Mestres do Universo

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Sinopse

Em Mestres do Universo, nos confins do espaço, o reino de Eternia é tomado por Esqueleto e seus exércitos das trevas. Para reconquistar sua posição e proteger seu povo, o jovem príncipe Adam precisa recuperar uma espada mítica que irá lhe conceder os  poderes de Greyskull! Assim ele terá condições de enfrentar as forças que colocam o destino do planeta em risco. Aventura.

Crítica

A ideia de fazer um filme live action a partir de um desenho animado popular nos anos 1980 não é nova. Afinal, várias iniciativas similares alcançaram números impressionantes, como as sagas Transformers (que já rendeu 6 longas e 1 spin-off) e G.I. Joe (trilogia que arrecadou mais de US$ 700 milhões em todo o mundo). Porém, para cada acerto, há um Dungeons & Dragons (baseado na série Caverna do Dragão, 1983-1985), que até gerou dois longas – cada um sem a menor conexão com o outro e sem chances de ganhar continuações – ou mesmo um Thundercats (1985-1989) – que parece que, após anos de muita conversa e projetos que não levaram a nada, finalmente irá se materializar por meio de uma adaptação a ser dirigida por Adam Wingard (Godzilla vs. Kong, 2021). O heróico He-Man é só mais um, portanto, dentro de uma mesma tendência. E não é a primeira vez que este personagem ganha a tela grande por meio de um ator de verdade. Ainda na mesma década houve o primeiro Mestres do Universo (1987), com Dolph Lundgren aproveitando o embalo da fama recém conquistada por suas aparições em 007: Na Mira dos Assassinos (1985) e Rocky IV (1985). Mas isso não foi nem de perto suficiente para que a iniciativa desse certo. Tanto é que levou quase quarenta anos para Mestres do Universo voltar aos cinemas. E se valeu toda essa espera? Entre acertos e tropeços, até que se pode dizer que o herói… ainda tem a força.

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O imbróglio que explica o surgimento de os Mestres do Universo é tão ou mais interessante do que a ficção em si. Para começo de conversa, esse foi um projeto cuja origem foi motivada única e exclusivamente por fins comerciais. Espantado com o sucesso de Barbie (2023)? Pois He-Man e amigos foram pensados como a versão para os meninos dos mesmos bonecos. A inspiração fora o filme Conan, O Bárbaro (1982), mas o conceito foi depois descartado por ter sido considerado muito violento. Após uma certa amenização no tom, a lógica foi se posicionar como um concorrente direto da saga Star Wars – também em alta no início dos anos 1980. Por isso esse título com referências a sábios e ao espaço.

Basta assistir, no entanto, a qualquer episódio do desenho animado para perceber que a premissa é exatamente a mesma do Superman: um herói que, no dia a dia, se esconde por detrás da imagem de um homem tímido, desajeitado e covarde, tudo para não levantar suspeitas a respeito da sua verdadeira identidade, um forte e valente campeão musculoso capaz de enfrentar os maiores desafios sem temer ou duvidar do seu potencial. O curioso, no entanto, é que justamente essa característica que foi deixada de lado no filme agora dirigido por Travis Knight (três vezes indicado ao Oscar, sempre na categoria de Longa de Animação – a última por Link Perdido, 2019).

A missão do cineasta, ao lado dos roteiristas Chris Butler (indicado ao Oscar por ParaNorman, 2012), Aaron & Adam Nee (Cidade Perdida, 2022) e Dave Callaham (Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, 2021) era triplamente complicada. Primeiro, como adaptar com humanos uma aventura fantasiosa e mágica. Depois, como tornar contemporânea e acessível ao espectador de hoje uma história calcada num tipo de ingenuidade em desuso há décadas. E por fim, como lidar de maneira verossímil com elementos de difícil assimilação para um público acostumado a explorar narrativas afeitas a uma estrutura “pé no chão”, ou seja, que tenha uma base realista. Gatos gigantes e falantes, guerreiros que esticam pescoços e vilões com corpos sarados – mas rostos que sustentam não mais do que uma caveira – possuem pouca credibilidade. Mas é justamente esse tipo de absurdo que essa história não apenas reconhece, mas também faz graça a partir delas.

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Mestres do Universo é uma grande e desenfreada jornada, que conta também com humor de sobra (por vezes até demais) e autorreferências que tornam o conjunto mais leve e até mesmo acessível. Porém, a despeito destes recursos que, de fato, funcionam, uma questão segue presente: a quem este filme se dirige? Às crianças e aos jovens de hoje? Ou aos adolescentes de quatro décadas atrás, que hoje são homens e mulheres tomados por um resquício de nostalgia que talvez sustente um prazer saudosista. Mas seria esse suficiente para justificar um orçamento de quase US$ 200 milhões?

Etérnia é um planeta tomado pela paz. No entanto, o rei foi negligente, e esse período sem guerras foi suficiente para que se formasse um exército das trevas, liderado pelo temido Esqueleto (que dizem ser interpretado por Jared Leto, mas sua voz se mostra tão distorcida a ponto de ter ficado irreconhecível, seu corpo está tão inflado de modo como apenas uma intervenção digital poderia proporcionar, e sua identidade não chega a ser confirmada em nenhum instante durante a trama). De tal forma que, quando esse decide partir para o confronto, tomar o controle do reino não chega a ser particularmente difícil.

Nesse momento, o filho dos monarcas, o ainda criança príncipe Adam, é enviado para a Terra – tal qual Kal-El – para fugir do mesmo destino dos pais. Aqui ele é criado como um ser humano normal, por mais que siga tendo a memória de uma criação rodeada por seres incríveis e superpoderosos – o que o torna motivo de chacota entre os amigos. Mas ele não estava errado. Quinze anos depois, quando finalmente reencontra a Espada do Poder, um sinal emitido por essa permite que ele seja reencontrado e levado de volta a sua terra natal. E lá, mais uma vez entre os seus, irá finalmente liderar a resistência que não apenas deverá colocar um fim ao período de terror que tomou conta de todos, como também restaurar o ambiente de glórias e conquistas pelo qual muitos anseiam rever.

O momento mais aguardado pelos espectadores, indiscutivelmente, é aquele em que Adam levantará sua espada em direção aos céus e, por meio das palavras mágicas “pelos poderes de Greyskull… eu tenho a força” se tornará o invencível… Adam mesmo. Sim, pois até mesmo o apelido “He-Man” (que, em tradução literal, seria…Ele-Homem!?!?) vira motivo de piada. E há muitas outras tiradas do mesmo estilo, mantendo graça frente ao ridículo de muitas das situações das quais se mostram inevitável desviar.

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Se Nicholas Galitzine revela habilidade e carisma para levar adiante o personagem-título – sendo abençoado inclusive pelo intérprete anterior, Lundgren, em participação especial – e as quase brasileiras Camila Mendes (que apesar de ter nascido nos EUA, possui dupla cidadania, pois seus pais nasceram em Porto Alegre – a mãe – e Brasília – o pai) e Morena Baccarin (nascida no Rio de Janeiro, mas que se mudou para os EUA aos sete anos de idade, junto com a família) se mostram dinâmicas em suas presenças como Teela (braço-direito de Adam) e Feiticeira (a guia espiritual do herói), outras presenças são desperdiçadas, como as do já mencionado Leto, a de Idris Elba (que, com esse filme, foi oficialmente transferido do status de protagonista para coadjuvante) e até Kristen Wiig (cujo desempenho vocal poderia ter sido melhor aproveitado). Enfim, diante um cenário de diversas possibilidades que poderiam ter dado errado, somente o fato desse conjunto se sustentar por mais de duas horas chega a ser motivo de comemoração. E para os que ficarem atentos durante os créditos finais, o anúncio de um próximo passo já foi dado. Afinal, o que seria de He-Man sem… She-Ra? Quem viver, verá.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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