Premiado no Festival do Rio 2025, o drama Criadas, enfim, chega aos cinemas. Dirigido por Carol Rodrigues e distribuído pela Vitrine Filmes, o longa é estrelado por Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti. Na trama, Sandra retorna à casa da prima Mariana em busca de uma foto de sua mãe falecida, que trabalhou como empregada doméstica para os pais de Mariana. O reencontro as leva a confrontar antigas feridas, enquanto uma força sobrenatural as espreita. E para falar mais sobre a aposta, o Papo de Cinema conversou, remotamente, com Mawusi e Ana Flavia. A seguir, fique com um trecho em texto e, em seguida, com o bate-papo, na íntegra, em vídeo:
ENTREVISTA :: MAWUSI TULANI E ANA FLAVIA CAVALCANTI, ATRIZES DE CRIADAS
Ao comentar a importância da comida dentro de Criadas, Mawusi destacou que os pratos preparados ao longo da narrativa funcionam como verdadeiras pontes para memórias familiares e afetivas, especialmente para Sandra, personagem marcada por lacunas em sua própria história.

“Existe uma cena em que ela prova um tempero e aquilo desperta uma lembrança muito específica. É uma memória ligada à mãe, mas também uma memória que, de certa forma, estava adormecida. Talvez fosse algo que ela não quisesse acessar ou que estivesse guardado em algum lugar muito profundo. Quando Mariana traz essa comida, acaba oferecendo para Sandra a possibilidade de revisitar essas lembranças e reconstruir parte dessa memória.”
Na sequência, Ana Flavia Cavalcanti observou que a culinária também se transforma em um elo entre as duas protagonistas, funcionando tanto como gesto de aproximação quanto como elemento capaz de despertar sentimentos contraditórios. “Existe uma tentativa de aproximação da Mariana em relação à Sandra. Ela quer conquistar essa prima, mas, ao mesmo tempo, quanto mais cozinha, mais desperta questões que estavam guardadas. Sandra começa a lembrar da mãe, do tempero, das ausências e das perguntas que carrega. A comida provoca esse movimento emocional”.
A atriz também ressaltou que a relação das personagens com a culinária dialoga diretamente com a experiência histórica das mulheres negras no Brasil, tradicionalmente responsáveis por preservar e transmitir saberes através da cozinha. “Quando Sandra incentiva Mariana a cozinhar, existe também um reconhecimento daquilo que ela faz de melhor. E isso tem um significado muito profundo. No Brasil, quem historicamente cozinha, tanto em suas próprias casas quanto nas casas onde trabalha, são as mulheres negras. Grande parte dos sabores e temperos que fazem parte da nossa memória coletiva foi construída por elas”.
Por fim, Ana Flavia destacou que a comida ocupa um lugar central na preservação da memória e da ancestralidade, especialmente para personagens que buscam compreender melhor suas próprias origens. “A comida carrega força, memória e herança africana. Ela atravessa gerações e preserva histórias. Se isso já tem um significado tão poderoso para todos nós, imagine para uma personagem como Sandra, que está justamente tentando reconstruir partes importantes da própria memória e da própria identidade”.
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