Crítica


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Sinopse

Quatro adolescentes estão jogando um videogame cuja ação se passa numa floresta. Eles escolhem avatares para a aventura. Mas um evento inesperado faz com que os jogadores sejam transportados para dentro do universo fictício, transformando-se nos personagens escolhidos.

Crítica

Jumanji (1995) começava com dois garotos, no final do século XIX, enterrando um baú no meio da floresta. “E se alguém cavar nesse local e descobrir o que tem ali dentro?”, questiona um deles. “Deus tenha piedade de sua alma”, afirma o outro, em resposta. A narrativa, nesse ponto, dá um pulo de quase um século, até 1969, quando o protagonista, Alan Parrish (neste ponto, vivido por Adam Hann-Byrd, de Mentes que Brilham, 1991), encontra o que havia sido escondido e, dentro dele, está um jogo de tabuleiro: Jumanji! Ao levá-lo para casa, começa a jogá-lo e, assim que atira os dados, recebe uma mensagem: “até que saia 5 ou 8, na floresta você deve esperar”. E para lá ele é mandado e onde permanece por vinte e seis anos, até que alguém continua o jogo e, sem se dar conta, atinge com os mesmos dados a soma de 5, libertando-o. Jumanji: Bem-Vindo à Selva, a continuação que chega aos cinemas vinte e dois anos após o anterior, não tem esse subtítulo ao acaso, pois é justamente na mata onde o antigo protagonista ficou tanto tempo aprisionado que essa nova trama se passa. Uma escolha inteligente, que não apenas oferece a este filme um ar revigorado, como também homenageia o original sem, no entanto, ousar repeti-lo.

Bem-Vindo à Selva começa exatamente um ano após o término de Jumanji, e a cena final de um é a inicial do outro. Estamos na beira da praia, e o jogo está prestes a ser desenterrado mais uma vez. Quem o descobre dessa vez é um corredor matinal, que leva o jogo como presente ao filho, um adolescente que não dá muita atenção ao brinquedo num primeiro momento, mas acaba sendo atraído pelo barulho dos tambores (apelo característico para despertar a curiosidade em novos jogadores). E, assim como Alan Parrish, logo na primeira jogada ele é levado para dentro do tabuleiro. Duas décadas se passam, e a realidade é triste para Spencer (Alex Wolff, irmão de Nat Wolff), um nerd obrigado a fazer as tarefas escolares do seu ex-melhor amigo, Fridge (Ser’Darius Blain), que agora que cresceu e se destacou nos esportes não dá mais atenção ao antigo vizinho, Bethany (Madison Iseman), uma garota frágil e insegura que passa os dias postando selfies na internet, e Martha (Morgan Turner), a menina que, por ser mais inteligente e concentrada que seus colegas, despreza os que estão ao seu lado. Por um motivo ou outro, os quatro acabam pegando detenção, e se veem obrigados a limpar um antigo depósito da escola. Lá, encontram... Jumanji! E assim que a partida tem um novo começo, são transportados para essa realidade paralela.

Aqui, portanto, começam as diferenças maiores entre as duas versões. Se o primeiro desenvolvia sua trama no mundo real, por assim dizer, o atual investiga o que acontece dentro do jogo. Cada um dos personagens principais assume a forma do seu avatar, abrindo espaço para um novo elenco. Spencer é o líder, e por isso lhe cai bem o olhar determinado e o corpo musculoso de Dwayne Johnson. Fridge reclamava de cada adversidade, e vê-lo como o pequeno e nervoso Kevin Hart é uma piada pronta. Martha se transforma da bela e impetuosa Karen Gillan (Guardiões da Galáxia, 2014). Já a mudança mais radical acontece com Bethany, que assume a forma não só de um homem, mas de um professor gordinho e de já certa idade (Jack Black). O quarteto possui, cada um, uma série de habilidades, e, em conjunto, uma missão: colocar uma mística esmeralda de volta ao seu local de origem, no alto da montanha da pantera, e dar fim à maldição imposta pelo vilão Van Pelt (Bobby Cannavale). Só assim a partida chegará ao fim e, com isso, poderão voltar – ou não – às suas vidas normais.

Jake Kasdan é um realizador afeito à comédia, como visto em títulos como Professora Sem Classe (2011) e Sex Tape: Perdido na Nuvem (2014). É importante observar, no entanto, que ele é filho de Lawrence Kasdan, roteirista de sucessos como Os Caçadores da Arca Perdida (1981) e Star Wars: O Despertar da Força (2015). O que se percebe, portanto, é que Jake não apenas conseguiu dosar sua veia cômica, explorando bem os talentos reunidos em frente às câmeras, sem exageros ou situações desnecessárias, como também fez bom uso da herança genética que provavelmente seu pai lhe passou, criando uma aventura envolvente, que funciona tanto como diversão como também em avançar com os acontecimentos dessa mitologia. Os personagens são bem construídos, com características próprias, e independente do ator que os defenda, tais transposições não são bruscas, mantendo-se cada personalidade. Dwayne Johnson se destaca, tanto nas cenas de ação como em entregar cada piada no momento certo, enquanto que Jack Black (principalmente) e Kevin Hart possuem seus bons momentos. E se Nick Jonas - que surge num momento de virada, servindo também de link com o primeiro filme - não chega a ser uma surpresa, o porte de galã adolescente termina por funcionar ao lado de Johnson, formando uma dupla melhor do que aquela vista com Zac Efron no constrangedor Baywatch (2017).

Desenvolvendo-se de acordo como uma partida de jogo, com etapas a serem superadas, dificuldades a serem vencidas e cartas sendo tiradas da manga a qualquer instante, Jumanji: Bem-Vindo à Selva não apenas funciona junto àqueles que estão conhecendo agora a mítica por trás da história, como também se revela à altura das expectativas e do apreço dos fãs do filme protagonizado pelo saudoso Robin Williams. Sem pretender ir além daquilo que inevitavelmente é – uma leve e inconsequente diversão – consegue ainda se conectar a demandas mais atuais, com protagonistas voltados às minorias, mulheres empoderadas e até uma leve crítica ao bullying infantil e ao uso excessivo das redes sociais. Tudo isso embalado de forma ágil e dinâmica, que mesmo sem ser marcante, entretém enquanto dura. E isso, cada vez mais, tem se revelado um feito e tanto.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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