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Sinopse
Em A Terra do Meu Pai (Fatherland), o escritor Thomas Mann, vencedor do Prêmio Nobel, retorna à Alemanha em 1949, ao lado da filha Erika, em uma viagem de carro que atravessa um país dividido no auge da Guerra Fria. Durante o percurso entre Frankfurt e Weimar, sob diferentes zonas de influência, pai e filha confrontam tensões políticas e feridas familiares abertas pelo exílio. Drama.
Crítica
São tantos os pontos em comum entre A Terra do Meu Pai, novo filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski, e os anteriores Guerra Fria (2023) e Ida (2018), que pode-se dizer que se trata de uma trilogia. São obras em preto e branco no formato de tela quase quadrada (1.37:1), ambientados na Europa pós-Segunda Guerra, em que os efeitos das divisões geográficas e políticas são sentidos por personagens redescobrindo seu lugar e/ou sua identidade junto com esse mundo em transformação.

No caso de A Terra do Meu Pai, vemos o célebre escritor Thomas Mann (Hanns Zischler), autor de “A Montanha Mágica” e “Morte em Veneza”, regressar com a filha Erika (Sandra Hüller) à Alemanha em 1949, depois de um longo exílio na Califórnia, onde se refugiou do nazismo. O motivo do retorno é uma homenagem que irá receber em Frankfurt, na parte ocidental do país agora dividido. Ele também faz questão de ir a Weimar, no leste sob o controle soviético. O que os Mann encontram atravessando o território alemão de carro é um cenário de profunda desilusão. Essa pode ser sentida nos detalhes geográficos dos ambientes em ruínas e vazios, ainda por reconstruir e reocupar, e também no aspecto humano, cuja distinção emerge de forma bastante clara. Afinal, no lado controlado pelos americanos circulam à vontade simpatizantes e colaboradores dos nazistas, como o ex-marido dela, enquanto no lado comunista percebemos o perfil militarizado e patriótico que caracterizaria os países da Cortina de Ferro, por vezes beirando à caricatura.
Embora deixe claro que não se trata de uma cinebiografia e sim de uma releitura ficcional de um período da vida do famoso escritor, o filme trata de forma discreta e sugestiva, através da ótima interpretação introspectiva de Zischler, aspectos controversos, como sua homossexualidade velada e a relação difícil com o filho Klaus, autor de “Mephisto”, romance inspirado no ex-cunhado. Klaus (August Diehl), que inicia o filme na cama ao lado de um amante conversando ao telefone com Erika, que deseja revê-lo em Frankfurt, é quem parece sentir mais profundamente os efeitos da nova Alemanha. Ele morreu em Cannes por overdose de comprimidos pra dormir e está enterrado na cidade onde o filme sobre seu pai desponta desde já como um forte candidato a prêmios no Festival.

A homenagem a Thomas Mann em A Terra do Meu Pai faz parte de um tributo pelo bicentenário de nascimento de seu colega escritor Johann Wolfgang Goethe, falecido em Weimar em 1832. E em uma das cenas mais tocantes, ele e Erika vão parar numa igreja em ruínas onde um organista executa “Jesus Alegria dos Homens”, de Johann Sebastian Bach. Intencionalmente ou não, ao reunir referências a tantos ícones da cultura alemã, Pawel Pawlikowski nos lembra que, mesmo num mundo em ruínas, a arte sobrevive inabalável.
Filme visto durante o 79o Festival de Cannes, em maio de 2026
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