Verity

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Sinopse

Em Verity, Lowen Ashleigh, uma escritora em dificuldades, é contratada para concluir como ghostwriter os livros de V. Crawford, autora consagrada que está incapacitada após um acidente. Ao se instalar na isolada propriedade da família, a recém-chegada encontra manuscritos com revelações perturbadoras, o que a leva a questionar os limites entre verdade e ficção enquanto se envolve cada vez mais com aquele universo familiar. Thriller. 

Crítica

Esse ano de 2026 tem sido marcado pelo congestionamento dos mesmos astros nas telonas. Tom Holland, Robert Pattinson, Zendaya, Sandra Hüller e Renate Reinsve são alguns dos nomes que tem emplacado um projeto atrás do outro, sem dar folga ao espectador. Porém, ninguém tem se mostrado uma presença tão constante quando Anne Hathaway. Primeiro foi o nostálgico O Diabo Veste Prada 2 (2026), depois o ambicioso A Odisseia (2026) – que poderá lhe render sua terceira indicação ao Oscar (e a primeira em mais de uma década) – e a esse seguiu com a divertida farofa O Fim da Rua (2026) – e olha que nem se falou do inédito Mother Mary (2026), no qual irá aparecer ao lado de Michaela Coel. Nenhum desses, no entanto, dependia tanto de sua presença e carisma (mais do que talento, na verdade) do que Verity, adaptação cinematográfica do best seller escrito por Collenn Hoover. Publicado originalmente em 2018, o livro já vendeu mais de 3,5 milhões de cópias em todo o mundo, e se encaixa no padrão de literatura de aeroporto da autora, como o anterior É Assim Que Acaba (adaptado em 2024) e o intermediário Uma Segunda Chance (que estreou nos cinemas no início de 2026). Trata-se de uma pipoca vendida com sabor gourmet, mas que deixa o mesmo vazio no estômago que os seus colegas menos pomposos. Fast food da pior qualidade, do qual uma das poucas coisas que escapa é justamente Hathaway – e isso porque pouco tem a fazer além de encarnar a personagem-título (que está longe de ser a protagonista, aliás).

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Apesar de mencionado acima que a atriz pode voltar à festa da Academia por seu desempenho no épico de Christopher Nolan, não será surpresa se esse retorno terminar sabotado por ela mesma e seu envolvimento neste projeto seguinte. Foi exatamente o que aconteceu com Eddie Murphy quando, favorito para ganhar pelo musical Dreamgirls: Em Busca de um Sonho (2007), decidiu lançar na mesma temporada a comédia escatológica Norbit (2007), que fez com que os votantes lembrassem de quem ele era de fato e decidisse mudar de opção na última hora. Tal fenômeno poderá se repetir com Hathaway, ainda que não seja a pior em cena – afinal, sua concorrência é pesada. Se por um lado havia a platitude absoluta de Dakota Johnson (sua personagem chega a dizer sobre si mesma: “eu tenho mesmo essa cara de planície, já fui acusada disso outras vezes”, e esse é o seu momento mais verossímil em todo o filme), entre as duas se encontra o renascido das trevas Josh Hartnett (a culpa é sua, M. Night Shyamalan, o homem estava esquecido e abandonado, por que cargas d’água foi dar ao astro de Pearl Harbor, 2001, uma nova oportunidade?). E nada funciona quando os três estão em cena.

Causa espanto, no entanto, como a trama de Verity se assemelha a de outra produção tão genérica quanto, mas fruto dos devaneios de uma autora diferente: A Empregada (2025), de Paul Feig e baseado no livro em Freida McFadden. Em ambos, as personagens femininas sofrem em suas relações com maridos e/ou namorados, invariavelmente são colocadas umas contra as outras, e apenas próximo ao desfecho é revelado ao espectador serem os homens os vilões de toda a história. Elas, ao invés de se unirem e se ajudarem, partem para um “salve-se quem puder”, enfrentando-se entre si e abrindo mão de qualquer tipo de sororidade ou feminismo. Aqui, a personagem-título (Hathaway), uma escritora de imenso sucesso, encontra-se tetraplégica após um acidente de carro ocasionado pela depressão de ter perdido a filha afogada durante um passeio de canoa pelo lago próximo de casa. Assim, por vê-la incapaz de cumprir suas obrigações editoriais, o marido (Hartnett, esforçando-se para se apresentar como ‘bom moço’) decide contratar uma ghostwriter, Lowen (Johnson, ostentando a mesma expressão do início ao fim, independente dos eventos ou descobertas com as quais se depara).

Ao começar seus trabalhos, revirando os arquivos daquela que agora se mostra incapacitada, Lowen encontra um manuscrito inédito, e nele está uma confissão ampla e detalhada do que Verity teria feito: depressão pós-parto, ciúmes doentio e alheamento maternal são alguns dos ingredientes presentes. Certa de que a vítima é, no entanto, a verdadeira culpada, a recém-chegada trata não apenas de ceder aos avanços do homem ‘quase-viúvo’, mas tem também atuação determinante para que ele faça com que sua antiga companheira pague pelo que supostamente vez. Várias perguntas ficam pelo caminho nesse ponto. Seria Verity a real autora do volume descoberto? É possível acreditar sem ressalvas no que ali está descrito? E Lowen, como ser tão ingênua a esse ponto? Qual o papel do homem entre essas duas mulheres? O que ele fez a uma, não seria capaz de repetir com a outra? Por fim, e ainda mais determinante: o filme começa com Verity bem-sucedida e segura de si dando uma entrevista sobre o seu sucesso. Tudo que é visto depois trata-se de um grande flashback. Assim, a impressão de um ‘final em aberto’ não se mostra tão conclusiva. O que é visto é não mais do que distração, e como as coisas acabam foi anunciado lá no começo, e não nas cenas derradeiras. A falta de conexão entre um ponto e outro é mais preguiça do roteirista Nick Antosca (da recente e frustrante série Cabo do Medo, 2026) e do diretor Michael Showalter (dos horrorosos Um. Natal. Surreal., 2025, e Os Olhos de Tammy Faye, 2021) do que mistério narrativo.

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Logo nos primeiros minutos de Verity, Showalter abre mão de qualquer sutileza ao simplesmente dar um banho de sangue na personagem de Dakota Johnson quando essa presencia um atropelamento em pleno centro de Manhattan. O efeito exagerado deveria chocar, mas serve para ressaltar a falta de mão e controle de quem deveria estar no comando dos acontecimentos. Dali em diante, nada mais parece ser minimamente crível. A oferta milionária que a escritora fracassada recebe – aparentemente sem segundas intenções – para continuar com a série de livros da autora impossibilitada de seguir com seu trabalho, a inocência de um marido que abre mão de qualquer moral sem sequer hesitar, o disfarce de uma figura que serve apenas enquanto aparência, nunca permitindo algum tipo de aproximação mais profunda ou reveladora. Anne Hathaway, enquanto essa, sabe se divertir ao oferecer um tipo tão exagerado quanto improvável. Uma composição que poderia ser somente equivocada, não fosse seu entorno constrangedor e problemático. Não há verdade em Verity. E o mais surpreendente é perceber que é justamente essa a intenção.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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