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Sinopse
Em Três Vezes Adeus, Marta e Antonio veem seu relacionamento chegar ao fim após uma discussão aparentemente comum. Enquanto ele tenta seguir em frente mergulhando no trabalho, ela enfrenta um mal-estar que revela ter origens mais profundas do que um coração partido. À medida que a saúde de Marta se torna uma preocupação crescente, ambos são levados a repensar o amor, a perda e a possibilidade de encontrar serenidade diante da dor. Drama.
Crítica
Não há nada tão ruim que não possa ficar pior. Porém, mesmo diante de tão malfadadas perspectivas, como manter a esperança e o apego a todas essas pequenas coisas que compõem uma vida e, enfim, fazem do indivíduo um ser humano em toda a sua complexidade e amplitude? Essa questão conduz os eventos vistos em Três Vezes Adeus, longa escrito e dirigido pela cineasta espanhola Isabel Coixet. Esse sentimento de perda, aliado a uma necessidade pessoal de, uma forma ou de outra, seguir em frente, presente neste longa, faz eco a um dos primeiros projetos assinados pela diretora, talvez aquele que tenha lhe aberto as portas do cinema internacional: Minha Vida Sem Mim (2003), lançado há mais de duas décadas e que continha em seu discurso muitos dos temas e inquietações que aqui voltam a se manifestar, se não de maneira absoluta, ao menos pertencentes de uma visão mais geral e menos definitiva. O mundo continua, se não àquela diretamente afetada pela notícias que ninguém deseja receber, mas por todos os demais com quem travou contato. E assim, ela também permanecerá, não somente como lembrança, mas como elemento transformador. Eis a maior das ambições: a continuidade.

Marta e Antonio não estão bem. Mas também não há motivos para grandes preocupações – ou, ao menos, é o que ela pensava. Pois, para ele, aquela discussão, que para tantos poderia soar quase corriqueira, mais uma dentre tantas, algo que volta e meia se repete, está batendo como a gota capaz de fazer o copo transbordar. Era o restaurante dele, uma recepção na qual estava envolvido até o último detalhe, com boa comida, pessoas interessantes… e tudo o que ela queria era ir embora. Voltar para casa. Se possível, no caminho parar para comprar alguns biscoitos. E nada mais do que isso. Mas ele cansou. Não está disposto a “deixar pra lá”, como fez tantas vezes antes. E aquela rusga, boba até, vai crescendo, aumentando de tamanho, se tornando intransponível. Até que, já na cama, quando ele se vira sem desejar “boa noite” e de cara amarrada, ela pergunta aquilo que lhe parece impossível: “você vai me deixar?”.
Uma amiga lhe diz, tempos depois, que separação é como casamento ou um pedido de namoro: os dois precisam querer. Não adianta apenas ele fazer as malas e partir, se ela não está pronta. E ouvir isso tem um peso diferente, principalmente por não ser uma conhecida qualquer que está com ela compartilhando esse duro aprendizado. Trata-se da médica recomendada para que possa se consultar e descobrir o motivo da falta de apetite que tem lhe abatido nos últimos dias. Seria apenas o término da relação? Ou algo mais profundo? Sim, como um câncer, em estágio quatro, já irreversível. Um tratamento experimental, sem muitas comprovações de eficácia, pode até ser cogitado. Mas não como uma certeza. Essa parece ser outra: a de que o fim está próximo. Justo agora, quando não tem mais um companheiro ao seu lado, quando parece estar cada vez mais sem paciência com a irmã, quando o trabalho tem se mostrado irremediavelmente monótono. Antes de fazer as pazes com uma ou outra dessas conexões, precisa resolver as coisas consigo mesma. Estará na profundidade desse processo o maior ponto de interesse do filme.
Muito do bom resultado percebido em cena se deve também ao elenco, em especial à protagonista, interpretada por Alba Rohrwacher. Já tendo trabalhado com cineastas como Marco Bellocchio, Luca Guadagnino, Nanni Moretti, Pablo Larrain e Noah Baumbach, entre outros, e premiada em festivais como Veneza, Roma e Munique (além de ter dois David di Donatello), a italiana tem se confirmado como um dos mais interessantes nomes do cinema contemporâneo, seja pela complexidade que naturalmente dota seus personagens, como a leveza pela qual conduz estes mesmos tipos por meio dos árduos dramas que enfrentam. Estará em suas reações, tão enigmáticas quanto verossímeis, a porta de entrada para o espectador se aproximar dos medos, angústias, frustrações e tristezas que irão pontuar o caminho de Marta. Por outro lado, Elio Germano, geralmente visto como figuras histórias ou presenças ameaçadoras e imponentes, como Antonio se revela absolutamente comum, permitindo que o jogo de ambos seja identificado pela audiência. O abraço doído que trocam, já perto ao final dos acontecimentos, é de levar qualquer um às lágrimas.

O abandono calculado volta e meia se manifesta na obra de Isabel Coixet. Impressiona, porém, a habilidade da diretora em propor novos olhares, mesmo sem se afastar dessa semelhança temática que tende a permear e estabelecer pontes entre seus trabalhos. Dessa forma, Três Vezes Adeus é quase como uma continuação – se é que isso é possível – atualizada e contemporânea de Minha Vida Sem Mim, o que não deixa de fazer sentido, por mais improvável que possa ser a conexão entre tais argumentos. A lógica do não enfrentamento feroz e revoltado, substituído por uma apropriação compartilhada, reflete a ideia original contida por trás do batismo que faz referência ao trio de tigelas que o casal recebe como prêmio após uma troca de pontos no mercado da esquina. Algo tão banal, mas também imprescindível, aponta para essa urgência de não abraçar o mundo por inteiro, mas ir por partes, uma luta de cada vez. No seu devido tempo, uma batalha após a outra. Tanto no agora, quanto no antes, e se servir de memória, também no depois.
Filme visto durante o 13o 8 ½ Festa do Cinema Italiano por Generali, em julho de 2026
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