Crítica


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Sinopse

Perdidos após um trágico acidente de avião, dois estranhos precisam forjar uma conexão para sobreviver aos extremos de uma remota montanha coberta de neve. Quando percebem que a ajuda não está vindo, eles embarcam em uma viagem de centenas de quilômetros. Empurrando um ao outro para suportar essas condições, uma atração inesperada surge entre eles.

Crítica

Há alguns anos, quando aparecia ao lado de estrelas como Julia Roberts (O Dossiê Pelicano, 1993), Meg Ryan (Coragem sob Fogo, 1996) ou Angelina Jolie (O Colecionador de Ossos, 1999), Denzel Washington, um dos maiores astros negros de todos os tempos, invariavelmente assumia o papel do ‘colega’ ou ‘amigo’, e nunca como par romântico destas atrizes – todas brancas, como se percebe. O disparate chegou a ser tão incômodo que o levou a declarar que só beijaria em cena atrizes negras e/ou latinas (de uma minoria, portanto) – abrindo espaço para chamarem nomes como Whitney Houston (Um Anjo em Minha Vida, 1996), Eva Mendes (Por Um Triz, 2003) e Paula Patton (Déjà Vu, 2006), por exemplo. A impressão é que o público aceitaria melhor um relacionamento que não fosse interracial. Pois bem, quase duas décadas se passaram e hoje estamos diante de Depois Daquela Montanha, com Idris Elba e Kate Winslet, um nos braços do outro, em uma trama que não faz a mínima menção à cor do casal. E este, acredite, é praticamente o único mérito digno de nota da produção.

O que, se pararmos para pensar, também é algo triste de ser apontado. Afinal, já está mais do que na hora de pares assim – e entre latinos, asiáticos ou qualquer outra diversidade possível – se tornarem comuns, e não uma gota no oceano. Porém, diante desta raridade – e em tempos cada vez mais retrógrados e conservadores como os que estamos atravessando – é importante não apenas atentar a esta mudança, mas também reconhecer e incentivar tal postura. No entanto, estamos falando de Hollywood, e como invariavelmente acontece, o caso resume-se ao tilintar das bilheterias. Porém, independente de uma ou outra exceção, o espectador responde mais facilmente a filmes bons ou ruins. E este aqui, infelizmente, restringe-se à segunda definição, a despeito dos esforços dos protagonistas.

Chama atenção também o fato de estarmos falando de um filme assinado pelo israelense Hany Abu-Assad, cineasta indicado ao Oscar de melhor longa em língua estrangeira por Paradise Now (2005) e Omar (2013). Após dois acertos como esses, sua ida para os Estados Unidos era quase inevitável – são poucos os que conseguem manter sua independência e autoralidade distante dos holofotes hollywoodianos, como o espanhol Pedro Almodóvar, por exemplo. Uma vez enquadrado no esquemão dos grandes estúdios, Abu-Assad demonstra nesta sua estreia em inglês ter perdido também toda a sua personalidade. Depois Daquela Montanha não poderia ser mais genérico. Baseado no romance de Charles Martin, ganhou roteiro escrito por J. Mills Goodloe (responsável pelo constrangedor Tudo e Todas as Coisas, 2017), com supervisão do irregular Chris Weitz (dos ótimos Um Grande Garoto, 2002, e Rogue One: Uma História Star Wars, 2016, e também dos problemáticos O Professor Aloprado 2, 2000, e A Bússola de Ouro, 2007). Como se percebe, com um conjunto de tantos altos e baixos, acertar na mira foi, realmente, uma tarefa impossível.

Alex (Kate Winslet) precisa voltar para Nova York, pois se casa no dia seguinte, enquanto que Ben (Idris Elba) também está com pressa, pois tem uma cirurgia agendada. Quando recebem a notícia de que o voo em que estariam foi cancelado devido a uma forte tempestade que se aproxima, a fotojornalista, acostumada a improvisos, decide contratar um monomotor para levá-la – e ao tomar conhecimento da situação vivida pelo neurocirurgião, o convida para dividirem os custos. Já nos céus, um acidente acontece – o piloto tem um ataque cardíaco – e acabam caindo no topo de uma montanha coberta de neve (esta, aliás, é de longe a melhor sequência de todo o longa). Após um ou outro arranhão – ele com alguns hematomas, ela com a perna quebrada – mas vivos e dispostos a esperar pelo socorro, não demora para que percebam que ninguém irá aparecer para resgatá-los. Por isso, terão que sair dali por conta própria, enfrentando intempéries, nevascas, ataques de animais selvagens e lagos congelados. Mas, como logo fica claro, o que importa é o sentimento que passam a nutrir um pelo outro, antes dois desconhecidos, agora juntos em uma situação insólita e aliados nessa luta pela sobrevivência.

Ou seja, é difícil criar qualquer tentativa de tensão com os percalços que vão vivendo nesta jornada, pois sabe-se que este não é um longa de aventura ou um drama calcado nos esforços de cada um, mas, sim, um romance meloso e, por vezes, exagerado. Até uma cabana no meio do mato eles irão encontrar para, diante de toda a adversidade proposta, terem sua primeira noite de amor. E assim, Elba e Winslet, dois intérpretes de talento mais do que comprovado, acabam reféns de uma trama piegas e sem nuances, na qual até o velho recurso de salvar o cachorro na última hora é empregado, aparentemente sem vergonha ou remorsos. Por fim, há o spoiler já apontado pelo título nacional – se o que importa é o que irá acontecer Depois Daquela Montanha, não será durante este episódio o fim dos dois, certo? É fato que os envolvidos mereciam mais e melhor, e terem se contentado com menos, portanto, verifica-se ser o maior desafio dessa fria que aqui se meteram.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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