadas moldam como se entende o mundo e as perspectivas de futuro. O roteiro inaugura a definição do que ganha visibilidade e do que é omitido e/ou silenciado.

É preciso narrar a complexidade ecológica incorporando diferentes saberes, culturas e perspectivas de mundo.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias trazem oportunidades e riscos. Podem reduzir deslocamentos e otimizar recursos, mas também aumentam o consumo energético e geram novos impactos invisíveis, o que exige responsabilidade.

As políticas públicas transformam iniciativas isoladas em práticas estruturais, criando condições reais para uma mudança em escala. É nesse campo que se definem incentivos, exigências e marcos regulatórios capazes de incidir em editais, leis de incentivo e órgãos de fomento para incorporar critérios de sustentabilidade.

Pensar sustentabilidade no audiovisual é olhar toda a trajetória de uma obra, do desenvolvimento à circulação, passando por eventos, festivais, preservação, laboratórios de desenvolvimento, formação e pesquisa, entendendo cada escolha como uma oportunidade de reduzir impactos e gerar benefícios para territórios e comunidades.

Este manifesto é um chamado coletivo para que o audiovisual brasileiro passe a participar ativamente da construção de futuros sustentáveis.

Observações a partir do diálogo

1. Questões relacionadas à diversidade de gênero e raça, acessibilidade, inclusão e participação efetiva de pessoas com deficiência, caras quando se trata da sustentabilidade no audiovisual, não foram trazidas e debatidas em profundidade, provavelmente pelo tempo curto disponível para a proposição atual, reforçando que se trata de um manifesto em construção, com espaço para composição contínua.

2. Assim como aconteceu com as questões relacionadas à diversidade, outros temas importantes para o debate sobre a sustentabilidade no audiovisual não puderam ser trazidos e/ou debatidos pelo mesmo motivo: o tempo limitado disponível para a realização da atividade. Isso reforça a importância da continuidade desse processo de diálogo, aprofundamento e construção.

Visão da Carta-Manifesto

Construir um audiovisual brasileiro que atue de forma regenerativa como um ecossistema diverso, justo e colaborativo, que valoriza territórios, respeita as pessoas e utiliza recursos com responsabilidade.

Um setor em que criar, produzir e circular histórias estejam alinhados ao cuidado com o meio ambiente, com as culturas e com as relações de trabalho, incorporando a sustentabilidade como parte natural de todas as decisões.

Um setor capaz de transformar conhecimento em ação, dados em decisões e colaboração em escala, promovendo inclusão, fortalecendo economias locais e inspirando mudanças culturais, ao mesmo tempo em que se afirma como referência a partir de sua própria diversidade e de seu compromisso com um futuro mais equilibrado e compartilhado.

Visão de Sustentabilidade

A sustentabilidade no audiovisual brasileiro consiste em criar, produzir e circular obras de forma responsável e integrada, equilibrando os capitais humano, natural, econômico e cultural ao longo de todo o ciclo de vida das produções.

Parte da compreensão do setor como um ecossistema diverso e interdependente, que valoriza territórios, promove inclusão, garante condições dignas de trabalho e adota práticas e tecnologias conscientes.

Busca reduzir impactos, gerar efeitos positivos duradouros, transformar conhecimento em ação e fortalecer o papel das narrativas como agentes de mudança cultural em direção a futuros mais justos e sustentáveis.

Visão de Ecossistema

O audiovisual brasileiro deve ser entendido como um ecossistema diverso e interdependente, que reúne criadores(as) e produtoras, mas também instituições representativas, espaços de formação, pesquisa, preservação, laboratórios de desenvolvimento, festivais e eventos.

Nesse sistema, a sustentabilidade se constrói nas relações entre esses agentes, ampliando a noção de circulação para incluir também a formação de públicos e o acesso cultural, para além de modelos restritos e hierarquizados.

Ao mesmo tempo, reconhece-se que o tema da distribuição ainda precisa ser aprofundado sob a ótica da sustentabilidade, sendo necessário ampliar o debate e reunir evidências para compreender melhor seus desafios e caminhos possíveis.

Princípios da Carta-Manifesto

  • Nitidez e acessibilidade: a linguagem deve ser simples, direta e compreensível para que a sustentabilidade seja entendida por todas as pessoas.
  • Visão de ecossistema: o audiovisual é um ecossistema interdependente — pessoas, territórios, saberes e práticas estão conectados.
  • Inclusão e representatividade: dialogar com quem historicamente ficou fora dos espaços de decisão, reconhecendo a liderança das mulheres na transformação para a sustentabilidade.
  • Centralidade dos territórios: cada território tem suas realidades, desafios e potências, e a sustentabilidade se constrói a partir do contexto local.
  • Transformação e provocação: o documento deve apontar para uma mudança cultural, capaz de provocar novos imaginários e caminhos.
  • Construção coletiva: a sustentabilidade é responsabilidade coletiva e o manifesto deve abrir caminhos para colaboração contínua.
  • Dados com propósito: produzir dados e transformá-los em informação útil para decisões concretas é de suma importância.
  • Direção comum: apontar a indústria que se quer construir e alinhar práticas, linguagem e objetivos para chegar a ela.

Caminhos para a Transformação

  • Sustentabilidade como prática transversal a todo o audiovisual.
  • Planejamento para a sustentabilidade desde o desenvolvimento dos projetos.
  • Materiais, figurino e cenografia como espaços ampliados para a criatividade.
  • Formação e novos papéis com preparo e valorização profissional.
  • Tecnologias com responsabilidade, medindo impactos.
  • Narrativas diversas que transformam e influenciam a cultura.
  • Dados, métricas e transparência.
  • Redes de cooperação e colaboração.
  • Políticas públicas estruturantes.
  • Potencial de liderança do audiovisual brasileiro no compromisso com o futuro.

São Paulo, 03 de junho de 2026.

CURADORIA, FACILITAÇÃO ESTRATÉGICA E MEDIAÇÃO DE MESAS

  • ARIENE FERREIRA
  • FACILITAÇÃO ESTRATÉGICA
  • ANA LETÍCIA SILVA

GT PRODUÇÃO

  • FLOR NATES
  • CESAR RAMOS
  • MARILHA NACCARI
  • RODRIGO DÍAZ DÍAZ

GT ROTEIRO

  • GISELE MIRABAI
  • LUIZA QUENTAL
  • STELLA BOLINA
  • THAÍS OLIVIER

GT TECNOLOGIAS EMERGENTES

  • ARIENE FERREIRA
  • NORMA CUADROS
  • OSWALDINHO SANTANA

GT POLÍTICAS PÚBLICAS

  • GIOVANA BOTTI
  • TAMMY WEISS
  • VICTOR HUGO PIRES

GT ARTE & FIGURINO

  • DEBORA CECCATTO
  • FABIAN ALONSO
  • FLORA FUJII
  • VANESSA MARTINEZ

MESAS

  • ARIENE FERREIRA
  • FABIAN ALONSO
  • FABIANE LEITE
  • FLOR NATES
  • GABRIEL PORTELA
  • GISELE MIRABAI
  • JANAÍNA AUGUSTIN
  • JOTAGÁ CREMA
  • MARILHA NACCARI
  • NORMA CUADROS
  • OSWALDO SANTANA
  • RACHEL DO VALLE
  • RAFA COSTA
  • STELLA BOLINA
  • TAMMYS WEISS
  • THAÍS OLIVIER
  • THAISA OLIVEIRA
  • VICTOR HUGO PIRES

ASSINAM CONJUNTAMENTE ESTE MANIFESTO

  • ABRA (Associação Brasileira de Autores Roteiristas)
  • Apaci (Associação Paulista de Cineastas)
  • API (Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro)
  • BRADA (Coletivo das Diretoras de Arte do Brasil)
  • Projeto Paradiso
  • Upex (União Nacional de Produtores Executivos)

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