A atriz Laura Cardoso morreu na noite da última segunda-feira, 17, aos 98 anos, em sua residência, no bairro do Sumaré, em São Paulo. A informação foi divulgada nas redes sociais da artista e confirmada por sua filha, Fátima Cardoso. Segundo ela, Laura passou mal por volta das 23h20 e não resistiu. A atriz deixa uma das trajetórias mais extensas da dramaturgia brasileira, com mais de cem trabalhos em telenovelas e participações marcantes no cinema e no teatro. A seguir, relembre sua trajetória.
LAURA CARDOSO
INÍCIO NO RÁDIO E PIONEIRISMO NA TV
Nascida Laurinda de Jesus Balleroni em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, Laura teve contato com a interpretação ainda na infância. Aos 15 anos, em 1942, começou a trabalhar em radionovelas na Rádio Cosmos, passando posteriormente por outras emissoras, como Cultura e Tupi. Com a chegada da televisão ao Brasil, tornou-se uma das pioneiras do novo meio.
Em 1950, já estava presente nos teleteatros da recém-inaugurada TV Tupi, trabalhando com nomes importantes da primeira geração da televisão brasileira. Em 1954, estreou em telenovelas como em Ciúme. Ao longo das décadas seguintes, passou por emissoras como Tupi, Record, Excelsior, Rio, Band, TV Cultura e Globo, onde permaneceu a partir de 1983. Em 1964, integrou Quando o Amor É Mais Forte, primeira novela diária da TV Tupi. Nos anos seguintes, participou de dezenas de produções e construiu uma galeria de personagens que atravessou diferentes gerações.

TEATRO E CONSOLIDAÇÃO NA DRAMATURGIA
Embora já tivesse uma carreira estabelecida no rádio e na televisão, Laura estreou profissionalmente no teatro adulto apenas em 1959, aos 32 anos, com Plantão 21, dirigida por Antunes Filho. A partir daí, também construiu uma trajetória de destaque nos palcos. Entre seus trabalhos mais celebrados estão Vem Buscar-Me que Ainda Sou Teu, de 1990, e Vereda da Salvação, de 1993, ambas responsáveis por seus dois Prêmios Shell de Melhor Atriz. A carreira teatral também lhe rendeu diferentes troféus da APCA.
Na TV, acumulou personagens que se tornaram parte da memória da dramaturgia brasileira. Entre eles estão Marta, em Fera Radical (1988), Dona Cândida, em Felicidade (1991-1992), Dona Lila, em Mundo da Lua; Dona Isaura, em Mulheres de Areia (1993), Guiomar, em A Viagem (1994), Sinhana, em Irmãos Coragem (1995), Carmem, em Chocolate com Pimenta (2003), Laksmi, em Caminho das Índias (2009), e Doroteia, em Gabriela (2012).
RECONHECIMENTO NO CINEMA
Apesar de sua associação histórica à televisão, a atriz também construiu uma trajetória relevante no cinema. Sua estreia aconteceu em O Rei Pelé, documentário ficcionalizado dirigido por Carlos Hugo Christensen sobre a vida do jogador brasileiro. Um dos principais momentos veio com Através da Janela (2000), de Tata Amaral, no qual interpretou uma enfermeira aposentada cuja relação de dependência com o filho é abalada pela chegada de uma nova mulher à vida dele.
Já em Copacabana (2001), de Carla Camurati, interpretou Salma e conquistou o Grande Otelo de Melhor Atriz Coadjuvante. Em seguida, esteve em produções como Fica Comigo Esta Noite (2006), Muito Gelo e Dois Dedos d’Água (2006), Casa da Mãe Joana (2008) e Muita Calma Nessa Hora 2 (2014). Um de seus trabalhos mais celebrados veio com O Outro Lado da Rua (2004), de Marcos Bernstein, no qual viveu Patolina, amiga da protagonista interpretada por Fernanda Montenegro. Pela atuação, recebeu novamente o Grande Otelo de Melhor Atriz Coadjuvante. Mais tarde, destacou-se em De Onde Eu Te Vejo (2016), interpretando uma senhora solitária, papel que lhe rendeu mais um Grande Otelo na categoria. Também venceu o prêmio de Melhor Atriz no Cine Ceará pelo curta No Bar, Morte.
Em 2023, recebeu uma das maiores homenagens de sua carreira: o Troféu Oscarito, no Festival de Cinema de Gramado, pelo conjunto da obra. A homenagem ocorreu quando Laura tinha 95 anos e foi acompanhada de outras celebrações à sua trajetória, incluindo a inclusão de suas mãos na Calçada da Fama do festival.
ÚLTIMOS TRABALHOS
Ela permaneceu ativa mesmo depois dos 90 anos. Em 2019, participou da novela A Dona do Pedaço, como Matilde, avó da personagem Joana. No ano seguinte, esteve no filme De Perto Ela Não É Normal, interpretando Dolores. O último trabalho cinematográfico foi Dona Rosinha (2025), curta-metragem em que interpretou uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus.
VIDA PESSOAL
Laura Cardoso foi casada com o ator, roteirista, diretor e produtor de televisão Fernando Balleroni, que conheceu em 1949, quando os dois trabalhavam na Rádio Tupi. O casal teve três filhos: Fátima, José e Fernanda. José nasceu com um problema no sangue e morreu apenas três dias depois. Fernando Balleroni morreu em 1980.

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