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Sinopse

Um menino é responsável, junto com seu pai, por achar a cura para uma doença que é contraída após a pessoa tomar um susto.

Crítica

Com o auxílio dos contínuos avanços tecnológicos, as produções em CGI passaram a dominar o campo da animação cinematográfica, especialmente a partir dos anos 2000. Em função de tal predominância, o espaço reservado às chamadas animações tradicionais, restrito em termos mercadológicos, acabou por se configurar em um terreno mais aberto ao conteúdo autoral, de experimentações técnicas e estilísticas. Essa segmentação resultou ainda no estabelecimento de uma aura de culto em torno de títulos e realizadores que mantêm viva a linguagem pelo mundo, como o japonês Hayao Miyazaki – e seus discípulos do Studio Ghibli – o holandês Michaël Dudok de Wit, o francês Sylvain Chomet ou mesmo o brasileiro Alê Abreu, do premiado O Menino e o Mundo (2013). E é justamente a esse tipo de obra que Tito e os Pássaros, de Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto Dias, busca se filiar.

Estreando no comando de longas animados, o trio exibe uma declarada inspiração estética no movimento expressionista – cujos expoentes vão de Edvard Munch a Wassily Kandinsky – utilizando traços assimétricos e disformes que transmitem uma constante sensação de movimento, de libertação das amarras convencionais. A escolha por esse estilo visual também serve à criação do clima de toques sombrios, de uma atmosfera de pesadelo desejada pelos realizadores – e acentuada pela trilha sonora de Ruben Feffer e Gustavo Kurlat – que envolve o tratamento de um tema atual e de cunho, a princípio, mais adulto: o da cultura do medo, cada vez mais institucionalizada e propagada pela mídia, redes sociais e pelos donos do poder na sociedade. Apesar do peso da temática, a perspectiva adotada é completamente infantil, tendo como protagonista Tito, jovem destemido que possui um interesse particular por pássaros.

O fascínio pelas aves é herdado do pai, Rufus, cientista que trabalhava na construção de uma máquina capaz de decifrar a “língua dos pássaros” e que, após um evento quase trágico envolvendo seus experimentos, muda-se para um local desconhecido, deixando Tito aos cuidados da mãe, Rosa. Carregando um sentimento de culpa – por acreditar que um instante de hesitação sua tenha sido a causa do acidente que resultou na partida do pai – o garoto decide prosseguir com o projeto da máquina, contando com a ajuda dos amigos Sara e Buiu para apresentar o invento na feira de ciências do colégio. Sua motivação pessoal, contudo, acaba ganhando um propósito maior quando os pombos se apresentam como possíveis detentores da cura para uma epidemia de medo, conhecida como “O Surto”, que se abate sobre o mundo, fazendo com que as pessoas, no último estágio da doença, se transformem em pedra.

A metáfora oferecida pela premissa é bastante direta, sobre como a política do medo pode paralisar e isolar o indivíduo do meio social. O roteiro levanta ainda o debate a respeito do sensacionalismo da mídia e das fakes news, do uso do temor como ferramenta de controle – “O medo pega pelas ideias”, afirma o Dr. Rufus – e também sobre a exploração do mesmo como indústria/negócio. Tópicos esses materializados pela figura do vilão da trama, o empresário do ramo imobiliário Alaor Souza, que se vale de seu espaço na TV para disseminar “O Surto” e lucrar com medo da população – promovendo seu novo empreendimento, uma rede de condomínios de alta segurança chamada Jardim Redoma. Desse contexto denso e dramático, os diretores extraem uma fantasia de tom aventuresco ancorada nos laços de amizade e familiares, sendo muito felizes no aspecto da criação de um universo particular.

Existe uma riqueza visual inegável na distopia lúdica do longa. A beleza do design de cenários e objetos de cena, que emulam telas nas quais se notam os sulcos das pinceladas, salta à vista, bem como as sequências em que a ação flui em movimentos elípticos interligando paisagens, personagens e situações. Além de citações a artistas plásticos e suas obras, como A Torre de Babel, de Pieter Bruegel, sentem-se também as influências cinematográficas do Expressionismo Alemão e de cineastas contemporâneos que bebem nessa fonte, como Tim Burton com seu gótico pop. O conjunto de referências, porém, resulta num produto com personalidade própria, valorizado pelo bom uso do humor e pelo competente elenco de dubladores – de nomes como Denise Fraga, Mateus Solano, Matheus Nachtergaele, Pedro Henrique e Marina Serretiello.

É bem verdade que, em determinados momentos, a narrativa apresenta resoluções apressadas ou ainda excessivamente ingênuas – o próprio conceito da máquina ou mesmo toda a mitologia envolvendo os pássaros e as catástrofes da humanidade, que nunca chega a ganhar a devida substância. Ainda assim, o encantamento visual oferecido, juntamente com a afeição desenvolvida por seus personagens e o otimismo de sua mensagem sobre a superação pelas vias do espírito coletivo fazem de Tito e os Pássaros uma animação dotada de voz própria, que transita entre o soturno e o sentimental com um genuíno lirismo.

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é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
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