Crítica


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Sinopse

Dez anos se passaram, e agora estamos em 1992. Os governos Reagan e Bush foram catastróficos para a causa gay, mas como Bill Clinton irá agir diante o avanço da AIDS? Cleve Jones está lidando com as consequências da doença, e talvez Ricardo, seu companheiro, não tenha a mesma força. Ken Jones perde o marido, Richard, e será justamente nesse momento de luto que precisará de todo apoio possível para seguir lutando. Enquanto isso, Roma e Diane precisam lidar com a questão da paternidade da filha única delas.

Crítica

Dez anos se passaram entre a segunda e a terceira noite de When We Rise. A minissérie criada por Dustin Lance Black, cineasta vencedor do Oscar pelo roteiro de Milk: A Voz da Igualdade (2008), foi exibida em quatro partes nos Estados Unidos, entre 27 de fevereiro e 03 de março de 2017. Cada um destes capítulos, no entanto, tinha cerca de 1h30min de duração – por isso que, no Brasil, cada um foi dividido ao meio, gerando oito episódios de aproximadamente 45 minutos. A formato internacional é válido, principalmente se lembrarmos que estamos falando de um tema muito importante – o movimento LGBT nos Estados Unidos e, consequentemente, em todo o mundo – e, quanto maior for sua visibilidade, melhor. Por isso, é importante ter em mente que em sua terra natal tenha sido exibido pela rede ABC, a maior emissora de canal aberto do país – como se fosse a nossa Globo, por exemplo. Pode se imaginar, portanto, a força dessa mensagem e os impressionantes números de audiência que gerou.

Estamos em 1992, e a colcha de retalhos que Cleve Jones (antes Austin P. McKenzie, agora Guy Pearce) imaginou uma década atrás adquiriu status de símbolo maior da luta contra a AIDS. No entanto, se a administração Reagan pouco fez pela causa, o cenário permaneceu o mesmo durante os anos do governo Bush. A questão, nesse momento, é como Bill Clinton irá lidar com essa situação. Cada pessoa da América que perdia um ente querido, um amigo, um companheiro ou amante, em função da doença, era convidado a contribuir com o seu pedaço desta gigantesca composição, que chegou a ter quase dois quilômetros de comprimento. Este episódio, assim, ganha força por resgatar uma pesquisa documental já presente no capítulo inicial, combinando imagens de arquivo com outras encenadas, com os personagens da ficção interagindo com aqueles reais. Uma mistura nem sempre eficiente, mas que se revela válida em nome da trama que defende.

Nossos três protagonistas estão em situações bem diferentes no início dos anos 1990. Roma (Mary-Louise Parker) e Diane (Rachel Griffiths) estão casadas, levam uma vida feliz, e o maior dilema que enfrentam no momento é a filha dessa, que, ao entrar na adolescência, começa a questionar suas origens – afinal, que é o pai da menina, fruto de uma iniciativa independente da mãe através de um doador de esperma anônimo? Com eles, acompanhamos a questão das novas formações familiares, pais e mães homoafetivos e como as crianças estão reagindo diante deste cenário. Certamente é um assunto não tão urgente quanto os demais abordados pela série, mas não deixa de ter o seu valor e pertinência.

O que está acontecendo com Cleve e com Ken Jones (Michael Kenneth Williams) é, obviamente, muito mais trágico. Os dois sofrem com os sintomas da AIDS, e em diferentes momentos deste episódio precisam se despedir de seus companheiros, pelos mesmos motivos: a morte. O primeiro é abandonado pelo namorado, Ricardo (Rafael de la Fuente), que se sente fraco diante da notícia e opta pelo suicídio. Já Ken sofre até o último instante ao lado de Richard (Sam Jaeger), com quem esteve a vida toda. O caso deles é bastante sintomático: logo após o falecimento do marido, a família deste decide aparecer – o que não havia feito em todos os anos anteriores – para reclamar a herança, literalmente jogando Ken no olho da rua, ao expulsá-lo de sua própria casa. Algo absurdo, mas, infelizmente, normal naquela época – e, cruelmente, até os dias de hoje para muita gente.

Thomas Schlamme, diretor deste episódio, tem vasta experiência em televisão, já tendo participado de programas como The Americans (2013-2016) e The West Wing (1999-2002). Voltado ao embate político, ele abusa dessa característica também em When We Rise, explorando as diferentes formas da militância gay – entre os que buscam a empatia dos heterossexuais e aqueles que exigem uma mudança de atitude mais imediata. No entanto, o que chama atenção aqui é a questão familiar. Todos estão juntos, e agora mais do que nunca. Gays, negros, mulheres... não há mais distinção. Pais abraçam seus filhos, mães propõem reconciliações, amantes dão adeus e transexuais aprendem a ver o mundo com outros olhos. A emoção, também presente em uma trilha sonora que faz uso com propriedade de canções do U2 e até de uma linda versão de Zella Day para Wonderwall, é a peça final para fazer deste talvez o capítulo mais emocionante e, por que não, mais sincero de toda a série até este momento.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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