Crítica

Muito já se falou sobre adaptações para o cinema de personagens de histórias em quadrinhos, principalmente super-heróis. E esta onda, que praticamente instaurou um novo gênero de produção no cinema norte-americano, começou há quase 20 anos, com Batman, de Tim Burton, de 1989. E agora, duas décadas depois, tudo se reinventa mais uma vez com Batman: O Cavaleiro das Trevas, o filme que derruba todos os parâmetros anteriores e estabelece novas barreiras para o cinema de fantasia. Não é somente o melhor filme baseado em hq's já feito - está muito além disso!

O Cavaleiro das Trevas começa exatamente no ponto em que fomos deixados no final do anterior, Batman Begins, de 2005, que reiniciou a saga do homem-morcego: com o começo das ações de um novo vilão, um insano que assina seus golpes com uma carta do baralho... o Coringa! Após um assalto espetacular num banco controlado pela Máfia, ele coloca todos em alerta: tantos os bandidos quanto os policiais. Completamente maluco, ele se oferece para colocar fim ao maior dos medos destes dois lados da lei: Batman! Afinal, esse encapuzado é herói ou bandido? Caberia somente a um homem fazer justiça com as próprias mãos? Ele está ou não acima da ordem e das regras pré-estabelecidas?

Estas são apenas algumas das questões levantadas pelo filme, ao lado de outras até mais pertinentes atualmente, como: até que ponto podemos ser empurrados sem sermos atraídos pelo caos? O que nos separa da loucura? E até em que limite podemos interferir na liberdade individual de cada um em nome de um bem maior? O novo longa de Christopher Nolan (Amnésia, O Grande Truque) tem tantas camadas de leitura que chegamos a ficar confusos diante imensas e complexas possibilidades. É uma história de ação com super-heróis? Sim, mas também um impressionante thriller policial, um drama social, uma aventura com intensas doses de adrenalina, uma comovente história de amor e um suspense de tirar o fôlego até dos mais desavisados.

Lembra da cena em que o Homem-Aranha impede um terrível acidente em um trem provocado pelo Dr. Octopus em Homem-Aranha 2? Ou da morte da Fênix em X-Men 2? Ou de quando Superman salva um avião em Superman: O Retorno? Pois bem, agora multiplique estes momentos isolados de tensão por um filme inteiro! Então, assim é Batman: O Cavaleiro das Trevas. Nolan afirma que suas principais referências ao elaborar sua trama foram clássicos como Lawrence d'Arábia (1962), Serpico (1973), O Poderoso Chefão 2 (1974), Um Estranho No Ninho (1975) e Fogo contra Fogo (1995). Só uma rápida olhada nesta pequena lista já nos oferece uma idéia do que ele aprontou, não? E o veredito? O resultado apresentado nas telas está completamente à altura das obras citadas, para ser colocada lado a lado!

Além dos inquestionáveis méritos técnicos - o filme é de uma precisão em detalhes absurda, muito provocada pela alta definição exigida pelos cinemas IMAX e já levada em conta durante sua produção - há outros tópicos que merecem ser apontados, e um dos mais citados é o elenco. Christian Bale (O Sobrevivente, 2006), apesar de não ser tão parecido fisicamente, é a encarnação ideal tanto para o herói Batman quanto para sua identidade secreta, o playboy milionário Bruce Wayne. Ator dedicado, ele não fica em nenhum momento aquém de suas responsabilidades. Mas quem realmente vai muito além do esperado é o já falecido Heath Ledger (O Segredo de Brokeback Mountain, 2005), que morreu no dia 22 de janeiro deste ano, logo após o término das filmagens, porém sem ter tido a chance de conferir seu trabalho. E ele está estonteante. Constrói um Coringa anos-luz de distância daquele criado por Jack Nicholson em 1989, sem ser tão icônico, porém muito mais letal e alucinado. Já se comenta em Oscar póstumo no ano que vem, e confesso que não seria nenhuma injustiça. Ele nos oferece o mais perigoso e crível - por mais contraditório que isso possa parecer - vilão de todos os filmes da série, deixando como rastro a sensação de que simplesmente tudo pode acontecer a qualquer instante - não há limites!

Outros destaques merecedores de comentários são Aaron Eckhart (Obrigado por Fumar, 2005), como Harvey Dent, o homem que seria o contraponto de Batman. Se um é o cavaleiro das trevas, o outro seria o cavaleiro branco, aquele disposto a lutar pela justiça à luz do dia, com o rosto limpo e sem máscaras. Ele é o promotor público de Gotham e um dos servidores públicos mais incorruptíveis da cidade. Porém, como qualquer leitor de quadrinhos sabe, a tragédia está no caminho do personagem, e ele acaba se transformando no Duas-Caras, um dos maiores inimigos do homem-morcego. E sua gênese, além de genial, é o grande fio condutor do enredo, brilhantemente elaborado. Eckhart dá outro show, e ficamos completamente cientes dos porquês que o levam de um lado a outro da lei. Espetacular. Assim como Maggie Gyllenhaal, que substitui com louvores da fraca Katie Holmes (a maior fragilidade do filme anterior) no papel de Rachel Dawes, a grande paixão de Bruce Wayne. Ela imprime um vigor bastante singular, defendendo com muita força um papel que tinha tudo para ser irritante ou apenas uma distração, mas que consegue se diferenciar num cenário que ainda contempla os sempre ótimos Michael Caine (o mordomo e braço-direito Alfred), Morgan Freeman (o presidente das Indústrias Wayne, inventor e, muitas vezes, salvador Lucius Fox) e Gary Oldman (o comissário Gordon), todos retomando aos papéis que tão bem defenderam em 2005.

Batman: o Cavaleiro das Trevas se coloca um nível acima ao que estávamos acostumados com este gênero. Filmado em grande parte em locação, desde Chicago a Hong Kong, passando por Londres, tem a sensação do real impressa em cada segundo da projeção. Intenso, verdadeiro, assustador, emocionante. São poucas as palavras para descrever esta que é uma das experiências cinematográficas mais gratificantes do ano. Ir ao cinema será uma opção de diversão, mas também para estar a par de uma inovação que poucas obras conseguem oferecer. Após o crescimento espantoso da Marvel (dona dos populares Homem-Aranha, Homem de Ferro, X-Men, Hulk e Quarteto Fantástico, entre outros, muito se acreditou que a DC Comics (proprietária do Batman e do Superman, por exemplo) estaria fora do jogo. Agora, após este projeto, a única conclusão possível é que tal pensamento não poderia ser mais equivocado.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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