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Sinopse
Em A Graça, o poderoso Mariano De Santis enfrenta dilemas morais e conflitos pessoais que colocam em xeque suas convicções e escolhas de vida. Em meio a essas crises, ele encontra apoio e escuta na filha Dorotea, que se torna sua principal confidente enquanto ambos tentam compreender os caminhos que os levaram até ali. Drama.
Crítica
“A quem pertencem os nossos dias?” Essa talvez seja a grande dúvida a perturbar o protagonista – e os espectadores – de A Graça, filme que marca a sétima colaboração do diretor Paolo Sorrentino com o ator Toni Servillo. Este agora aparece como Mariano De Santis, um presidente da Itália que está diante dos seis últimos meses de mandato. As pontuações éticas e morais com as quais se depara nesses momentos derradeiros do ápice político encontram semelhança nas reflexões filosóficas que atravessavam Jep Garbandella, o dândi vivido por Servillo em A Grande Beleza (2013), talvez o mais bem sucedido dos projetos da dupla, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Sorrentino o escalou também em A Mão de Deus (2021), que os levaram mais uma vez à festa da Academia de Hollywood, mas naquela vez numa posição coadjuvante. Porém, agora recorre ao velho parceiro para colocá-lo novamente à frente não tanto dos acontecimentos, mas das indagações que percorre e se propõe a investigar em uma obra tão austera quanto profunda, e portanto, admirável na mesma medida em que se mostra incômoda.

Sim, pois os debates colocados à mesa durante os eventos de A Graça não são de fácil análise, menos ainda permitem uma tranquila conclusão. Há levantes aqui que permanecerão com a audiência com a mesma intensidade que se mostram afeitos a se aterem aos personagens, compartilhando preocupações e questionamentos. Político experiente de carreira consolidada, De Santis pode se gabar de ter levado adiante um governo de colisão, tendo superado nada menos do que seis crises durante seu mandato, conciliando interesses tanto da oposição, quanto dos seus aliados. Quando mais nada parece necessitar de sua atenção, uma última assinatura lhe é solicitada: aprovar – ou não – uma lei que regularizaria a eutanásia no país. Nação que, dentre tantas outras, pode-se afirmar ser uma com o maior percentual de católicos do mundo, seja pela proximidade com o Vaticano, ou pelo percurso histórico que traz consigo. Como o presidente diz, “se aprovo, metade da população me chamará de assassino; se a recuso, a outra metade pensará em mim como um torturador”. A resposta, como se vê, é muito mais complexa do que qualquer primeira impressão poderia antever.
Mas há mais ocupando a mente deste homem de tanto poder, numa etapa da vida na qual o desinteresse, ou a falta de motivação, parecem ter lhe dominado. Para se ter ideia, durante uma entrevista com uma jornalista mais nova, se dá conta, no meio da conversa, que estaria ela se insinuando – sexualmente? romanticamente? – a ele, numa oferta para se encontrarem “quando já não estiverem mais tão ocupados”. Ele se assusta com a possibilidade, e trata de evitar qualquer comprometimento. Mas o que o afastou dessa eventual troca? Seria a novidade, ou o peso de uma perda que segue latente? Viúvo há pouco tempo, sente falta da esposa, mas mais ainda, da incapacidade de terem resolvido em vida algo que por décadas o atormenta: com quem a companheira teria lhe traído, ainda nos primeiros anos do casamento? Por quê, apesar do envolvimento externo, decidira continuar com ele? Qual o peso dessa revelação? Seja naquela época, ou mesmo nos dias de hoje? Que bem – ou que transformação – ter essa ciência poderia lhe acrescentar?

Há duas mulheres ao lado de De Santis, e ambas parecem ter igual importância nos seus pensamentos, preenchendo o espaço deixado pela falecida esposa. A primeira é a filha, seu braço direito no comando do país, a que executa, planeja, antecipa e organiza sua agenda e dieta, compromissos e responsabilidades. Interpretada por Anna Ferzetti (Diamantes, 2024) com economia e sutileza, ela se revela o contraponto da Coco Valori vivida por Milvia Marigliano (que já trabalhara com o cineasta em Silvio e os Outros, 2018, e na minissérie The Young Pope, 2016), a melhor amiga exuberante e sem meias palavras que faz das lembranças de tudo que já viveu e experimentou ao lado do presidente um alerta tanto para o muito que ambos somaram em suas trajetórias, como um aceno ao que vale, de fato, manter por perto – seja sentimento, materialidade ou conquista. São nos embates com essas duas que ele se verá tendo que decidir sobre duas outras urgências, dois pedidos de indulto que somente o líder do governo pode ou não conceder. Tirar ou não da prisão duas pessoas assassinas confessas. Teriam elas direito à liberdade?
Volta-se, portanto, à questão que primeira fora posta em A Graça: a quem pertencem os nossos dias? La Grazia, como é o batismo original dessa obra, é uma expressão adaptada na nominação nacional por algo que remete à concessão de uma graça, um favor de soltura e entendimento. Porém, nas legendas em português, o público atento irá encontrar outra tradução: perdão. O significado pode ser similar, mas esse se mostra mais amplo, inclusivo e leniente. Sorrentino contempla a própria finitude, enquanto artista e também numa esfera íntima, para refletir sobre continuidade, legado e exemplos, sejam esses ocasionais ou provocados. E encontra em Servillo o vértice perfeito para um discurso que envolve e provoca, resguardando-se nas ideias e nos diálogos – assim como nas ausências desses, apontando para como esses vazios são preenchidos – uma sinalização para o tanto que se admira, e o pouco que se retém. Uma luta inglória, mas permanente – e, por isso mesmo, intrínseca ao ato de ser humano.
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