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Houve quem achasse que o nível da competição em Cannes 2026 esteve aquém em relação ao ano passado, quando despontaram filmes como Foi Apenas Um Acidente (o vencedor da Palma de Ouro), O Agente Secreto e Valor Sentimental, os dois últimos indicados ao Oscar de Melhor Filme e em outras categorias. Esse ano, se não houve dois ou três filmes despontando como favoritos, pode-se dizer que quase a metade dos vinte e dois títulos apresentados era de alto nível e poderia ter saído com algum prêmio.

Daí a grande dor de cabeça para o júri, presidido pelo diretor sul-coreano Park Chan-wook, e completado pelas atrizes Demi Moore e Ruth Negga, pelos atores Stellan Skarsgard e Isaach de Bankolé, pelas diretoras Chloé Zhao e Laura Wandel, pelo diretor Diego Céspedes e pelo roteirista Paul Laverty. Não foi à toa que dois longas dividiram o prêmio de melhor direção, enquanto os prêmios de interpretação feminina e masculina foram para duplas. No total, oito concorrentes diferentes foram laureados em sete categorias.

CANNES 2026 :: OS VENCEDORES

A premiação acabou refletindo a afirmação, por parte do presidente do júri, no início do evento, de que a Cannes não teria pudores em ser político, ao contrário do que aconteceu no 76o Festival de Berlim, quando Wim Wenders, presidente do júri na ocasião, declarou que os cineastas deveriam deixar a política para os políticos e gerou grande repercussão negativa. Direta ou indiretamente, uns mais, outros menos, praticamente todos os premiados apresentam algum recado político. Até mesmo Soudain, de Ryusuke Hamaguchi, cuja força maior reside na conexão que se estabelece entre uma médica francesa e uma autora teatral japonesa (as atrizes foram ambas agraciadas com o prêmio de interpretação feminina), apresenta um recado político sobre a necessidade de investimento do governo em formas mais humanizadas de tratamento em clínicas para idosos.

LEIA MAIS :: Confira aqui a crítica de Soudain (2026), premiado como Melhor Atriz

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Tilda Swinton apresentou o vencedor da Palma de Ouro: Fjord, de Cristian Mungiu, estrelado por Renate Reinsve e Sebastian Stan

Grande vencedor deste ano, o romeno Cristian Mungiu repetiu com Fjord um feito alcançado quase duas décadas atrás com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007): ganhou a Palma de Ouro e o Prêmio da Crítica (Fipresci). A escolha parece mais motivada pela abordagem original e provocadora que dá a um tema urgente – a intolerância religiosa – do que propriamente pela forma cinematográfica através da qual expõe suas ideias.

LEIA MAIS :: Confira aqui a crítica de Fjord (2026), premiado com a Palma de Ouro de Melhor Filme

O que acontece em coberturas de festivais, em que os filmes se acumulam sem permitir o distanciamento necessário para que sejam absorvidos em sua totalidade e em detalhes, é que o entusiasmo por certas obras que nos conquistam de imediato acaba ofuscando aquelas que requisitam uma absorção mais lenta, e que mereceriam eventualmente uma revisão. Talvez seja esse o caso do vencedor do prêmio de melhor roteiro: assim como Moulin, de Laszlo Nemes, A Man of his Time (Notre Salut), de Emmanuel Marre, se passa em Vichy durante a ocupação nazista na França. Só que ao contrário do outro, cuja trama é centrada na ação que envolve a perseguição e a tortura a um dos líderes da Resistência, o premiado nessa categoria é mais discursivo, acompanhando o dia a dia de um personagem complexo inspirado no bisavô do diretor e roteirista, em brilhante interpretação naturalista de Swann Arlaud.

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Igualmente verborrágico é o escolhido para receber o Prêmio do Júri – o equivalente ao terceiro lugar – The Dreamed Adventure (Das Geträumte Abenteuer), da diretora alemã Valeska Grisebach. Como protagonista está Veska, uma arqueóloga búlgara que volta ao vilarejo onde cresceu durante o período comunista e encontra um cenário bem diferente, em que mafiosos (incluindo um antigo namorado dela) controlam o poder público e exploram a população, em meio a um sentimento constante de nostalgia e desolação. Muitas cenas longas se resumem a Veska sentando à mesa com grupos de antigos moradores e ouvindo suas histórias. Um artifício interessante para que o espectador adentre aquele universo pelo estado de espírito de sua gente, mas igualmente cansativo para um filme de quase três horas de duração exibido no último dia do Festival. Mesmo assim, foi o único que se salvou entre os cinco dirigidos por mulheres que competiram pela Palma de Ouro.

O Grande Prêmio do Júri ficou com Minotaur, do diretor russo Andrei Zviaguintsev. Assumidamente inspirado em A Mulher Infiel (1969), de Claude Chabrol, tece uma crítica feroz à decadência moral na terra natal do cineasta. A traição – e a resolução dada a ela, com tintas noir – acontece na envolvente segunda metade do filme. Antes, Zviaguintsev trata dos efeitos do conflito com a Ucrânia em uma cidade russa onde empresários são afetados economicamente com a necessidade de abrir mão de parte de seus funcionários, convocados para o front. Gleb, um arrogante milionário (quase um pleonasmo em se tratando dessa nova oligarquia russa), se vale de relações escusas com o poder para que a nova ordem não afete seus negócios. A única coisa sobre a qual ele não tem controle é a infelicidade da esposa.

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Javier Ambrosi e Javier Calvo, premiados como Melhor Direção por La Bola Negra

O júri também reconheceu o valor dos dois belos libelos queer em prol da liberdade de gênero que arrebataram as plateias das sessões em que foram exibidos. Emmanuel Machia e Valentin Campagne, os dois ótimos jovens protagonistas de Coward, de Lukhas Dont, ganharam o prêmio de interpretação masculina. Enquanto os diretores Javier Ambrossi e Javier Calvo, de La Bola Negra, dividiram com Pawel Pawlikowski, por A Terra do Meu Pai (outro filme político), o prêmio de Melhor Direção.

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CANNES 2026 :: OS ESQUECIDOS

Histórias mais pessoais, como a de El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen, e a de Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, acabaram passando batidas pela premiação. Talvez fosse mesmo o ano de Cannes reafirmar seu recado como centro de excelência artística, mostrando que a política não precisa ser feita apenas por políticos. O júri aproveitou o bom nível da seleção para reafirmar isso.

Marcelo Janot, correspondente especial do Papo de Cinema, acompanhou a 79a edição do Festival de Cannes, ocorrida em maio de 2026, diretamente da França

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é crítico de cinema do jornal O Globo desde 2006, editor do website Criticos.com.br, professor de cursos livres de cinema, diretor e roteirista da série "Na Trilha do Som", disponível no Curta On/Prime Video. É autor do livro “Revisão Crítica” (Autografia). Foi presidente, entre 2003 e 2006, da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Como membro da FIPRESCI, presidiu o júri da crítica no Festival de Cannes de 2024 e foi jurado em diversos outros festivais internacionais, como Veneza, Berlim, Rotterdam, etc. Na TV, apresenta o Cineclube Futura (Canal Futura), trabalhou como crítico e comentarista do canal Telecine Cult e foi colunista do programa Revista do Cinema Brasileiro, na TV Brasil.
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