Feito Pipa

Crítica


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Sinopse

Feito Pipa acompanha Gugu, prestes a completar doze anos, que sonha em se tornar jogador de futebol enquanto cresce em uma pequena comunidade às margens do reservatório de Araújo Lima, cujas águas recuam e revelam as ruínas de uma cidade submersa. Criado pela avó Dilma, ele encontra nela um porto seguro diante da desaprovação do pai e dos olhares julgadores ao redor. Drama.

Crítica

Se você está perdido, basta procurar que acabará me encontrando. É só dar tempo ao tempo”, diz Cindy Lauper em uma das suas canções-assinatura. E é este também o sentimento pelo qual o protagonista de Feito Pipa acabará guiando sua estratégia de sobrevivência em meio a um cenário árido e desprovido de (grandes) esperanças. Após ter criado uma fábula musical e propositalmente tão leve quanto um romance de verão em O Melhor Amigo (2024), o cineasta cearense Allan Deberton volta em seu terceiro longa-metragem a se debruçar sobre emoções mais complexas, reações trabalhadas e envolvimentos que precisam ser maturados tanto pelo contexto que abraça os personagens, quanto pelos conflitos internos destes, assim como fez em seu trabalho de estreia, o premiado Pacarrete (2019). A pauta identitárias não é de forma alguma deixada de lado, e assim como está presente, não carece de bandeiras ou discursos panfletários para se manifestar. O que é, simplesmente existe. E os demais que aprendam como com essa verdade lidar. Por outro lado, há uma jornada pessoal a ser percorrida, e é na delicadeza do olhar proposto em que o filme encontra tanto a sua força, como angaria a simpatia da audiência.

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O título internacional desse projeto, pelo qual ele teve sua primeira projeção, ainda durante o Festival de Berlim 2026 (de onde saiu premiado na mostra Generation Kplus), é Gugu’s World, ou seja, O Mundo de Gugu. Este é o protagonista, vivido pela revelação Yuri Gomes. E é o cotidiano dele que o espectador é convidado a acompanhar desde a poderosa sequência de abertura, que de imediato anuncia o que vem pela frente: um menino com cerca de dez anos se arruma com maquiagem e figurino para executar a coreografia que a música que a todo volume ecoa pela casa exige, ao mesmo tempo em que ele faz daquele o seu palco pessoal. Isso logo é interrompido por um chamado que vem de fora. E a avó que chegou e pede que abra o portão para ela. A criança assim o faz, e após um carinho que refirma a conexão que une os dois, parte para fazer do mundo diante de si algo também seu. Preconceito, julgamentos e restrições não parecem ocupar o seu horizonte.

Mas estamos no interior, em um Brasil distante das grandes capitais, onde essas limitações ainda encontram espaço ainda mais livre para se desenvolver, crescer e assustar. Aos poucos se descobrirá que Gugu tem que lidar com o bullying dos colegas da escola – sem que os professores façam algo a respeito – e, ainda mais grave, com a reprovação do pai, que mora com sua segunda família. A mãe do garoto faleceu, e o breve comentário que explica sua morte é suficiente para apontar para mais uma das tantas injustiças sociais que seguem perdurando por todo o país. E da mesma forma como essa explicação se fazia necessária, ela também não precisa se demorar: afinal, essa é a história do menino que foi deixado para ser criado pela avó porque o pai não sabia como com ele lidar. E ainda que a relação entre os dois em mais de uma ocasião se aproxime do descontrole, esse nunca chega a se concretizar. Afinal, o debate proposto está no campo das ideias, das percepções e dos entendimentos, e menos na agressão física e na reiteração de violências há muito conhecidas e condenadas.

A existência por certo protegida de Gugu é, enfim, ameaçada de fato, quando a avó – em interpretação comovente e arrebatadora de Teca Pereira – começa a demonstrar sinais de demência. A narrativa, nesse ponto, entra em um impasse, com o menino primeiro tentando fingir normalidade, depois dando o máximo de si para proteger a idosa, para, somente então, aceitar que a dimensão dos novos fatos não estava mais sob sua responsabilidade. É quando ele é levado para morar com o pai, que felizmente ganha corpo e voz por meio de uma construção elaborada e repleta de camadas de Lázaro Ramos. Muito do que esse homem sente, os embates internos que enfrenta e os receios entre o que a cidade pode dizer sobre ele – a partir de como o filho é – e do que ele de fato sente não precisa vir à tona por meio de falas expositivas e didáticas: ele carrega tudo no olhar, nos gestos interrompidos, nas explosões contidas. Yuri Gomes se confirma um ator completo tanto pela interação de exerce com graça ao lado da avó, quando ele é livre para ser quem de fato é, como no esforço reprimido que por vezes permite vislumbre ao ser colocado frente ao pai. O trio de atores é certeiro em defender uma narrativa que só cresce pelo tanto que exibem, mas também por tudo que lutam para manter subentendido.

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A imagem recorrente do papagaio – ou pandorga, ou raia, ou cafifa, ou curica – que em mais de uma vez interrompe de forma sutil a cena faz sentido pois representa com precisão o estado enfrentado pelo protagonista: alguém que se imagina leve e solto para voar para onde bem entender, mas cuja situação é frágil suficiente para ser revertida por meio de um rápido puxão de corda de volta à realidade. Feito Pipa carrega poesia no batismo e no seu desenrolar de ações e afetos, ofertando ao todo muito além do que qualquer uma de suas partes, em separado, poderia por si só responder. Um chamado ao amadurecimento, que por vezes se confirma tão imperativo que nada contra ele pode ser feito, mas também um apelo rumo a um contexto de maior apreço e respeito um pelo outro. Não escondendo ou ignorando as individualidades, mas fazendo dessas o diferencial capaz de elevar o necessário a ponto de se tornar imprescindível. Seja no mais distante dos destinos, como também no mais próximo dos carinhos. Um gesto aparentemente simples, mas capaz de mudar o mundo. Tanto na fantasia a qual se pode recorrer para ir em frente, como na dura razão que se exige durante o crescer e transformar.

Filme visto durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, em agosto de 2026

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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