Dia D

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Sinopse

Em Dia D, o primeiro contato da humanidade com vida extraterrestre mudou completamente a percepção sobre o lugar do ser humano no universo. Diante desse fato, o governo dos Estados Unidos tem feito de tudo para manter essa percepção distante do grande público, em um segredo que tem se mantido por quase um século. Afinal, como as diferentes populações lidariam com o impacto de uma presença desconhecida que desafia certezas estabelecidas? Mas um homem está disposto a colocar tudo isso em risco, decidido a levar a verdade a todos. Ficção científica

Crítica

Escute”. Essa é a mensagem que fica com o espectador após o término de Dia D, o trigésimo quinto longa-metragem de Steven Spielberg a chegar aos cinemas. Mais do que isso, esse é o quinto projeto assinado pelo cineasta que tem na presença alienígena na Terra o foco de sua ação. Porém, se em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) ou em Guerra dos Mundos (2005), por exemplo, o interesse estava mais em como reagir a partir da chegada destes seres ao nosso planeta, dessa vez o debate está direcionado a quem tem ou não direito de estar a par dessa verdade. Matematicamente falando, a possibilidade do ser humano estar sozinho em todo o universo é próxima de zero. Portanto, uma vez que pode ser encarado como fato a existência de habitantes em outras galáxias, quem determina quem deve ou não compartilhar dessa confirmação? O diretor, já se aproximando dos oitenta anos e em atividade desde os anos 1970, demonstra maturidade em não simplesmente correr atrás das reações imediatas, dedicando-se a olhar, portanto, para tanto para as causas, como também para as suas mais profundas consequências. O que – e quem – seria afetado a partir do momento em que não houvessem mais segredos a respeito? Trazendo mais perguntas do que respostas, entrega uma obra que funciona em diferentes camadas de entendimento, revelando uma maturidade que se encaixa com precisão ao discurso.

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Sem se preocupar com grandes explicações ou mesmo em oferecer qualquer tipo de contexto, Dia D começa no meio da ação. Spielberg retoma pela quinta vez a parceria com o roteirista David Koepp, o mesmo de Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993) e de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008) – e nesse último já havia a participação de alienígenas. Aliás, foi uma reclamação bastante comum à época do lançamento da quarta aventura do arqueólogo Jones, a inserção de extraterrestres como um deus ex machina (protestos que ignoravam o uso de elementos sobrenaturais ou mesmo fantasiosos nos episódios anteriores do personagem), que novamente se repetem, porém de modo inverso – será que faltam ETs dessa vez? Pode até ser, por mais que eles não estejam, de forma alguma, ausentes. Só não estão no centro da discussão. Não é tanto se eles existem ou não, o que vieram fazer aqui ou o que pretendem, menos ainda como homens e mulheres irão reagir diante destes visitantes. É, sim, sobre como a humanidade se portará entre si diante não de uma possibilidade, mas de um fato.

O doutor Kellner (Josh O’Connor, finalmente se abrindo para um público mainstream, confirmando uma versatilidade que apenas os mais atentos desconfiavam) trabalhava justamente nessa área do governo dos Estados Unidos encarregada de esconder da população todo e qualquer registro alienígena no país. Porém, uma vez que consegue evidências factuais, decide levá-las consigo, com o intuito de torná-las públicas. Hugo (Colman Domingo, apagando qualquer má impressão deixada recentemente como o patriarca ganancioso de Michael, 2026) é o diretor de uma ONG dedicada a ajudá-lo nesse processo. Porém, os até então superiores de Kellner não permitirão que ele faça o que bem entender sem sofrer as devidas consequências. Antes de qualquer coisa, farão tudo que estiver ao alcance deles para impedi-lo. Ainda mais que o misterioso Noah (Colin Firth, exercendo todos os seus músculos de vilão de almanaque) aprendeu uma ou duas coisas com os visitantes extraterrestres e não tem medo de empregar estas novas… técnicas, por assim dizer.

Por mais que tenha dirigido dramas como A Cor Púrpura (1985) ou The Post: A Guerra Secreta (2017), histórias com fortes personagens femininas, Spielberg construiu uma vasta filmografia contando com homens como protagonistas. Em Dia D não é diferente, tanto para uma realidade, quanto para a outra. Pois, como apontado no parágrafo anterior, há meninos demais envolvidos nestes acontecimentos. Mas eles não estão sozinhos. E se a namorada de Kellner, Jane (Eve Hewson, que havia trabalhado com o diretor em Ponte dos Espiões, 2015, e é conhecida por ser filha do Bono, líder do U2), traz outra problematização a ser levada em conta – qual o envolvimento da religião e o papel da fé em uma situação como essa? – estará na jornalista e apresentadora vivida por Emily Blunt a grande surpresa do elenco. Quem ela é? Como foi afetada? Qual o nível de envolvimento dessa mulher, não apenas no presente, mas no decorrer de sua jornada pessoal? E como ela poderá interferir em meio a uma disputa que parece ter sido desenhada para e pelos adultos que estão na sala? De um modo ou outro, conseguirá se ligar a esse rapaz em fuga, e se tornará a voz de uma revolução há muito anunciada, que esperava apenas o instante certo para se tornar real.

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Dia D é mais do que um título. É também uma expressão que faz referência ao 6 de junho de 1944, quando as tropas aliadas desembarcaram na França, prontas para libertar a Europa do domínio nazista. Ou seja, foi o ponto de virada. Aqui, é visto como esse momento de mudança, um estalar de dedos decisivo que gera um antes e um depois. Após sua manifestação, nada mais será como antes. Porém, além de uma tomada de decisão, é também o ‘dia da revelação’ (tradução fiel do ‘disclosure day’ do batismo original). Enfim, é quando pontos de vista e experiências pessoais não mais terão tanta importância, frente a uma confirmação que estará acima de tudo isso. Em uma realidade na qual todo mundo quer falar, é chegado o momento, portanto, de… ouvir. Eis o que Spielberg tem a dizer com essa história que é tanto entretenimento – e da melhor qualidade, com passagens capazes de deixar qualquer um na ponta dos pés de tanta aflição – como também material de análise e reflexão. Sob qualquer um destes aspectos, um conjunto que permite diversas abordagens e desdobramentos, indo além do mero passatempo, mas ainda assim dono dos elementos certeiros que fazem dessa também uma opção digna de nota. E assim acerta mais de um alvo, confirmando uma mira que há décadas vem se revelando impressionante.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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