Se Eu Fosse Você 3

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Sinopse

Em Se Eu Fosse Você 3, duas décadas após a última troca de corpos, Cláudio e Helena vivem uma nova etapa da vida ao lado da filha Bia, agora adulta e casada. A tranquilidade da família é interrompida por um acontecimento inesperado que abala suas relações. Quando um fenômeno semelhante ao do passado volta a acontecer, todos precisam aprender, de forma bastante literal, a enxergar o mundo pela perspectiva do outro. Comédia.

Crítica

Para o espectador de 2026, talvez seja difícil elaborar a real dimensão do que Se Eu Fosse Você (2006) e Se Eu Fosse Você 2 (2009) significaram, duas décadas atrás, para o cinema brasileiro. Os dois longas, juntos, venderam quase 10 milhões de ingressos (3,6 milhões o primeiro, 6,1 milhões o segundo) – numa época (não muito diferente da atual, aliás) em que produções nacionais não estavam mais acostumadas a alcançar tais números. Ambos foram premiados em mais de uma ocasião, seus protagonistas – Glória Pires e Tony Ramos – conseguiram na telona, pela primeira vez em suas carreiras, a mesma popularidade que já desfrutavam por suas atuações na televisão, e o diretor Daniel Filho se viu responsável por lançar uma identidade própria – as tais “comédias globais”, que para o bem (e para o mal) se tornaram tendência a partir desse sucesso. É por isso que por anos se questionou quando que um terceiro episódio da franquia seria, enfim, feito. Eis que uma geração inteira se passou e se esse Se Eu Fosse Você 3 finalmente está disponível, é certo também que é não mais do que uma sombra pálida em relação aos seus antecessores. Algo que, curiosamente, também não quer dizer muito.

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Isso porque, apesar dos predicados listados no início desse texto, os dois primeiros foram mais um fenômeno particular e menos obras capazes de resistir ao teste do tempo. Vistos hoje, se mostram bobos, quase ingênuos. E isso que partem de uma premissa que vem sendo explorada por Hollywood e por outras grandes indústrias já estabelecidas há muito tempo, sem maiores variações. E se entre o primeiro e o segundo longa o que viu foi apenas um aumento nas consequências de uma troca de identidades entre um casal – a “alma” do marido foi parar no corpo da esposa, e vice-versa – dessa vez a situação no mínimo inusitada é passada adiante, como uma corrente de azar. Claudio (Ramos) e Helena (Pires) não se perdem mais um com o outro por causa de um pedido desajeitado feito na pior hora possível. Quem se vê em meio a esse desastre é a filha dos dois, Bia (Cléo Pires), e o marido dela, Aquiles (Rafael Infante). Porém, se antes era o stress e uma falta de compreensão mútua e supostamente intrínsecas aos dois sexos, o que se percebe dessa vez é não mais do que uma estafa moral e um desgaste em meio a um relacionamento cujos envolvidos estão desinteressados um pelo outro. O que deveria servir de ponte entre eles é na verdade mais um muro ao qual nenhum parece disposto a fazer o esforço necessário para superá-lo.

Aquiles é guia turístico e amante de esportes radicais. Leva uma vida ao ar livre, assumindo riscos e lidando diariamente com os mais diversos tipos de pessoas, sempre com bom humor e muito jogo de cintura. Bia, por sua vez, é o oposto. Apesar de também trabalhar com o público, se esconde por detrás de ajudantes, auxiliares e, principalmente, uma porta que separa o seu espaço daquele ao qual os outros têm acesso. Ela é chef de cozinha, está acostumada a lidar com panelas e ingredientes, não quer saber de clientes, críticos e demandas inesperadas. Sabe como controlar a temperatura de cozimento ou como montar um prato, mas está cansada de tentar adivinhar o gosto do próximo pedido ou das inconstâncias de uma filha adolescente. É por isso que está satisfeita com Maria Clara (Valentina Daniel, neta de Daniel Filho e de Betty Faria) e não pensa em ter outros filhos, mesmo com a insistência do marido para que ela mude de ideia. Os perfis são básicos. É a partir de estruturas facilmente reconhecíveis que a alternância que se seguirá poderá ser identificada. Mas poderia ter ido além de colocar ela (como ele) tendo que aprender na marra como elaborar uma receita, ao mesmo tempo em que ele (como ela) se verá obrigada a sair de sua zona de conforto e conduzir uma trilha pelo mato (como se esses fossem os maiores desafios dessas novas versões deles próprios).

A culpa de tamanha platitude é nem tanto da diretora Anita Barbosa, que foi assistente de direção nas produções anteriores e tem construído uma filmografia, desde então, focada em comédias românticas, e mais do roteiro escrito por Leandro Soares – o mesmo de outras sequências igualmente frustrantes: Crô em Família (2018) e Vai Que Cola 2: O Começo (2019). Em comum, estes tinham a mudança de sua proposta original ao privilegiar um viés acomodado e desprovido de qualquer postura ousada, apostando no coletivo mediano, sem nenhum destaque individual. Basicamente o mesmo proposto por aqui. O curioso, no entanto, é que nem mesmo os personagens são mantidos. Helena e Claudio mal aparecem, não possuem a menor importância frente aos acontecimentos, como se não tivessem nada a ensinar por suas experiências prévias. Alias, se faz necessário apontar o desperdício que foi chamar Tony Ramos e Glória Pires para esse terceiro filme. Eles possuem duas ou três cenas, não chegam a se envolver diretamente com o drama dos verdadeiros protagonistas – Glória nem chega a dividir a tela com a filha, sendo que todo o contato de suas personagens se dá pelo telefone – e mesmo a suposta viagem de “segunda lua de mel” que usam como desculpa para se fazerem ausentes é mal empregada, uma vez não há cenários ou trajetórias à parte a serem exploradas (o máximo é um jantar com figurantes de origem nipônica – entre eles o cineasta Hsu Chien – ao fundo).

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Tanto Tony quanto Glória passaram anos afirmando que “só voltariam para um terceiro filme caso o roteiro apresentado justificasse esse retorno”. Bom, definitivamente, não foi o caso. O peso das décadas se faz evidente para o astro, que se mostra desinteressado tendo apenas que repetir as mesmas caras e bocas. Já a veterana atriz está mais preocupada em passar o bastão, esperando que Cléo, quem sabe um dia, herde ao menos parte do seu talento (algo que até hoje nem perto disso chegou). Por outro lado, Bia e Aquiles se confirmam como uma dupla com a qual é difícil se importar, visto o desfecho previsível e desprovido de emoção em que se veem envolvidos. Sem comicidade suficiente que garanta a atenção da audiência, também carecem de desdobramentos ou reviravoltas capazes de aprofundar as diferenças entre os sexos. Para piorar o quadro, é dono de um discurso envelhecido, desconectado das demandas e debates do seu tempo. Se Eu Fosse Você 3 parece perdido, sem espaço ontem, deslocado hoje e facilmente esquecível amanhã. Um título, enfim, desnecessário, dono de uma bagagem que nem mesmo respeito o conjunto parece reunir as condições necessárias para abraçar.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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