Crítica


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Sinopse

Um retrato sobre a vida e a carreira de Steven Spielberg, cineasta norte-americano responsável por grandes sucessos do cinema. Esse documentário apresenta sua infância fascinada pela sétima arte, além de depoimentos de importantes nomes que trabalharam com o diretor.

Crítica

Steven Spielberg merecia um documentário sobre sua carreira há muito tempo. Não somente por ser um dos cineastas mais reconhecidos e bem-sucedidos da história do cinema, mas porque sua vida tem passagens interessantíssimas – cinematográficas, inclusive. O jovem que sonhava ser cineasta e invadia os estúdios da Universal para aprender o ofício, que mudou o status quo do cinema de entretenimento na década de 1970 ao assinar o maior sucesso de bilheteria até então, o homem que decidiu ir fundo em suas raízes judaicas e contar uma sofrida epopeia numa produção sobre o holocausto, a criança que nunca cresceu, apontando sua câmera para fantásticas histórias. Tudo isso é material mais do que suficiente para um belo documentário, algo que a diretora Susan Lacy realizou em Spielberg, produção original da HBO.

Com generosos 147 minutos de duração, Lacy conseguiu dar conta de boa parte da história do cineasta. Desde as histórias mais pessoais, como o estranhamento com seu pai após o divórcio da mãe, os momentos iniciais da carreira e seus filmes caseiros, os sucessos comerciais que deram liberdade para o jovem cineasta e os trabalhos que proporcionaram a Spielberg a tão almejada respeitabilidade. Para alcançar isso, a diretora teve acesso a um material riquíssimo, como imagens de arquivo, trechos de filmes e, claro, entrevistas com figuras-chave. Além do próprio Spielberg, Lacy colheu depoimentos dos pais e irmãs do cineasta, de colegas/amigos como George Lucas, Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Brian De Palma; colaboradores de vital importância como Michael Kahn, Janusz Kaminski, Kathleen Kennedy, Frank Marshal e John Williams; e de atores que estrelaram seus filmes, como Richard Dreyfuss, Tom Hanks, Liam Neeson, Drew Barrymore, Ralph Fiennes, Laura Dern, Harrison Ford, Leonardo DiCaprio, Tom Cruise, Cate Blanchett, entre muitos outros.

Para quem conhece um pouco mais a trajetória de Spielberg, o documentário não vai trazer grandes novidades. Muitas das histórias ali contadas já estão em livros ou featuretes de DVDs e Blu-rays. Isso não significa, no entanto, que assistir a Spielberg tenha cara de programa requentado. As entrevistas – todas exclusivas para o doc – dão um ar de ineditismo ao filme, que consegue segurar a atenção do espectador não apenas com os depoimentos, mas com as obrigatórias pequenas cenas dos trabalhos do retratado. É bastante provável que o espectador sentirá uma vontade imensa de revisitar a filmografia de Spielberg tão logo termine o documentário.

Se não existem tantas novidades, ao menos Susan Lacy inclui algumas críticas mais argutas à obra do cinebiografado. Evitando que se torne um filme totalmente chapa-branca, a diretora conseguiu depoimentos de críticos de cinema que colocam em xeque a qualidade de trabalhos como A Cor Púrpura (1985) e Império do Sol (1987). Até George Lucas comenta não gostar de Amblin, o curta-metragem que abriu os caminhos de Spielberg para os longas-metragens, pensando se tratar de uma obra muito chamativa, que tentava por demais mostrar as qualidades do cineasta. O próprio retratado pondera que, em alguns momentos, não foi feliz com seus intentos – como em A Cor Púrpura e 1941: Uma Guerra Muito Louca (1979). Embora tenha o cuidado de incluir esses trechos, Lacy joga para debaixo do tapete outros pontos menos memoráveis da carreira do diretor, como Hook: A Volta do Capitão Gancho (1991), Além da Eternidade (1989) e O Mundo Perdido: Jurassic Park (1997). Esses dois últimos, além de não serem citados, não têm clipes exibidos.

A falta de cronologia incomoda em alguns momentos, até por não ser mantida durante toda a duração do doc. Por vezes Lacy segue a ordem dos fatos, por outras tenta juntar os filmes por temática. Escolher um ou outro daria maior coesão. Acertadamente, o doc dá ênfase aos principais trabalhos de Spielberg, como Tubarão (1975), E.T.: O Extraterrestre (1982) e A Lista de Schindler (1993) e, claro, não foge do tema que mais aparece nos longas do diretor: a questão pai e filho. Entendemos o quanto esse ponto é pessoal para ele, com depoimentos emocionantes da família Spielberg. Mesmo que não seja um trabalho definitivo a respeito desse grande cineasta, Spielberg é cativante e tem tudo para agradar o público que cresceu assistindo aos seus trabalhos, mas que não necessariamente conhece a fundo o diretor. Prepare-se para se emocionar com alguns trechos, como o início, que mistura diversas cenas de filmes do retratado com a inesquecível música de John Williams para E.T.: O Extraterrestre. Difícil não se arrepiar.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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