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Sinopse

Os irmãos Jimmy e Clyde Logan planejam um roubo de dinheiro através de um sistema de tubulação hidráulica. Para que o plano funcione, a dupla executa a trapaça durante a Copa Automobilística NASCAR, que serve como a distração perfeita para o crime.

Crítica

Quantas vezes o diretor Steven Soderbergh já anunciou sua aposentadoria? Quem acompanha de perto os altos e baixos de Hollywood sabe que o cineasta vencedor do Oscar por Traffic (2000) já tentou se afastar algumas vezes dos holofotes, mas invariavelmente acaba repensando a decisão e voltando à cena. E a mais recente destas retomadas atende pelo nome de Logan Lucky: Roubo em Família, longa realizado quatro anos após o telefilme Minha Vida com Liberace (2013), vencedor do Emmy e do Globo de Ouro. Seria de se esperar que a motivação para esta volta fosse algo relevante, pertinente e irrecusável. Porém, o que encontramos nesse mais recente trabalho é mera e despreocupada diversão. Soderbergh fazendo exatamente o que todo mundo sabe que Soderbergh é capaz de fazer.

Tem-se, portanto, um filme ruim, ou, ao menos, descartável? Nunca, para o primeiro caso, porém bem provável, no segundo. Logan Lucky nada mais é do que um filho bastardo da trilogia iniciada com Onze Homens e um Segredo (2001): uma história aparentemente intrincada, com um elenco gigantesco e repleto de nomes de destaque, tudo isso envolto por uma trama sobre um golpe qualquer que, em uma análise mais detalhada, parece ser muito mais complicado do que, de fato, é. Da mesma forma, temos algo que se apresenta de modo intrincado e repleto de idas e vindas, mas qualquer um mais atento perceberá que grande parte disso não passa de mera distração.

Jimmy Logan (Channing Tatum, à vontade em sua quarta colaboração com o diretor, após A Toda Prova, 2011, Magic Mike, 2012, e Terapia de Risco, 2013) é um cara que, simplesmente, não deu certo na vida. Ele já tentou de tudo, e obviamente tem um bom coração, mas a verdade é que não consegue se dar bem. Quer dizer, ao menos até tentar a sorte grande. Manco de uma perna, chama seu irmão, Clyde (Adam Driver) – que, por sua vez, não tem um braço – para, juntos, elaborarem um plano que poderá colocar os dois nos eixos: roubar toda a féria de uma festa comunitária. Enquanto muitos fazem apostas ou comem porcarias, eles agirão pelos bastidores. Para isso, contarão com a ajuda de um bandido especialista em fugas (Daniel Craig), uma dupla de caipiras para carregar o peso e ainda a irmã deles, a cabelereira Mellie (Riley Keough, de Mad Max: Estrada da Fúria, 2015).

É claro que as motivações da dupla e de seus comparsas, a despeito da concretude de seus atos, são nobres. Jimmy, por exemplo, quer pagar o que deve à ex-mulher (Katie Holmes) e desfrutar despreocupadamente do seu tempo livre ao lado da filha pequena. Clyde, de temperamento mais estourado, deseja tranquilidade para cuidar do bar que administra. Já Joe Bang (Craig) quer mostrar mais uma vez que pode enganar a todos, saindo da prisão, aprontando ao lado dos colegas e voltando para sua cela sem que ninguém perceba, em uma ação que servirá para enaltecer seu ego, mais do que qualquer outra coisa. E é impossível dizer que não é divertido acompanhar suas correrias, perigos e vitórias. Porém, dificilmente o espectador irá levar consigo mais do que esse entretenimento passageiro.

Um dos elementos que levou Soderbergh a se envolver com Logan Lucky foi a certeza de independência criativa e financeira do projeto. Para isso, desenvolveu a produção de modo completamente independente, sem o envolvimento de nenhum dos grandes estúdios norte-americanos. Assim, com o financiamento que levantou apenas com a venda dos direitos do longa para exibições pós-cinema (televisão, plataformas de streaming e companhias aéreas), ele não só conseguiu o elenco que desejava, como fez o trabalho em total liberdade, sem a interferência de ninguém. E com mais de US$ 41 milhões nas bilheterias de todo o mundo – frente a um orçamento de US$ 29 milhões – quem ousará dizer que o risco não valeu à pena? Tão calculado quanto a própria trama do filme, em que tudo funciona nos mínimos detalhes, sem espaço para surpresas e reviravoltas – afinal, até mesmo a lágrima furtiva do pai emocionado frente à filha na escola está lá por um motivo – como não reconhecer seu mérito? O resultado, portanto, pode ser logo esquecido. Mas o método, esse, sim, pode representar o início de uma revolução. Calma e sem atropelos, mas, ainda assim, um ato de rebeldia que compensou do início ao fim.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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