Socorro!

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Sinopse

Socorro! acompanha um chefe e sua funcionária que, após um acidente aéreo, se tornam os únicos sobreviventes em uma ilha deserta. Forçados a conviver longe da rotina corporativa, eles precisam decidir entre cooperar ou competir para escapar, enquanto antigos ressentimentos e disputas do escritório insistem em vir à tona. Suspense.

Crítica

Talvez uma das maiores improbabilidades com a qual o espectador precisa lidar durante o desenrolar dos acontecimentos de Socorro! é aceitar Rachel McAdams como uma jovem desajeitada socialmente, insegura com o próprio corpo e que mergulha no trabalho para evitar maiores contatos com colegas e amigos. Logo ela, que viveu a icônica Regina George no cultuado Meninas Malvadas (2004), além de heroínas românticas em títulos como Sherlock Holmes (2009) e Doutor Estranho (2026), dessa vez se esforça para revelar versatilidade em uma figura que se assemelha mais às personagens que viveu em Spotlight: Segredos Revelados (2015) – papel, aliás, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar – ou mesmo a dedicada jornalista de Uma Manhã Gloriosa (2010). A diferença, no entanto, é que nesse trabalho mais recente o que lhe é solicitado é o estereótipo, e não uma profundidade dramática. E isso nem sempre é uma má ideia. No longa dirigido por Sam Raimi, a dinâmica está justamente na oposição de tipos distintos. É nesse confronto em que se encontra a graça – e a excitação – de um filme preocupado em provocar e entreter, ainda que dentro de limites pré-estabelecidos.

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Dessa vez, McAdams é Linda, uma funcionária exemplar de uma grande empresa do ramo financeiro. Enquanto seus relatórios são dignos atenção – a ponto do seu chefe imediato assumir a autoria dos mesmos quando ela não está por perto – suas interações sociais no escritório são desastrosas. Não se cuida com o que veste, com as palavras e expressões que utiliza, nem mesmo com o cheiro do que come entre um intervalo e outro. É por isso, descobre ao acaso, que não tem sido promovida como lhe haviam prometido. Mas uma última chance lhe é concedida pelo diretor que recém assumiu, o herdeiro Bradley (Dylan O’Brien, vivendo um antagonista distante do tipo salvador da pátria que encarnou na saga Maze Runner). Ela é chamada para uma viagem que tem como objetivo fechar um grande negócio. No meio do trajeto, o jatinho é atingido por uma turbulência, se espatifa no ar e todos que ali estavam morrem. Quer dizer, quase todos. Sobram apenas dois. Linda e Bradley. Isolados em uma ilha perdida no meio do oceano. Ele com a perna machucada, e ela – descobre-se somente nesse instante – tendo sido candidata ao reality show Survivor, ou seja, especialista em sobrevivência em situações adversas. O jogo virou, portanto.

Tudo é bastante esquemático no roteiro escrito por Damian Shannon e Mark Swift – a mesma dupla do desastre Baywatch: S.O. S. Malibu (2017). No entanto, apesar das aparências, tal maniqueísmo é intencional. E funciona – até certo ponto – a favor da trama. Tem-se estabelecido após esse rápido prólogo um novo esquema de gato e rato, no qual a lei da selva passa a valer longe do concreto e dos trânsitos congestionados, mas em um ambiente mais… naturais, digamos. O patrão que até ontem a desprezava passa a depender da colega que, de subalterna, assume rapidamente a condição de ser a única capaz de determinar as regras. Um tentará sabotar o outro em mais de uma ocasião, mas nenhuma dessas artimanhas irá muito longe – apenas quando entenderem que dependem mutuamente entre si para sobreviver é que as coisas, enfim, começarão a prosperar.

A questão é que esse filme já foi visto, e de maneira mais inteligente, sarcástica e bem desenvolvida. A partir do momento em que “os humilhados passam a ser exaltados” e, portanto, se veem confortáveis nessa condição pela primeira vez em suas vidas, abrir mão desse osso não será uma decisão fácil. É o mesmo dilema vivido pela faxineira que assume o controle das coisas após o naufrágio do cruzeiro de luxo no premiado Triângulo da Tristeza (2022), de Ruben Östlund. Tanto num, quanto noutro, a possibilidade de serem resgatados daquele paraíso – ou inferno, dependendo do ponto de vista – aparentemente esquecido por tudo e todos se apresenta, apenas para tal salvamento ser sabotado por aquela que não quer dar adeus ao poder que finalmente desfruta. No entanto, falta coragem a Raimi – que já demonstrou mais desapego em títulos como Uma Noite Alucinante (1981) ou Arraste-me para o Inferno (2009) – para tornar essa experiência um verdadeiro pesadelo. Fica tudo na promessa, mas poucas dessas ameaças, de fato, se cumprem.

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Por trás dessa distração, permanece um debate sobre a posição da mulher no mercado de trabalho. A postura delas é de fato diferente, ou uma vez ocupando os espaços até então dominados por eles estariam fadadas a repetir os mesmos erros? Na visão destes três homens – o diretor e seus dois roteiristas – a segunda opção parece ser mais viável. Surpreende, portanto, McAdams ter concordado com tudo isso – afinal, é o rosto dela que estampa o cartaz. Entre uma sacada intrigante, mas um desenvolvimento que mais hesita do que de fato atinge o nível de discussão almejado, Socorro! termina como começou, envolvendo enquanto dura, mas deixando nada com a audiência assim que essa se despede do que acabou de assistir. Tanto a protagonista, quanto o cineasta por trás dessa brincadeira um tanto inconsequente, já foram melhores.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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