Valor Sentimental

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Sinopse

Em Valor Sentimental, as irmãs Nora e Agnes reencontram seu pai distante, Gustav, um diretor de cinema outrora renomado que oferece à filha mais velha um papel naquele que espera ser seu filme de retorno. Quando a garota recusa a proposta, descobre em seguida que ele deu o papel a uma jovem estrela de Hollywood. De repente, as duas irmãs precisam lidar com a complicada relação familiar e com a presença inesperada de uma atriz americana inserida no meio de um drama que vem se arrastando por anos. Drama.

Crítica

A incapacidade da comunicação. A impossibilidade de se estabelecer uma simples conversa, franca e reveladora, percorre os quatro personagens principais de Valor Sentimental. Essa crise tão íntima quanto profunda se dá em maior força entre os dois protagonistas – não por acaso, pai e filha – mas se percebe também na relação dos dois com a filha caçula (dele) e irmã (dela), da mesma forma como estará no contato fragmentado, por vezes mais esforçado do factual, que irá se suceder entre o homem e aquela que ele escolhe para substituir uma parte de si na ausência daquela real. Para alguém que está ao curso de toda uma vida habituado a alternar diálogos e desabafos por fantasias e representações, a troca de uma pela outra pode até mesmo lhe parecer natural. Mas o ato guarda em si tanto revolta, quanto ultraje. É como se o protesto daquela que deveria ocupar tal espaço não tivesse sido ouvido, e se ainda assim fosse esse o caso, não merecesse o devido registro. O artista busca por meio do ofício uma forma de pela qual se manifestar, esquecendo que a arte é complemento e espelho, mas não o real em si.

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Quando o espectador primeiro se depara com Nora (Renate Reinsve, compondo com suavidade, atenta ao mínimo para ir além do óbvio, uma figura tão complexa, quanto contraditória), a encontra à beira de um ataque de nervos. Longe de ser uma mulher de Almodóvar, sua linhagem escandinava a coloca alinhada ao silêncio e à intensidade de um drama bergmaniano. Praticamente empurrada para o palco que lhe causa tamanha aflição, uma vez em cena cumpre o que dela se espera com a esperada entrega. Da mesma forma se coloca diante dos momentos mais tensos, flutuando entre o escape – quando pega de surpresa, até uma fuga pelos fundos se mostra viável – e o deboche – nem mesmo nua, na cama ao lado do amante, consegue se revelar por completo. Pois isso significaria abrir uma parte de si que ela não apenas não quer tomar conhecimento, mas finge não existir. Um dos poucos momentos em que suas defesas parecem não ter utilidade é quando está ao lado daqueles que passaram pelo mesmo que ela – a irmã, o pai. Dele, o distanciamento soa como o melhor a ser feito. Dela, não há como evitar. E assim, quando restam apenas as duas, a verdade surge sem desvios.

Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) é o alicerce sobre o qual a família luta para se manter. É quem aceita o retorno paterno, assim como não permite o afastamento da irmã mais velha. É a responsável também pelas melhores declarações – a primeira, ao confrontar o pai, afirma não querer para o filho o mesmo sofrimento por ela experimentado após o abandono deste (“num instante eu era o centro do seu mundo, para logo em seguida você simplesmente desaparecer, como seu eu nunca tivesse sequer existido”); a segunda, numa conversa franca com Nora, responde o óbvio ao ser questionada como pode ser tão centrada diante de todos os traumas aos quais ambas foram sujeitas em suas criações (“a diferença é que eu tive você para me proteger”). Lilleaas empresta ao filme do diretor Joachim Trier um olhar inquisidor, que transmite muito apenas pela forma como se posiciona ou pelo sentido ao qual se dirige, tornando qualquer discurso não apenas desnecessário, mas excessivo. Ela é mais do que um porto seguro: é a certeza que falta aos demais de que todo esforço, por mais improvável que se anuncie, há de ser justificado.

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A convivência cotidiana responde por um sacrifício que nem todos estão dispostos a atravessar. Quando a família se desfaz, é o homem que parte. Ele olha para frente – para o trabalho – sem pensar no que deixou. São essas duas filhas com as quais ele terá que lidar nesse momento de reencontro a partir de outra partida, a morte da mãe (e ex-esposa). Restam apenas os três, ele com um objetivo, elas tentando identificar o espaço que eventualmente ocupariam nessa nova formação. Stellan Skarsgard se confirma gigante na pele de um personagem cansado de carregar tanta de bagagem, mas que finge rir de si e dos pequenos conflitos dos outros para não ter que encarar as pendências deixadas pelo caminho. Diante de uma inesperada – para ele, ao menos – recusa, trata logo de buscar por uma substituta. A atriz interpretada por Elle Fanning – tão graciosa em sua presença, quanto gradualmente assustada à medida em que vai percebendo o desafio no qual foi colocada – imagina ter sido convidada para apenas mais um papel, mas as vontades ao seu redor lhe exigem mais. Aceitar ou não o que lhe é exigido coloca em teste sua independência e autoridade. Permanecer parece lhe diminuir, mas o abandono poderá, de fato, se configurar como uma opção?

Responsável por histórias dispostas a mais do que uma única leitura, como A Pior Pessoa do Mundo (2021) – título esse tão enigmático, quanto revelador – e Oslo, 31 de Agosto (2011), o dinamarquês Joachim Trier parte de um drama tipicamente familiar para discutir arte e memória, tragédias que ecoam por gerações e o poder recuperador da criação frente a uma estabilidade nervosa e congelante. Valor Sentimental parece falar apenas de uma casa e daqueles que nela habitam – ou lá estiveram – e assim, de fato, o faz, mas não se contenta em apenas percorrer tais cômodos, ampliando estes mesmos espaços por meio de uma busca constante por paralelos, embates e conjunções. O que era intrínseco logo se mostra irrelevante, a brincadeira ganha espaço em meio às cicatrizes que inevitavelmente se revelarão, e laços até então esquecidos – ou por demais ocasionais para se apresentarem firmes – apontarão para uma solidez que cada um a seu modo tirará proveito. A que verá no adeus a oportunidade de se validar, a que apenas por seguir em pé fará diferença, a que somente no momento que enfrentar seus fantasmas encontrará as forças para seguir. E entre elas, o pai tão ausente, quanto presente, seja de forma física, ou mesmo enquanto sombra. Alertando tanto para onde ir, como também o exemplo a não se repetir.

Filme visto durante o 27o Festival do Rio, em outubro de 2025

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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