A Última Casa

Crítica


4

Leitores


1 voto 6

Onde Assistir

Sinopse

Em A Última Casa, uma família de quatro pessoas se vê misteriosamente aprisionada dentro da própria casa, sem qualquer possibilidade de escapar. À medida que os alimentos se tornam escassos e uma força sombria parece controlar o confinamento, eles precisam permanecer unidos para sobreviver e descobrir a origem da ameaça que os mantém isolados. Thriller

Crítica

Muito tem se falado sobre os protagonistas de A Última Casa. Afinal, tratam-se de dois nomes que se encontram em plena ascensão hoje em Hollywood. Do brasileiro Wagner Moura, o que falar além daquilo que muitos já sabem? Premiado no Festival de Cannes, vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar por sua performance em O Agente Secreto (2025), os caminhos parecem lhe estar abertos – e promissores. O mesmo pode ser dito a respeito de Greta Lee, que conquistou audiências com seu retrato sensível como Nora em Vidas Passadas (2023) – drama indicado ao Oscar de Melhor Filme e que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro – confirmando um interesse que já vinha crescendo por suas participações em séries como The Morning Show (2021-2025) e Boneca Russa (2019-2022). Mas se eles carregam a história nos ombros, há de se observar o trabalho do condutor desse projeto, o cineasta Louis Leterrier. E qualquer um que o acompanhe mais de perto sabe que, em uma carreira que vem atravessando décadas, as decepções que entregou se sobressaem com folga em relação às (poucas) surpresas pelas quais foi responsável. E dessa vez não foi diferente.

20260815 a ultima casa netflix papo de cinema

O dia parece ter começado como mais um, ordinário e tranquilo. O marido saiu cedo para pescar, os filhos acordam de forma preguiçosa, a mãe e esposa prepara com cuidado o café da manhã que irá reuni-los em seguida. Quando o homem retorna, deixa o mundo externo para trás e os quatro se sentam à mesa. Planos para as próximas horas são traçados, tarefas compartilhadas e ideias surgem, dando sinal de um entendimento comum entre eles. Porém, quando o primeiro tenta girar a maçaneta da porta de casa, pronto para o próximo passo, o estranho adentra em suas vidas: ir para a rua não lhes é mais possível. E não apenas para essa família: ao observarem pelas janelas, logo descobrem que os vizinhos também estão trancados. Ninguém sai, ninguém entra. E a chuva começa. O que fazer a seguir? O espanto se manifesta, rapidamente sendo substituído por um sentido prático. Sem sinal de internet, telefone ou televisão, precisam contar apenas consigo mesmos para sobreviver diante daquele cenário que lhes foi imposto, confinados naquele espaço limitado.

Há uma alternância de humores entre os personagens que, se num espectro amplo até pode ser compreendido, por meio do tecido dramático exposto ela acaba se desenvolvendo de forma atabalhoada, ao invés de ser construída por meio de argumentos e decisões pessoais. Uma hora estão todos felizes assistindo a um filme no dvd player – uma das poucas mídias físicas remanescentes – para na seguinte enfrentarem acessos de fúria provocados por um sentimento de impotência frente ao extraordinário que parece ter alterado suas vidas para sempre. Não há mais a opção de sair e voltar, da troca e do mais-valia, do buscar lá fora aquilo que falta aqui dentro. Estão por conta própria. A mulher decide plantar as poucas sementes coletadas na terra abaixo do assoalho da sala, o pai aprende a caçar por meio de uma armadilha conduzida pela chaminé no telhado. Os filhos encontram, cada um de sua forma, maneiras de se fazerem úteis. Mas o mistério maior está não apenas no que provocou essa mudança, mas no sentido disso tudo. E entre visões rápidas e suspeitas não confirmadas, cresce a certeza de que algo – ou alguém – está lhes observando à distância. Ou talvez de muito próximo.

Leterrier despontou como apadrinhado do francês Luc Besson por meio de uma franquia de ação estrelada por Jason StathamCarga Explosiva 2 (2005) foi seu longa de estreia. Logo depois assinou o primeiro fracasso dos recém inaugurados Estúdio Marvel – O Incrível Hulk (2008). E entre remakes inócuos (Fúria de Titãs, 2010) e uma série que até gerou algum barulho (Lupin, 2021), manteve-se como um operário discreto, que sumia por detrás dos demais nomes envolvidos em suas produções. Se nem Velozes e Furiosos 10 (2023) foi capaz de mudar essa condição, é certo imaginar que não será esse A Última Casa que conseguirá alcançar tal feito. Pois como dito antes, o foco parece estar voltado demais aos atores, quanto que a eles cabe a menor das culpas. Greta tem a personagem mais sólida, enquanto que Moura tropeça na inconsistência de uma figura que parece nunca saber ao certo o que fazer – em um dos momentos mais críticos da história, será por meio de um descontrole que ele encontrará uma resposta que há anos buscavam (será mesmo que não tinham pensado nisso antes? Ou que não seria possível chegar a essa conclusão por meio de um raciocínio estruturado?). É o diretor, portanto, que merece os (ou a falta desses) louros por esse resultado.

20260815 a ultima casa filme papo de cinema

Sim, pois A Última Casa parte de um conceito por demais promissor. O filme abre por uma citação de Arthur C. Clarke – autor de clássicos como “2001: Uma Odisseia no Espaço” e reconhecido também como inventor e futurista – que afirma “quão curioso é esse planeta se chamar ‘Terra’, quando é obviamente ‘Água’”. É sabido que cerca de 70% da superfície terrestre é coberta por líquidos. E se num primeiro momento poderia se pensar ser essa uma aventura de influência extraterrestre, não seria incrível se a ameaça ao qual os tipos reunidos precisam enfrentar tivesse como origem uma região inexplorada daqui mesmo, e não de outras galáxias? Porém, por mais instigante que tal proposta pudesse ser, o diretor e seu roteirista, Matthew Robinson – que já havia percorrido situações apocalípticas em Amor e Monstros (2020) e no recente Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra (2025) – acabam optando por se focar no indivíduo (o desespero familiar) e em uma solução tirada do fundo da cartola (o inexplicável por si só), ao invés de se dedicarem a criar algo minimamente lógico. Enfim, a ação ao invés de uma narrativa minimamente elaborada. E assim, aquilo que poderia perdurar até mesmo como provocação, se esvai no mesmo instante em que chega ao fim, recaindo no genérico justamente pelo receio em ir além de uma eventual zona de conforto.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Grade crítica

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *