O Diabo Veste Prada 2

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Sinopse

Em O Diabo Veste Prada 2, Miranda Priestly enfrenta uma crise sem precedentes, e a única em condições de ajudá-la é Andy Sachs, sua antiga assistente. Em meio ao declínio da mídia impressa e à proximidade da aposentadoria, a até então toda-poderosa da revista de maior prestígio do universo da moda precisa disputar relevância e influência em um cenário em transformação. Comédia/Drama.

Crítica

Vinte anos atrás, quando O Diabo Veste Prada (2006) chegou aos cinemas, o mundo era completamente diferente deste que agora recebe sua continuação. No início do século XXI, ainda se romantizava (no público em geral, mas também na indústria) relações de trabalho abusivas, de exigências desproporcionais ao retorno – financeiro, de aprendizado e de evolução técnica – e o conceito de que se fazia necessário sofrer para que algo fosse, enfim, realizado. Desde então, as redes sociais tomaram conta, movimentos como Me Too e o conceito de emancipação de minorias tem sido levado a sério (e também por isso encontrado resistência por parte dos mais conservadores) e pautas sociais, como saúde mental, têm sido discutidas de modo amplo e coordenado. Mais do que uma chefe megera e uma funcionária disposta a tudo para mostrar seu valor, O Diabo Veste Prada 2 é reflexo deste novo tempo: uma obra que, mais do que oferecer foco e atenção aos personagens, dirige sua atenção ao ambiente de trabalho e a uma realidade na qual o esforço de muitos faz mais sentido – e efeito – do que a imposição de um sobre os demais. E este é o maior acerto da produção.

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Lauren Weisberger escreveu o best seller O Diabo Veste Prada em 2003, e em três anos sua adaptação ganhou às telas, recebendo duas indicações ao Oscar e somando mais de US$ 300 milhões nas bilheterias mundiais. Tamanho sucesso tornou irresistível a ideia de uma continuação, que de fato ocorreu: o livro A Vingança Veste Prada chegou às livrarias dez anos depois, em 2013. A recepção, no entanto, foi mista. O maior acerto do diretor David Frankel, da roteirista Aline Brosh McKenna e da produtora Wendy Finerman está em justamente ignorar a sequência literária e propor uma história completamente inédita para O Diabo Veste Prada 2. Ao invés de mostrar Andy e Emily como sócias e oferecer à Miranda Priestly uma posição coadjuvante, quase de ‘participação especial’, os realizadores fizeram o oposto: colocaram a personagem da legendária Meryl Streep – no domínio de sua performance de um modo que apenas ela consegue – no centro dos acontecimentos, com os demais apenas orbitando ao seu redor. Desta vez, não acompanhamos a jornada de uma jovem em formação. Pelo contrário, é aquela até então inatingível que se revela frágil, prestes a uma quase incontornável derrocada, que precisa de ajuda. O monstro se desfez. Perde-se, por um lado, a imagem do mito. Mas ganha-se a complexidade humana. Tem-se, enfim, uma figura com camadas, que permite aproximação e demonstra entendimento, motivações e estratégia em suas ações.

A perceptível riqueza de algo (ou alguém) do qual se era permitido ver apenas a superfície é apenas o primeiro dos acertos aqui verificados. Pois Frankel – que estava desde o malfadado Beleza Oculta (2016) sem lançar um projeto nos cinemas – volta a um ambiente que conhece bem, colocando em campo um time que sabe bem o que fazer. Andy, vivida novamente com graça com Anne Hathaway, segue sendo o apoio da audiência, mas não é mais por causa dela que as coisas acontecem. Runway, a revista conduzida com mão-de-ferro pela editora Priestley, está prestes a ser vendida. Cortes de orçamento e de equipe estão sendo cogitados, e até mesmo a presença da toda-poderosa é uma dúvida. Após uma primeira crise, Andy é chamada para colaborar na força-tarefa, e volta a trabalhar onde tudo começou. Mas as coisas são mais sérias. Há investidores e acionistas, engravatados com olhos apenas nos números e nos lucros, enquanto que jornalistas, especialistas tarimbados e todo um ecossistema que existe em função dessa ética profissional, passam a ser questionados. O que mais vale? Um clique, um play, um seguidor, ou o conteúdo de verdade, pesquisado, investido, transformador? Eis uma luta de Davi contra Golias, até meio utópica, mas vê-la sendo encenada nesse formato, em meio a todo pompa e circunstância, não deixa de ser imensamente empolgante.

Ao redor de Miranda, há três personagens fundamentais. Andy é quem representa a volta às origens, aquela que retorna para mais uma vez ser o olhar externo, quase uma estrangeira àquele universo. Emily, que mais uma vez ganha vida por meio de uma impressionante rigidez concedida por Emily Blunt, é o oposto: é quem sucumbiu ao apelo do fashion, que faz da moda uma regra de vida e segue suas diretrizes e tendências tanto em casa, quanto como mão-de-obra. Por fim, há Nigel, que ganha calor e ternura – por mais que não deixe de lado sua visão objetiva das coisas – em Stanley Tucci. Cada um deles, de uma forma ou de outra, terá um momento de confronto (ou seria acerto de contas?) com Miranda. Meryl Streep subverte as expectativas e faz daquela que talvez seja a maior de todas as suas criações – e para alguém com mais de uma centena de créditos em sua filmografia, mais de vinte indicações ao Oscar e três estatuetas douradas em casa, está longe de ser pouca coisa – em um ser tridimensional, que se adapta ao ambiente e às mais inusitadas situações (atenção para a sequência no avião rumo a Milão), oferecendo profundidade mesmo nas passagens mais rápidas. Basta observar o relacionamento com o marido interpretado por Kenneth Branagh – o que ele faz é mínimo, quase nada, mas o suficiente para permitir que ela explore um outro tipo de emoção.

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Há reviravoltas empresariais, disputas de controle, mágoas antigas vindo à tona e embates que poucos esperavam. Ou seja, O Diabo Veste Prada 2 é dinâmico o suficiente para deixar qualquer um atento do início ao fim. Ainda assim, há espaço para agradar os fãs do original, como sequências musicais – o clipe de “Vogue”, de Madonna, que no primeiro filme registrava a mudança visual de Andy, agora tem o mesmo propósito, porém com outra presença ainda mais emblemática – e participações deliciosas (Lady Gaga, estamos falando de você). Menos do que se debruçar sobre um ou outro tipo, o conjunto é que faz a diferença. E a mudança dos tempos, refletida não só em comportamentos alterados, mas também em registrar outras demandas, seja em reuniões de pauta, negócios feitos nos bastidores ou mesmo posicionamentos públicos. Tudo tem consequência. Algo que por muito tempo foi esquecido, até mesmo ignorado, mas que dessa vez é resgatado com força. E o melhor: sem alterar a natureza dos envolvidos. Um acerto preciso, que se alcança com a mesma graciosidade de uma modelo na passarela – os pés podem estar acabados, o treinamento pode ter sido exaustivo, mas o que se oferta ao público é não menos do que encantador. Tanto lá, quanto aqui.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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