A Mensageira

Crítica


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Sinopse

Em A Mensageira, uma menina viaja pelas estradas do interior da Argentina ao lado dos cuidadores, passando por pequenas cidades onde oferece sessões nas quais afirma “escutar” e traduzir mensagens dos animais. Entre curiosidade, fé e desconfiança, a jornada levanta dúvidas sobre o que é magia e o que pode ser apenas encenação. Fantasia

Crítica

Apesar da denominação escolhida pela distribuidora brasileira insistir num apontamento reducionista, o que importa de fato em A Mensageira é a mensagem (título original, aliás) e não quem a conduz. No longa escrito e dirigido pelo argentino Iván Fund, um casal viaja pelo interior do país acompanhado por uma garota que, alegadamente, seria capaz de se comunicar com animais de estimação mortos. O adendo pontuado com ênfase – bichinhos caseiros, portanto – tem sentido pois facilita o acesso ao mercado de interesse: pessoas que sentem a falta de seus pets falecidos e que, portanto, se mostrariam dispostas para pagar por um último contato, um aceno derradeiro. O argumento indica com objetividade se tratar de uma dupla de aproveitadores que estão explorando uma criança e os clientes em potencial. Mas o filme vai além, recusando-se a se restringir a conclusões imediatas e simplistas. Uma escolha arriscada, mas assumida com segurança em um conjunto por vezes difícil, mas cujo acesso é garantido.

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Se há um pecado que Fund comete durante o desenrolar dos eventos presenciados em A Mensageira é o pouco proveito de Marcelo Subiotto em cena. Multipremiado por seu desempenho em Puan (2023) e visto em séries como O Jardim de Bronze (2019-2023) e O Eternauta (2025), qualquer um que já tenha compartilhado de algumas das performances enigmáticas e repletas de camadas que o intérprete se habituou a entregar se colocará pré-disposto a mais uma transformação. Não será o caso, no entanto. E não é culpa dele. O caso é que tanto o diretor, quanto seu co-roteirista, Martín Felipe Castagnet (que haviam trabalhado juntos também em Piedra Noche, 2021) estão interessados no conjunto, e não em um ou outro destaque. Se fosse necessário apontar para alguém do elenco, essa seria a pequena Anika Bootz (vista antes em El infierno de los vivos, 2024), como a personagem-título.

Enteada do diretor na vida real, Bootz compõe uma Anika – sim, atriz e personagem possuem o mesmo nome – com tamanha vivacidade e disposição que aumenta o contraste com o que está se passando no terreno da ficção, ainda mais por essa ser exposta por meio de uma fotografia em preto-e-branco tão apurada, quanto perturbadora. Primeiro, pois aproxima a audiência dos eventos percorridos, acentuando contrastes e delineando os limites entre a fantasia e a realidade. E segundo, pois transpor o discurso a um nível de verossimilhança tão profundo, quanto natural. Por mais evidente que seja o que está se sucedendo entre os protagonistas – dois supostamente responsáveis se aproveitando de um alegado dom sobrenatural que permanece em dúvida na maior parte do tempo – o espectador irá se questionar sobre tais intenções. Estaria o mal e a leviandade no olhar de quem assiste, ou seria mesmo parte destas figuras afáveis, mas também perversas?

Anika não é uma garota perdida no mundo, sozinha ou mesmo abandonada. Pelo contrário, pertence a uma linhagem de mulheres que compartilham deste mesmo dom: não apenas a comunicação com animais mortos, mas em decodificar essas interações em palavras, devolvendo-as aos antigos cuidadores. Aqui cabe uma análise pertinente. Pets possuíam, até pouco tempo atrás, “donos”. Agora, convencionou-se a denominá-los como “tutores”. Exatamente a mesma função defendida pelo casal Roger (Subiotto) e Myriam (Mara Bestelli, de Vermelho Sol, 2018). É ela, faz-se necessário esse esclarecimento, quem assume a condução da narrativa. É quem coordena os negócios, quem seleciona os atendimentos, quem decide para onde irão e quem se destaca nas entrevistas para a imprensa e autoridades. É o cérebro da operação, portanto. Mas há envolvimento, e não apenas um olhar clínico e distanciado. Fund, assim, faz de seus personagens quase uma família, talvez unida por motivos escusos, mas sólida nos laços de pertencimento e ambição.

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A Mensageira participou da seleção oficial do 75º Festival de Berlim, em 2025, de onde saiu com o Urso de Prata de Prêmio do Júri – por mais que o troféu seja chamado de “prata”, na verdade está mais para medalha de bronze, pois representa o “terceiro melhor” título da mostra competitiva. No mesmo ano estavam o norueguês Dreams (Sex Love) (2024), que ganhou o Urso de Ouro de Melhor Filme, e o brasileiro O Último Azul (2025), reconhecido com o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri (o segundo melhor título da competição), além dos oscarizáveis Blue Moon: Música e Solidão (2025) e Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (2025). Tais colegas de mostra e o resultado alcançado na premiação evidenciam o apreço ao longa argentino, cujo diretor propositalmente deixa espaço em sua condução para que cada espectador formule sua própria leitura a respeito do que está sendo visto. Nada é simples, muito menos exposto com ativismo ou denúncia. A interpretação está em cada um. Tanto nos personagens, como também na audiência.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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