Crítica


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Sinopse

Tudo está indo muito bem para Adrian Doria. Seu negócio é um sucesso e lhe trouxe riqueza, sua bela esposa teve a criança perfeita, e sua amante está bem com o caso dos dois. Tudo está ótimo até que Doria desperta num quarto de hotel, depois de ser atingido na cabeça, e encontra sua amante morta no banheiro, coberta com um monte de notas em euros. Pior, o quarto é trancado por dentro e não tem nenhuma maneira de entrar ou sair. Com tudo o que construiu desmoronando aos seus pés, Doria recorre a melhor advogada de defesa da Espanha, Virginia Goodman, e eles tentam descobrir o que realmente aconteceu na noite anterior.

Crítica

O cinema espanhol, com ênfase para as produções da última década, tem demonstrado uma elegância na direção de arte e também nas temáticas de seus roteiros. O diretor Oriol Paulo, em especial, tem um apreço pelas tramas de suspense repletas de reviravoltas, ao estilo de quem cresceu devorando obras de nomes como Agatha Christie e George Simenon. Depois do fraco e caricato O Corpo (2012), o espanhol parece ter encontrado seu ritmo em Um Contratempo.

A tal elegância se mostra presente já nos primeiros minutos de filme. Uma senhora de aparência impecável se dirige ao apartamento de um jovem empresário. O encontro é uma incógnita para o espectador. Mas logo a senhora se revela uma advogada competente e disputada e o rapaz, Adrian, um homem em apuros. Acusado de matar a amante Laura em um quarto de hotel, ele precisa contar toda a verdade para que sua defensora consiga uma saída para o que ele diz ter sido uma armadilha. A entrada do primeiro flashback – e serão vários ao longo da uma hora e quarenta de duração do longa – apresenta Adrian como inocente. É tão vítima quanto a amante Laura, morta no chão do banheiro coberta por notas de euros. Só que logo novas informações surgem e o espectador começa a ter que montar um quebra-cabeça.

Um Contratempo não é inovador. Desde que o cinema começou a modernizar sua narrativa, é comum que um roteiro tome rumos surpreendentes. O que poderia fazer do filme de Oriol Paulo um exemplar diferenciado é sua influência do cinema noir, com direito a femme fatale disposta a destruir a vida do homem que a dispensou de forma um tanto fria. Por falar em femme, as atrizes são o grande charme da produção. A começar por Ana Wagener, que tem a imponência necessária para interpretar uma advogada que conhece os meandros da justiça como ninguém. Sua atuação madura torna ainda mais medíocre as caras e bocas forçadas do protagonista Mario Casas. Seu Adrian tem pinta de conquistador barato e não de homem de negócios consagrado. E fica ainda mais picareta quando divide a cena com Bárbara Lennie, que faz Laura ter um crescente de cinismo e frieza impressionante. Se a história fosse centrada nela, talvez o resultado fosse mais consistente.

Há também uma breve participação de Francesc Orella, da ótima série catalã Merlí (2015-2016), no papel do advogado que parece mais preocupado em esconder a infidelidade do cliente do que livrá-lo da cadeia. No fim, Um Contratempo é uma produção destinadas aos apreciadores da decifração de pistas. Quem tiver um pouco mais de estrada em filmes de suspense pode sair decepcionado da sessão, já que as surpresas não passam de um compilado de antigas novidades. Não se pode negar o bom gosto da fotografia e do posicionamento de câmera, assim como a direção de arte em tons de verde e cinza, com ares britânicos, apesar de ambientado na Espanha. O carro afundado, aliás, parece uma homenagem a Psicose (1960), de Alfred Hitchcock. Oriol tem boas fonte, não se pode negar, e parece ter amadurecido como diretor. Agora é aguardar seu próximo trabalho e ver se o suspense vai crescer ou continuar mais do mesmo.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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