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Sinopse

Molly Bloom é, aparentemente, uma simples garçonete. Entretanto, ficou conhecida como a “Princesa do Poquêr”. Por trás da vida pacata, em seus horários vagos, mergulha pelo mundos dos jogos de pôquer organizados para estrelas de Hollywood e milionários de Wall Street, até o momento em que começou a ser investigada pelo FBI com alegações de organização de eventos ilegais e envolvimento com a máfia russa.

Crítica

Molly Bloom – a pessoa, e não a personagem de Ulysses, de James Joyce – foi criada para ser uma campeã. Aos treze anos, após um caso grave de escoliose, passou horas numa mesa de cirurgia para consertar a coluna. Conselho médico depois de todo esse trabalho? Nunca mais voltar a uma pista de esqui. Mas, sob a forte e constante supervisão do pai, em menos de um ano estava competindo novamente. Até que, graças a um incidente que tem a probabilidade de um em um milhão para acontecer, teve sua jovem carreira de atleta encerrada de vez. Mas o que seria mais um tropeço para alguém destinado a vencer na vida? Assim começa, de forma bastante auspiciosa, A Grande Jogada, longa de estreia de Aaron Sorkin como diretor. Porém, ao prometer tanto logo de início, tudo que ele consegue a partir de então é enumerar uma série de decepções – tanto na ficção quanto no lado de cá da tela, para quem se der ao trabalho de assistir ao longa – que transformarão essa experiência tortuosa em um exercício de grande exigência e pouca entrega.

Inacreditavelmente indicado ao Oscar na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, A Grande Jogada é baseado no livro Molly’s Game: The True Story of the 26-Year-Old Woman Behind the Most Exclusive, High-Stakes Underground Poker Game in the World, um relato pessoal da autora sobre sua jornada pelos jogos de azar em Los Angeles e Nova York. Jessica Chastain, uma boa atriz, porém com um péssimo agente, interpreta a protagonista. Após duas indicações consecutivas ao prêmio máximo da Academia – Histórias Cruzadas (2011) e A Hora Mais Escura (2012) – a estrela tem sido constantemente subestimada, seja em trabalhos elogiados (Dois Lados do Amor, 2014, ou O Ano Mais Violento, 2014), projetos populares (Interestelar, 2014, ou Perdido em Marte, 2015), ou mesmo em papeis de risco calculado (Miss Julie, 2014, ou Armas na Mesa, 2016). Ela tem talento, e demonstrou isso antes. Por isso, não precisaria passar por mais de duas horas de expressões forçadas, frases empostadas e jogos de cena que talvez tenham servido à personagem na vida real, mas que, ao serem encenados, assumem um ar de artificialidade que pouco contribuem em lhe oferecer algum tipo de credibilidade.

Como o filme tem como principal fonte os escritos da protagonista, é de se imaginar que seja essa uma versão branda dos fatos, sem se aprofundar muito no lado obscuro dos acontecimentos. Após abandonar o esporte, Molly termina o colegial e, antes de ir para a faculdade, decide tirar um ano sabático. Em meio a vários trabalhos de ocasião, é chamada para ser assistente de um empresário que, após algumas semanas, a coloca para auxiliá-lo na organização de um jogo de pôquer. Entre os presentes, estrelas de Hollywood, astros do rock, celebridades da televisão, empresários de sucesso. Com grandes quantias sendo apostadas e um olhar apurado para tudo que se passava ao seu redor, Molly logo assume o comando da função e passa ela própria a responder não só pela noite de jogos, mas também pelos convidados a se juntarem à mesa e pelos valores colocados em risco. Surpreendentemente, ao menos de acordo com esta visão, tudo corre relativamente bem, sem grandes surpresas ou desagravos. Até que uma carta cai fora do baralho, e o frágil castelo que havia montado para si vem abaixo (perdão pelo trocadilho).

Sorkin, roteirista vencedor do Oscar por A Rede Social (2010) e conhecido por textos rápidos e elaborados como os da série The West Wing (1999-2006) ou dos também oscarizáveis O Homem que Mudou o Jogo (2011) e Steve Jobs (2015), neste seu primeiro trabalho no comando dos bastidores demonstra tanta ânsia por expor o máximo de informação na tela que acaba afogando o espectador em meio a um número exagerado de dados e episódios que poderiam muito bem ser ignorados. Aliado a isso, há também a concepção equivocada da linha narrativa a ser desenvolvida, dividida em três tempos: a infância e juventude em família, como que a forçar uma relação da influência paterna sobre os atos da protagonista no futuro; a vida que ela levava em meio a altas somas de dinheiro, encontros secretos e até mesmo entre círculos mafiosos – as únicas sequências que chegam a elevar a temperatura da trama com algum tipo de emoção – e o tempo presente, quando é presa pelo FBI e se vê obrigada a recorrer a um advogado de primeira linha (Idris Elba, outro com problemas em escolher bons projetos, tendo aqui a cereja do bolo de um ano que já havia sido complicado, com os problemáticos A Torre Negra, 2017, e Depois Daquela Montanha, 2017), dando início a uma relação com um pé no melodrama e outro no psicologismo barato (o que a filha dele faz por ali? Não tem mãe? Não vai à escola?).

Com tantas outras produções mais interessantes à disposição, só mesmo o prestígio dos envolvidos para justificar a presença de A Grande Jogada na temporada de premiações – além do Oscar, colecionou indicações ainda ao Bafta, Globo de Ouro e Critics Choice Awards, além de associações de críticos e sindicatos de roteiristas e produtores). No entanto, o que de fato temos em nossa frente é um longa que provavelmente não resistirá ao escrutínio do tempo, devendo ser brevemente relegado ao esquecimento ou, em pior cenário, ao descaso após uma análise mais profunda. No entanto, nem mesmo Chastain ou Elba podem ser apontados como os responsáveis por esta quase-tragédia. O peso desta inegável conclusão recai, infelizmente, sobre os ombros de Sorkin, que parece não saber muito bem o que fazer com seus personagens – Kevin Costner deveria ter cobrado uma taxa de insalubridade pelo que fazem com ele, principalmente por sua aparição ‘fantasmagórica’ ao final – e muito menos como dosar tantos diálogos, vendo-se obrigado a recorrer, inclusive, a uma excessiva e cansativa narração em off que termina por tornar tudo ainda mais entediante.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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