Crítica


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Sinopse

Eleanor, Chidi, Tahani e Jason descobriram que não estão no Lugar Bom - e, sim, em uma versão alternativa do Lugar Ruim, em uma experiência proposta pelo diabólico arquiteto Michael. No entanto, os quatro estão comprometidos em se tornarem pessoas melhores, e acabam conquistando a simpatia daquele que deveria torturá-los. Conseguirão, os cinco, mudarem suas avaliações e, enfim, chegarem ao Lugar Bom?

Crítica

Esqueça o Céu e o Inferno tão propagados pela crença católica. Imagina um pós-vida (ou uma ‘morte’, se acharem mais apropriado) em que, de fato, cada indivíduo seja julgado pelos seus atos aqui na Terra, mas que, ao invés de ganhar a companhia de anjos ou demônios, apenas seria realocado em um paraíso chamado O Lugar Bom, ou em um cenário de torturas infinitas batizado como O Lugar Ruim. Apenas isso, e de acordo com a percepção de cada um – afinal, o que é bom para um pode ser ruim para um outro, e assim por diante. Este é o conceito explorado em The Good Place, série criada por Michael Schur, vencedor do Emmy por Saturday Night Live (2002) e pela versão norte-americana de The Office (2006) – e também autor do roteiro de Nosedive (2016), primeiro episódio da terceira temporada de Black Mirror. O twist era que Eleanor Shellstrop, a protagonista, havia parado no Lugar Bom por engano, e ao mesmo tempo em que tentava aprender como ser uma boa pessoa – mesmo já tendo falecido – precisava evitar que fosse desmascarada e, com isso, enviada ao Lugar Ruim. Bom, chegamos à segunda temporada, e após às incríveis revelações do final da temporada anterior, o que esperar agora?

:: ATENÇÃO: Alerta de spoiler! ::
:: Só continue caso já tenha assistido à primeira temporada por completo! ::

Eleanor (Kristen Bell, ótima em suas duas versões, má e boa) não foi parar no Lugar Bom por engano. Nem ela, nem seus amigos mais próximos: Chidi (William Jackson Harper, de Paterson, 2016), supostamente sua alma gêmea, ou Tahani (Jameela Jamil, em seu primeiro trabalho como atriz e que até então atuava como repórter e apresentadora na televisão inglesa) e Jason (Manny Jacinto, visto em outras séries como Era Uma Vez, 2013, ou The Good Doctor, 2017), o casal de vizinhos. Aliás, nem mesmo no Lugar Bom eles estão. Tudo fazia parte de um plano diabólico do Arquiteto daquela região, Michael (um incrível Ted Danson, premiado no Critics Choice Awards por este personagem). Os quatro estão, de fato, em uma versão alternativa do Lugar Ruim, como cobaias em experimentos para serem testados em novas formas de punições. Só que a aventura deles por ali acaba dando errado por vários motivos. O que fazer a seguir?

Michael é o melhor. Ele planejou tudo desde o princípio, só não contava com uma coisa: a absurda capacidade dos seres humanos em se adaptarem a qualquer situação, por mais adversa que possa ser. Eleanor, Chidi, Tahani e Jason estão, de fato, mudando. Ou para sermos mais precisos: estão melhorando. Eleanor está deixando de ser tão egoísta, Chidi reconhece o quanto sua indecisão o prejudicou, Tahani percebe que precisa fazer o bem sem se importar com as aparências de cada ato, e Jason começa a ter consciência de todos os erros que cometeu em vida. Não seria, portanto, o momento de dar a eles uma segunda chance? E como fazer isso, se já estão todos mortos?

Porém, o mais interessante é perceber a curva de mudança nos dois personagens que menos precisavam, enfim, mudar. Michael é um demônio com milhares de anos que finalmente teve sua grande chance. Mas o que lhe acontece a partir do momento que passa a se compadecer dos problemas humanos? A complexidade de cada um destes homens e mulheres que entra em contato se multiplica infinitamente, levando-o a se dar conta da incapacidade de um julgamento mais apressado, baseado apenas em fatos, a ponto de colocá-lo ao lado daqueles que deveria condenar. Porém, ainda mais impressionante é verificar o que acontece com Janet (D’Arcy Carden, de Other People, 2016), a inteligência artificial sem emoções que, aos poucos, começa justamente a... sentir! A paixão que descobre por Jason, a criação de Derek (Jason Mantzoukas, de Artista do Desastre, 2017), e as interações com a Bad Janet (sua versão maléfica) terminam por ser, inevitavelmente, os pontos altos de cada episódio.

Mas não esqueçamos de outras participações especiais de destaque, como Shawn (Marc Evan Jackson, visto há pouco em Jumanji: Bem- Vindo à Selva, 2017), como o inabalável chefe de Michael, o perversamente divertido Trevor (Adam Scott), o demônio em pessoa, ou ainda as maravilhosas Maribeth Monroe (Pequena Grande Vida, 2017), como a inabalável Mindy St. Claire, a única habitante do Lugar Médio, ou a preciosa Maya Rudolph (Missão Madrinha de Casamento, 2011), como a Juíza Gen, aquela que deverá dar um destino a todos eles – após comer o seu burrito, é claro. São figuras que acrescentam graça à narrativa, ao mesmo tempo em que não chegam a eclipsar nenhuma das performances dos protagonistas. Ou seja, são os convidados perfeitos, que agregam humor à trama, colaborando com o desenrolar da história e gerando uma interatividade com o elenco permanente bastante precisa e adequada.

Mas The Good Place é mais do que bons atores envoltos por um texto inteligente. E a segunda temporada, em seus doze episódios, deixou claro que a curiosa fórmula proposta lá no início não só está longe de se esgotar, como também parece ter sido concebida já prevendo desdobramentos e novos cenários. Conseguirão Eleanor, Chidi, Tahani e Jason uma vaga no Lugar Bom? Michael, com seus planos mais mirabolantes, seguirá apenas tentando ou alcançará o sucesso na última cartada que tinha disponível? E Janet, como não torcer por ela, mesmo diante das escolhas mais inimagináveis? Com uma terceira temporada já confirmada para retornar no segundo semestre de 2018, há muito pelo que esperar. E, acima de tudo, descobrir como quatro – ou cinco – figuras tão detestáveis conseguiram conquistar cada um no lado de cá da audiência.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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