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Em Soudain, Marie-Lou, diretora de uma clínica para tratamento de idosos portadores de Alzheimer, tenta implementar um novo método de tratamento, mais humanizado. Um encontro repentino com a autora teatral e filósofa Mari irá transformar a vida das duas mulheres. Drama.
Crítica
O primeiro comentário que se pode fazer a respeito de Soudain (que na tradução do francês para o português significa De Repente) é: não se assuste com a duração de 3h15. Sabe-se que o tempo é algo precioso em um festival como Cannes, e os filmes selecionados estão cada vez mais longos, mas a sensação deixada pelo novo trabalho de Ryusuke Hamaguchi é a de que não há um minuto supérfluo sequer.
É a primeira produção internacional falada em francês do diretor japonês de Drive My Car (2021) – que tinha 3h de duração e que venceu os prêmios de Melhor Roteiro e da Crítica (FIPRESCI) em Cannes. Soudain é inspirado no livro não-ficcional You and I: The Illness Suddenly Get Worse, que consiste na troca de cartas entre a antropóloga/médica Maho Isono e a filósofa Makiko Miyano sobre a inevitabilidade da morte e diferentes formas de encará-la. Na ocasião, Makiko convivia com um câncer de mama em estágio avançado e morreu em 2019, aos 42 anos.

Hamaguchi e a co-roteirista franco-japonesa Léa Le Dimna trouxeram a ação para Paris, ambientando o filme majoritariamente em torno da rotina de Marie-Lou (Virginie Efira), diretora de uma clínica para tratamento de idosos portadores de Alzheimer. O local, que no passado fora um hospital psiquiátrico, agora se chama Jardim da Liberdade, e Marie-Lou tenta implementar um novo método de tratamento, mais humanizado. A técnica, ao mesmo tempo em que desafia os protocolos tradicionais e pode ser benéfico aos pacientes, requer dedicação extra de uma equipe que já sofre com carga de trabalho excessiva e falta de investimento governamental.
Ao perceber um adolescente autista perdido num parque, ela o acolhe até encontrar os responsáveis: o avô dele, um ator japonês, e Mari (Tao Okamoto), a autora da peça que eles estão encenando na cidade. É esse encontro repentino que irá transformar a vida das duas mulheres. No debate com a plateia após a peça, Marie-Lou, que fala japonês porque estudou antropologia no Japão, relaciona o tema do espetáculo com sua experiência profissional, enquanto Mari, que estudou filosofia na França, aproveita para responder também em japonês que tem poucos meses de vida por causa do câncer e que a peça é uma reflexão filosófica disso. Alguém na plateia pede que traduzam, mas o ator intercede dizendo que não há necessidade, pois o que foi dito no diálogo é de foro íntimo e bastante pessoal.
Se a plateia do espetáculo não teve acesso, o público do filme passa a ser um espectador privilegiado da amizade profunda que se constrói entre as duas a partir de suas afinidades. Elas passam aquela noite, e os dias que se seguem, conversando, e Hamaguchi sabe como poucos no cinema contemporâneo valorizar o diálogo na construção das performances e da dramaturgia. À primeira vista, a conexão profunda e imediata que se dá entre elas sugere que desembocará numa relação de amor carnal entre as duas, mas seria previsível demais e igualaria Soudain a filmes comuns como La Vie D’Une Femme (2026), apenas para citar um dos concorrentes em Cannes desse ano.
Hamaguchi está indo muito além, redimensionando o significado de amor e amizade. Seu cinema é singular justamente por desafiar as convenções de modo a parecer ao mesmo tempo simples e cuidadoso na forma. Ele dá tempo ao espectador de perceber e valorizar a construção psicológica das personagens. Não cansa porque o que é dito importa tanto quanto o como é dito. Podem ser divagações sobre a morte em um passeio contemplando o horizonte; pode ser Mari explicando sua tese de maneira didática, com auxílio de pilot e um quadro branco, sobre os malefícios do capitalismo na relação com a democracia e a natureza.

Há, entretanto, um outro “filme dentro do filme”: é o que remete a um certo cinema francês contemporâneo, engajado e humanista, comprometido com o realismo social, dialogando com títulos como Uma Bela Vida (2024), de Costa-Gavras, On The Adamant (2023), de Nicholas Philibert, e Entre Os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet, por exemplo. As dificuldades de Marie-Lou para colocar suas ideias em prática, e a resistência da enfermeira mais antiga, remanescente do hospital psiquiátrico, são fontes de conflito no filme. Mas as cenas acabam suavizadas e banhadas de beleza e poesia quando Mari também se insere na rotina da clínica e dos pacientes, que interpretam a si mesmos.
No fim das contas, Soudain mostra que a vida e o que resta dela pode ser bela na forma como lidamos e nos deixamos transformar pelo sofrimento e a morte, e isso é traduzido aqui por um cinema de excelência que nos conecta e emociona profundamente, sem jamais derrapar no sentimentalismo ou na pieguice.
Filme visto durante o 79o Festival de Cannes, em maio de 2026
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