A Odisseia

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Sinopse

Em A Odisseia, um herói inicia uma travessia marcada por perigos e provações após o fim da Guerra de Troia, tentando retornar à sua terra natal. No caminho, enfrenta criaturas míticas, armadilhas sobrenaturais e a hostilidade de divindades poderosas. Enquanto isso, em Ítaca, Penélope sustenta a esperança e resiste à pressão dos pretendentes, enquanto Telêmaco busca o próprio destino. Aventura.

Crítica

Para onde ir, após ter chegado ao topo? Essa deve ter sido a questão a atormentar os pensamentos de Christopher Nolan após sua consagração com Oppenheimer (2023). Afinal, após cinco indicações frustradas à premiação da Academia e nada menos do que uma dezena de projetos que deram o que falar, tanto com o público, quanto com a crítica, ele finalmente conquistou a cobiçada estatueta dourada – duas, aliás, as de Melhor Filme e Melhor Direção, entre as sete que o longa levou no total – e não com um título qualquer, mas com uma cinebiografia que arrecadou quase US$ 1 bilhão nas bilheterias ao redor do mundo! Ou seja, foi esse o cenário que permitiu ao realizador se sentir seguro o suficiente para o próximo passo, e provavelmente, o mais ousado de todos até então (acredite se quiser): A Odisseia! A adaptação para a tela grande (gigante!) do clássico de Homero prometia tanto fidelidade ao texto original, quanto um deslumbre técnico como nunca visto antes. E é com tranquilidade que o espectador poderá ir ao cinema e se deparar não apenas com o cumprimento dessas intenções, mas também com a certeza de que irá encontrar uma obra coesa, ciente de sua relevância e não disposta a fazer concessões para garantir a satisfação da audiência – o que consegue por seus inegáveis méritos, sim, mas como consequência, e não por ser essa sua única finalidade.

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Odisseu (Matt Damon, concedendo ao projeto a segurança necessária para que a história se desenvolva) é o rei de Ítaca, uma ilha aparentemente pacífica no mar Jônico. Porém, após a bela Helena ter sido raptada pelo impetuoso Páris, seu marido, Menelau, ativou o Juramento de Tíndaro, obrigando a todos os reis gregos a entrarem em guerra contra Troia. Odisseu, portanto, teve que partir, e nunca mais voltou. A Odisseia se desenvolve, portanto, por meio de duas linhas narrativas. A primeira se ocupa da espera por esse retorno. Ao sair com seu exército, deixou o trono vazio. A esposa, Penélope (Anne Hathaway, em uma das melhores composições dramáticas de toda a sua carreira), lhe prometeu fidelidade, mas após duas décadas aguardando, as pressões ao seu redor são inúmeras. Os candidatos a substitui-lo se acumulam, exigindo dela que escolha um novo marido – e assim, esse assumiria o comando do reino, que há muito está vago. Ninguém mais acredita que Odisseu irá voltar, não com vida. Mas Penélope não perde a fé. Nem ela, nem o único filho do casal, Telêmaco (Tom Holland, esforçado).

Em paralelo, o espectador é convidado a descobrir o que, enfim, teria acontecido com o personagem-título. Tem-se desde a entrega do infame presente que se tornou conhecido como o “cavalo de Troia” – a única maneira encontrada para adentrarem nas muralhas da cidade-fortaleza, escondidos na barriga de uma gigantesca escultura em formato equino – e o cumprimento da missão ali imposta, como a dita viagem para casa, jornada essa que de fato mereceu a alcunha de “odisseia”. O caminho, via oceano, poderia ter sido simples. Mas como fica claro por meio de uma mensagem em texto ainda antes do começo da trama, esta era uma época de “magia aparente”. Ou seja, figuras mágicas, poderosas e enganadoras poderiam se manifestar diante deles a qualquer momento, e assim o fizeram. Para piorar esse contexto, um dos primeiros encontros é com um ciclope, que, foi descoberto depois, seria filho de Poseidon, o deus dos mares. Como a besta foi atacada e ferida, tal ofensa foi sentida também pelo pai, que tratou de amaldiçoar a jornada destes por meio de suas águas.

Há um conceito por demais interessante, e fundamental para o entendimento dos acontecimentos de A Odisseia. Em mais de um momento é citada a tal “lei de Zeus”, que afirmaria que qualquer estranho deveria ser bem-recebido ao bater à sua porta, pois poderia se tratar de um deus disfarçado. Penélope se vê obrigada a lidar com a chegada de um pretendente após o outro justamente para não quebrar tal diretriz. Da mesma forma, é por seguir essa orientação que Odisseu se mete na caverna do Ciclope (o proprietário ele desconhecia) em busca de comida, assim como se verá tendo que lidar com as artimanhas da bruxa Circe (Samantha Morton, absolutamente hipnotizante em cada um dos seus parcos minutos em cena) ou da ninfa Calipso (Charlize Theron, fazendo milagre com o pouco que lhe é oferecido). É essa que, por fim, irá abrigá-lo, salvando-o de destino pior. O problema é que nesse processo acaba por ele se apaixonando, e uma hospedagem que deveria durar alguns dias, ou até mesmo semanas, termina por se estender por sete anos, período que lhe é difuso devido aos efeitos da flor de Lótus que ingeriu para se curar dos ferimentos, mas acabou por lhe afetar os sentidos.

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Entre uma figura vil e arrogante (Robert Pattinson se mostra o elo mais frágil de todo o elenco) e nomes que mereciam mais destaque devido à força e energia que dispendem mesmo diante do tempo diminuto que lhes é disposto (Lupita Nyong’o, Zendaya, Elliot Page), há de se apontar o impressionante cuidado de Nolan em fazer do seu enredo mais do que uma experiência compartilhada, mas algo a ser vivido e igualmente transformado. Do deslumbrante visual com o qual trabalhou desde efeitos práticos até inserções precisas proporcionadas por meio de uma fotografia estudada e uma montagem que não demonstra pressa ou atropelo para juntar suas peças, a um atordoante desenho de som que reproduz em sua audiência os efeitos sentidos pelas figuras em cena, A Odisseia se mostra mais vivo do que nunca, abanando com disposição toda a poeira de um clássico imaginado milênios atrás e apresentado agora não apenas no intento de conquistar novas audiências, mas dessas se aproximar com toda a altivez e relevância que lhe é devida. Um espetáculo de abismal realização, digno do palco que ocupa, e pronto para perdurar para além de apenas uma temporada.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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