Onde Assistir
Sinopse
Em Antártida, a cientista Inês é vítima de um crime brutal na Estação Comandante Diniz, em meio ao isolamento extremo. Sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base tornam-se suspeitos, incluindo seus superiores. Diante da situação, a subcomandante Elisabeth assume a investigação, enquanto as mulheres da estação se unem para enfrentar o medo, o silêncio e a violência em um ambiente onde a ameaça pode estar mais perto do que imaginam. Suspense.
Crítica
É mais frequente do que se imagina a necessidade que algumas verdades possuem de que sejam ditas, explicitadas com todas as letras, não lhes bastando apenas serem expostas, referenciadas ou brevemente mencionadas. Como o sequestro de algumas pautas identitárias ou de justiça social por narrativas que, por trás das bandeiras certas, não se eximem de resvalar na primeira poça que surgir no caminho, se posicionando de forma atabalhoada no debate cultural, não se importando com os tropeços, rotas equivocadas e ruídos atordoantes que porventura teriam marcado sua jornada até então. Como no caso desse Antártida, que surge em defesa de um tema de extrema urgência, mas que, ao mesmo tempo, se desenvolve de modo tão constrangedor que apontar o óbvio por vezes pode soar como um gesto ranzinza, quando de fato se trata apenas uma constatação evidente. Ou seja, por não abraçar um ideário moralmente questionável, isso não implica que sua execução estaria ilesa de apontamentos. Pois essa, sob um olhar detalhado, se confirma apressada e irregular. Afinal, uma percepção não anula a outra. E fazer o correto em seu discurso, sob hipótese alguma, deveria servir de salvo-conduto para que o conjunto seja perdoado até mesmo em seus deslizes.

Os personagens se encontram em uma base brasileira na Antártida, como apontado no título. Porém, o que logo virá à tona como centro do debate é uma realidade muito mais próxima do espectador. Num momento de troca de equipes, os que lá estão baseados recebem visitantes, como a pesquisadora Inês (Marina Ruy Barbosa, que se confirma a mais fraca do elenco, ainda que sua personagem seja uma das mais exigidas) e o capitão Vicente (Lázaro Ramos, abraçando com gosto o posto de vilão, como fizera na novela A Nobreza do Amor, 2026, e no longa Mundo Cão, 2016). Suas presenças acabarão dando origem a novos problemas, além daqueles com os quais os que lá se encontram já estão tendo que lidar. Como a falta constante de energia elétrica, um gerador sucateado e sem peças novas para conserto, um ambiente de pesquisa constantemente ameaçado pela instabilidade térmica e, para piorar, um comandante que tem demonstrado cada vez mais sinais de não estar apto para sua função. Algo de errado, portanto, se espalha entre todos. E caberá à subcomandante Elisabeth (Andréa Beltrão, segura do seu alcance e do desafio que tem diante de si) tomar as decisões que se fazem prementes, por piores que essas possam parecer num primeiro momento.
Sim, pois duas novas situações se impuseram a partir dessa nova dinâmica que se estabelece com a chegada das figuras que aos demais eram desconhecidas – ou quase isso. Pois Vicente é o ex-marido de Marina (Leandra Leal, sem alcançar a autoridade que sua presença exigiria) que foi até lá apenas para buscar – ou, melhor dizendo, exigir – uma retomada da relação. Ela se recusa, e aos poucos vai revelando, para si, para os colegas e para a audiência, seus motivos, tanto em argumentos, como nas marcas que carrega na pele. Homem violento, é do tipo que não aceita “não” como resposta. E o problema que parecia ser apenas dela, agora é de todos que estão ali confinados. Mas o cenário ainda piora, e assim acontece quando, após uma noite inaugural de recepção aos novatos, Inês acaba bebendo um pouco além da conta e é encontrada desacordada, do lado de fora da base. E pior: ela foi violentada. Quem teria lhe estuprado? E qual teria sido a motivação do crime?
Todas essas perguntas se depositam sobre as costas de Elisabeth, que ainda luta para fazer valer sua autoridade frente aos demais subordinados – Gero Camilo, João Vitor Silva, Henrique Barreira, Mariana Sena, Renan Monteiro, Adélio Lima e Marcos de Andrade completam a equipe – ao mesmo tempo em que precisa lidar com o segredo sobre a condição de saúde do comandante Barros, personagem de Antonio Calloni que, se tivesse ganho mais tempo em cena, poderia ter roubado o filme para si. Logo formam-se alguns subgrupos – Camilo e Andrade, gerando um diversionismo deslocado; Silva, Barreira e Sena, investindo em suas posturas joviais; e Monteiro e Beltrão, abrindo portas para um outro tipo de problemática – e cada um parece ter seus próprios motivos para se mostrar suspeito. Eis, portanto, um conhecido jogo de adivinhação de “quem é o culpado?”, bem aos moldes dos romances baratos de Agatha Christie. A questão é que uma vez eliminadas as razões de um ou de outro, sobrarão poucos a serem investigados. E assim que uma ou mais identidades se confirmam, ao invés de lidar com o crime em si, o diretor Bruno Safadi opta por investir em um outro tipo de lógica, apostando em um ‘gato-e-rato’ (fugir para onde, em um lugar tão no fim do mundo?) que serve apenas para aumentar a dimensão da tragédia, sem dar peso aos que de fato foram violentados. Enquanto um simplesmente é retirado de cena, outra se mostra cada vez mais silenciada, terminando com uma terceira que existe apenas para fazer a denúncia, pois sua relevância na trama praticamente desaparece após tal exposição.

Assim que a ação chega ao fim, um letreiro informa uma estarrecedora estatística sobre os números da violência contra a mulher no Brasil. Curioso Safadi e sua roteirista, e também cineasta Claudia Jouvin, terem optado por abraçar essa reflexão a partir de uma história ambientada tão longe, num cenário tão desértico e desprovido de conexões com o espectador. O frio almejado acaba por contagiar também a narrativa, que se por um lado se confirma previsível – a investigação assume rapidamente contornos tão claudicantes que poucos serão os que de fato se aterão a ela – por outro esvazia sua força pelo acúmulo de protestos sobre os quais faz questão de se debruçar, sem que um ou outro seja, enfim, desenvolvido a contento. O imbróglio marital parece existir apenas para despertar suspeitas sobre um perfil que nada ganha com um eventual atestado de inocência, enquanto que o comentário frustrado de que “ele é filho de deputado e por isso deverá escapar de acusações mais sérias” serve apenas para reforçar um olhar derrotista sobre o próprio país. Antártida finge uma mudança de ponto de vista, mas segue falando de velhos problemas sem conseguir orquestrar um roteiro capaz de equilibrar o que de fato precisa ser analisado em meio a um contexto minimamente lógico. Enfim, oportunidade desperdiçada.
Filme visto durante o 54º Festival de Cinema de Gramado, em agosto de 2026
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