Uma Segunda Chance

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Sinopse

Em Uma Segunda Chance, Kenna retorna à sua cidade natal no Wyoming após cumprir sete anos de prisão por um erro que marcou sua vida. Determinada a recomeçar, tenta reconstruir sua história e conquistar a oportunidade de finalmente conhecer a filha pequena, de quem foi separada desde o nascimento. Romance.

Crítica

Há um novo Nicholas Sparks na praça. Sim, o autor de romances melosos como Diário de uma Paixão (2004) e Querido John (2010) – e cuja última adaptação a chegar aos cinemas foi o esquecível A Escolha (2016), há exatos dez anos – foi substituído pela escritora Margaret Colleen Fennell, conhecida apenas por Colleen Hoover. Após o polêmico É Assim Que Acaba (2024) – que acabou sendo mais falado pelas brigas nos bastidores do que sobre os (questionáveis) resultados apresentados em cena – e o discreto Se Não Fosse Você (2025) – cuja única observação digna de nota foi ter feito parte da trinca de filmes estrelados por Mason Thames no mesmo ano que o elevaram à condição de “astro da temporada” – ela está de volta com esse Uma Segunda Chance, um título tão genérico quanto a trama que apresenta. No entanto, apesar das baixas expectativas que o argumento combina, há de se considerar que poderia ser pior. Evitar clichês desnecessários e contornar facilidades óbvias ajudam a fazer do conjunto, se não inesquecível, ao menos passável.

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A comparação com Sparks não é descabida. Hoover, assim como seu colega de escrita, é hábil em agrupar personagens donos de passados traumáticos, envoltos por romances aparentemente impossíveis e que, a despeito das probabilidades, acabam encontrando um final feliz em meio às adversidades pelas quais se veem sujeitos. Uma Segunda Chance, aliás, poderia servir de batismo a qualquer um dos romances escritos pela dupla. Afinal, na maioria dos enredos por ambos imaginados seus protagonistas são vistos no começo com desconfiança, mas a partir do momento em que fazem por merecer um voto de credibilidade uma aproximação lenta, porém gradual, ganha espaço, alterando não apenas as suas vidas, como também as daqueles ao redor. As paixões se mostram mais fortes do que a razão, as resistências vão sendo aos poucos derrubadas e mesmo os que torciam contra se verão tendo que dar o braço a torcer. É uma cartilha, portanto, na qual o que menos importa é o destino, uma vez que será no percurso percorrido em que se concentrarão as atenções.

Quem necessita de uma oportunidade para mostrar seu valor é Kenna (Maika Monroe). Recém saída da prisão, possui um caderno de anotações no qual rabisca constantemente. Logo o espectador perceberá que ela está cumprindo uma lista de tarefas auto impostas, como a de retornar para a cidade onde agora se encontra. Arrumar um emprego e um lugar para ficar são os próximos passos. Enquanto organizar o que fazer, acaba entrando no bar comandado por Ledger (Tyriq Withers). A atração que surge entre eles é imediata e visível. O caminho mais frequente, em casos assim, seria que um envolvimento entre os dois ocorresse, para que somente depois as intenções dela viessem à tona, num movimento que o permitisse acusá-la de traição e interesses escusos. Felizmente, essa lógica não se repete. Logo nesses contatos iniciais a vontade da garota é esclarecida: retomar contato com a filha, de apenas cinco anos, a quem não vê desde o nascimento. A menina é criada pelos avós paternos. Pais, aliás, do melhor amigo de Ledger. Rapaz esse que foi morto em um acidente, uma tragédia pela qual Kenna acabou levando a culpa, o que explica seu tempo no cárcere.

O olhar feminino não está apenas na autora da história original. As mulheres estão também em maioria atrás das câmeras. A diretora é Vanessa Caswill (Amor à Primeira Vista, 2023), enquanto que o roteiro foi finalizado por Lauren Levine – em parceria com Hoover. Elas também se fazem presente na produção (Gina Matthews), na montagem (Michelle Harrison), no figurino (Jayna Mansbridge) e no design dos cenários (Francesca Massariol). Esse olhar se percebe no desenrolar da história. A começar pela escolha dos protagonistas. Conhecida por títulos de terror, como Corrente do Mal (2014), Longlegs: Vínculo Mortal (2024) e o recente remake de A Mão Que Balança o Berço (2025), Monroe não é uma escolha óbvia para o papel da moça solitária que precisa encontrar forças para tornar evidente sua inocência e índole, mas ela contorna esse desafio em um mergulho interessante na lógica de um tipo calado, mas com algo a ser dito. O envolvimento dela com o bonitão não é instantâneo, e isso também colabora. Withers, por sua vez, soa anacrônico ao contexto. Por mais que um ou outro diálogo tente lhe oferecer desculpas – a mãe que mora distante, a carreira como atleta que não deu certo por um acidente físico – tudo é apenas tangenciado, sem ser explorado a contento. É como se ali estivesse apenas esperando pela chegada daquela que agora está em seus braços.

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A despeito destas improbabilidades, o maior problema dessa tentativa de Uma Segunda Chance estabelecer uma conexão mais sólida com a audiência está na fragilidade de sua premissa. O que fica evidente com o andar dos acontecimentos é que tudo poderia ser resolvido de forma prática, com um advogado ou mesmo uma ligação de telefone dedicada a esclarecer os mal-entendidos. Mas, se assim fosse, esse filme não existiria. Portanto, mais do que contar uma história de arrependimento e recuperação, o que Collenn Hoover busca é agregar novos admiradores ao seu estilo de narrativa, algo que até envolve no durante, mas que dificilmente se sustenta no depois. Basta uma reflexão nem tão apurada, mas minimamente atenta, para que se perceba absurdos e equívocos colocados no intento de prolongar resoluções, e não a favor dos envolvidos ou dos dramas que carregam. Bonitinho, é fato, mas também bastante ordinário.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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