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O cineasta chileno Patricio Guzmán morreu na última terça-feira, 15, aos 85 anos, em Paris. A informação foi comunicada por sua esposa, Renate Sachse, à agência AFP. Segundo fontes próximas à família, o realizador sofreu uma parada cardiorrespiratória em um hospital da capital francesa. Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Guzmán transformou o cinema documental em uma forma particular de investigar a memória do Chile, desde o governo de Salvador Allende e o golpe militar de 1973 até as marcas deixadas pela ditadura de Augusto Pinochet. A seguir, relembre sua trajetória. 

PATRICIO GUZMÁN

INÍCIO E FORMAÇÃO

Patricio Guzmán Lozanes nasceu em 11 de agosto de 1941, em Santiago, no Chile. Antes de se dedicar integralmente ao cinema, estudou Teatro, História e Filosofia na Universidade do Chile e trabalhou durante alguns anos em uma agência de publicidade. Seu interesse pelo audiovisual cresceu por meio de experiências com filmes em 8 mm, até que passou a frequentar o Instituto Fílmico da Universidade Católica do Chile, onde teve contato com o cineasta e professor Rafael Sánchez.

Na segunda metade dos anos 1960, mudou-se para a Espanha e estudou na Escuela Oficial de Cinematografía de Madrid, onde se formou em realização cinematográfica. Antes de retornar ao Chile, também trabalhou em publicidade nos Estudios Moro. Foi nesse período de formação que consolidou a linguagem que posteriormente aplicaria ao cinema de não ficção.

ESTREIA NO CINEMA

Guzmán estreou no comando de um filme com o curta-metragem Apuntes sobre la tortura y otras formas de diálogo, de 1968. A obra já apontava para uma preocupação que acompanharia praticamente toda a sua trajetória: observar a realidade política e social chilena a partir das contradições de seu próprio tempo. O primeiro longa veio com El primer año (1972), registro dos primeiros doze meses do governo de Salvador Allende. O filme acompanhava as transformações vividas pelo Chile a partir do olhar de trabalhadores. A obra também marcou o início da relação de Guzmán com o cineasta francês Chris Marker, que se tornou fundamental para a circulação internacional do trabalho. 

Patricio Guzmán
Patricio Guzmán

A BATALHA DO CHILE

Foi, entretanto, com A Batalha do Chile que Guzmán entrou definitivamente para a história do documentário. Filmada entre 1972 e 1973, a trilogia acompanha o período imediatamente anterior ao golpe militar que derrubou Allende, com a câmera presente nas ruas de Santiago enquanto o país atravessava uma crescente crise política e social. Os três filmes – A Insurreição da Burguesia, O Golpe de Estado e O Poder Popular – foram concluídos e lançados entre 1975 e 1979.

O projeto foi interrompido pela própria história que pretendia registrar. Após o golpe de 11 de setembro de 1973, Guzmán foi preso e levado ao Estádio Nacional de Santiago. Posteriormente, deixou o Chile, enquanto parte do material filmado era retirada clandestinamente do país. Com apoio de Chris Marker e do Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficos (ICAIC), o diretor concluiu a montagem em Havana, ao lado do montador Pedro Chaskel. A trilogia tornou-se uma das obras mais reconhecidas do documentário político latino-americano. Exibida internacionalmente, recebeu importantes prêmios.

EXÍLIO E MEMÓRIA

Longe do Chile, Guzmán continuou a investigar o país por meio de filmes como En nombre de Dios (1987), sobre a atuação da Igreja Católica na defesa dos direitos humanos durante a ditadura, e La cruz del Sur (1991), dedicado à religiosidade popular latino-americana. En nombre de Dios recebeu, em 1988, menções honrosas do OCIC e do Peace Film Award no Festival de Berlim.

Em 1997, voltou ao Chile para realizar Chile, la memoria obstinada, retomando personagens e acontecimentos de A Batalha do Chile. O filme confrontava o esquecimento político ao apresentar a obra anterior a jovens que não haviam vivido aqueles acontecimentos e a pessoas que participaram diretamente deles. No mesmo período, Guzmán fundou o Festival Internacional de Documentários de Santiago, o FIDOCS. Chile, la memoria obstinada, aliás, recebeu o Grand Coral: Segundo Prêmio no Festival de Havana de 1997.

A TRILOGIA DA MEMÓRIA

A partir de Nostalgia da Luz (2010), Guzmán iniciou uma nova trilogia dedicada à relação entre a geografia chilena e as feridas do passado. No Deserto do Atacama, o cineasta aproximou os astrônomos que procuram vestígios do passado do universo das mulheres que continuam procurando restos mortais de familiares desaparecidos durante a ditadura.

Patricio Guzmán
Patricio Guzmán

O filme ampliou ainda mais seu reconhecimento internacional. Em 2010, recebeu o European Film Award de Melhor Documentário, e, no ano seguinte, venceu o prêmio de Melhor Filme da International Documentary Association. Em 2012, foi indicado ao Writers Guild of America Award de Melhor Roteiro de Documentário e, em 2013, recebeu duas indicações ao News & Documentary Emmy Awards, nas categorias de Melhor Documentário e Melhor Programa Histórico de Longa Duração.

Em O Botão de Pérola (2015), o diretor voltou seus olhos para a água, relacionando a história dos povos indígenas da Patagônia aos crimes cometidos durante a ditadura. Exibido na competição do Festival de Berlim, o longa rendeu a Guzmán o Urso de Prata de Melhor Roteiro e o Prêmio do Júri Ecumênico. Também foi indicado ao César, o “Oscar da França”, de Melhor Documentário.

A trilogia foi encerrada com A Cordilheira dos Sonhos (2019), no qual os Andes aparecem como uma espécie de testemunha silenciosa da história chilena. A obra conquistou o Olho de Ouro no Festival de Cannes. Também foi indicado ao César de Melhor Documentário.

ÚLTIMO FILME E RECONHECIMENTO

O último longa de Guzmán foi Meu País Imaginário (2022), dedicado às manifestações sociais que tomaram as ruas do Chile a partir de 2019. Exibido em Cannes, o filme voltou a aproximar a história recente do país da experiência de seus cidadãos, desta vez concentrando-se especialmente nas mulheres que participaram da mobilização. Em 2023, no aniversário de 50 anos do golpe militar, recebeu o Prêmio Nacional de Artes da Representação e Audiovisuais do Chile. A honraria reconheceu uma carreira “dedicada a registrar, investigar e revisitar a história de seu país por meio do cinema”.

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