Onde Assistir
Sinopse
Em Fjord, o casal Gheorghiu, profundamente religioso e recém-estabelecido em uma vila isolada em um fiorde distante, aproxima-se dos vizinhos Halberg enquanto suas famílias tentam construir laços em meio a diferenças culturais e educacionais. A convivência entre os filhos se intensifica, até que o surgimento de marcas no corpo da adolescente Elia levanta suspeitas na comunidade sobre os métodos de criação adotados pelos pais. Drama.
Crítica
O romeno Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro e o prêmio da crítica (FIPRESCI) com o pesadíssimo drama 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (2007), há quase vinte anos. Dessa vez ele compete em Cannes com Fjord, uma historia ambientada na Noruega que traz uma nova abordagem sobre um tema bastante atual: a intolerância religiosa.

Habitualmente nos acostumamos a entender essa acusação como preconceito por parte de pessoas ou instituições religiosas em relação a quem não compartilha de seus dogmas. No caso de Fjord, a intolerância se manifesta contra os religiosos. Não estamos falando, por exemplo, de muçulmanos sendo discriminados num ambiente judaico ou vice-versa, nem de evangélicos destruindo centros de umbanda ou candomblé. O que torna o filme original e ao mesmo tempo provocador é que ele se passa em um país como a Noruega, com o sentimento contrário surgindo em um ambiente progressista.
A chegada da família Gheorgiu (pai romeno, mãe norueguesa e cinco filhos) para morar numa cidadezinha na bela região dos fiordes noruegueses é tranquila: Mihai (Sebastian Stan) vai trabalhar no setor de TI de uma empresa, Lisbet (Renate Reinsve) como enfermeira e as crianças são extremamente bem recebidas na escola – ou seja, uma acolhida excepcional, que se estende à vizinhança. Só há um detalhe: eles são cristãos fervorosos que cultivam ideais extremamente conservadores.
O conflito surge quando a filha adolescente aparece na escola com hematomas no pescoço. Pressupondo que ela tenha sido agredida pelo pai, uma professora aciona o conselho tutelar, que determina que os filhos sejam imediatamente retiradas do convívio dos pais e fiquem morando com tutores escolhidos pelo governo enquanto a investigação é conduzida. Um processo que pode perdurar meses e causar um efeito traumático nas crianças, que pelo que se percebia viviam num lar harmonioso. Mas para as autoridades locais isso não importa frente ao risco que elas corriam em um ambiente religioso – por esse perigo entenda-se as palmadas que o pai assumia dar de vez em quando nos filhos, e a recusa a valores progressistas, como por exemplo, não aceitar que uma colega da escola possa se assumir como homossexual desde a adolescência.

A condução do processo judicial, que pode culminar com Mihai indo parar na cadeia, expõe as contradições de um modelo social que até então poderia ser encarado como exemplar, e faz com que espectadores que fazem parte da bolha intelectual progressista enxerguem outro lado da questão religiosa. Mungiu os tira da zona de conforto sem tomar partido: não se trata de um filme conservador por colocar progressistas como “vilões” (em seu depoimento, uma das tutoras diz que agora as crianças são felizes porque permite que elas tenham acesso a YouTube e TikTok no celular). Ou seja: Fjord é um filme necessário pelo debate que suscita, mas pena que como cinema seja um tanto corriqueiro, em parte expositivo demais, e na segunda metade vira um drama de tribunal pouco criativo.
Filme visto durante o 79o Festival de Cannes, em maio de 2026
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