Crítica


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Sinopse

Apresenta a vida do cartunista e ativista Henfil e, através de narrativas paralelas, explora um movimento de descoberta do artista junto aos jovens a partir de uma turma de animadores que tenta trazer seu trabalho para os dias atuais. Ainda traz revelações sobre a maneira como o artista usou seus desenhos como um aparato para driblar a censura política, e também como um recurso para lidar com sua saúde frágil, causada pela hemofilia, e para expor sua inquietação criativa.​

Crítica

Tão difícil quanto realizar um documentário cujo personagem é uma incógnita e há pouco material disponível para pesquisa é retratar alguém que sempre fez questão de mostrar para o mundo suas opiniões, inclusive as mais dolorosas. Henrique de Souza Filho, para a família mineira que deixou no interior, foi o caçula da Dona Maria. Para o mundo, era um cartunista talentoso e provocador que não se contentou com papel e caneta e decidiu colocar a boca no trombone por meio de outras artes. Henfil, dirigido por Angela Zoé, tem como mérito maior o equilíbrio entre passado e futuro. Seu ponto de partida é a reunião de jovens ilustradores e animadores interessados em criar um curta-metragem baseado nos personagens de Henfil. O objetivo, além de dar movimento ao traço simples e preciso do artista, também visa expor as mensagens que ele se preocupava em passar quando criava suas histórias.

Entre visitas ao Instituto Henfil, localizado no Rio de Janeiro, e dezenas de rascunhos e estudos, amigos e familiares vão surgindo no estúdio de criação e deixando a memória fluir. É por meio das falas de colegas de trabalho, como Jaguar e Ziraldo, da irmã Glorinha e dos jornalistas Tarík de Souza e Lucas Mendes que vamos descobrindo os processos criativos e também a personalidade de Henfil. Entre os muitos assuntos abordados, o mais recorrente é a hemofilia, doença que tornou o então garoto em um inquieto incurável, já que havia a idéia de que sua vida seria curta. Essa visão, aparentemente despreocupada com a morte e desesperada pela busca da felicidade, pode ser sentida no humor ácido de suas tirinhas, algumas fazendo referências a fluídos corporais comuns a quem cresceu dentro de hospitais. A naturalidade diante de seu problema de saúde chocava até os revolucionários parceiros de desenho de O Pasquim.

O paralelo construído por Zoé, que intercala a criação do curta de animação com imagens de arquivo, algumas gravadas pelo próprio Henfil, e entrevistas com seus camaradas, às vezes se perde, dando mais visibilidade a discussão de questões técnicas, enquanto se teria um material humano muito mais interessante. A emoção nos olhos de Jaguar, disfarçada por uma ou outra piada sobre o amigo, é pouco explorada. Não que um documentário deva ser feito de sangue e lágrimas, mas Henfil tem como personagem principal alguém que não tinha medo dessas duas coisas. O espectador descobre um homem tão sonhador que não pensou duas vezes para embarcar para Nova York e bater na porta dos principais jornais em busca de espaço para suas linhas. A incredulidade de seus amigos diante de tamanha esperança é compreensível, mas basta uma conferida em seus trabalhos para ver que, mesmo quando criticava a situação política do país, sempre havia luz, uma visão solar diante das trevas.

Mesmo que tenha momentos mais parecidos com o formato de reportagem que de documentário (o canal Globo News está entre os produtores, inclusive), Henfil é tocante tanto para quem desfrutou do traço e das frases do cartunista nos jornais quanto para uma geração que conhece seu nome, mas pouco sabe de sua importância para a arte brasileira e também para a televisão, onde ele conseguiu falar de política dentro de uma emissora que assumidamente apoiava a ditadura militar. Zoé conseguiu fazer um documentário que se assemelha muito a uma das criações mais populares de Henfil, a Graúna: um formato simples, mas que tem muito a dizer.

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é jornalista e especialista em cinema formada pelo Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Com diversas publicações, participou da obra Uma história a cada filme (UFSM, vol. 4). Na academia, seu foco é o cinema oriental, com ênfase na obra do cineasta Akira Kurosawa, e o cinema independente americano, analisando as questões fílmicas e antropológicas que envolveram a parceria entre o diretor John Cassavetes e sua esposa, a atriz Gena Rowlands.
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