Mexicano que vive entre Madri, na Espanha, e a capital de seu país, o diretor Rodrigo García Saiz é conhecido por filmes que exploram a condição humana, o luto e a masculinidade. Morro, seu mais novo longa, dá continuidade a esse processo. Na trama, Mateo é um veterinário de uma pequena cidade mexicana. Desde a morte do seu filho, sua vida transcorre em meio a rotinas silenciosas e uma culpa que permanece sem nome. A violência da região não irrompe; ela paira, latente, como um eco constante.
Esse frágil equilíbrio é rompido quando Mateo é forçado a salvar Morro, o cachorro ferido do chefe do crime local. Ao cuidar diariamente do animal, uma conexão inesperada emerge – uma relação sem julgamentos ou palavras que o devolve, ainda que levemente, a uma sensação de presença. Em um ambiente onde tudo parece ser negociado pela força, esse gesto ganha um peso diferente: cuidar do outro torna-se o ato mais radical de todos.
A obra, vale lembrar, foi exibida na competição Novos Diretores do Festival de San Sebastián 2026. Agora, desembarca no Brasil para a seção de mesmo nome da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. E para falar mais sobre o longa, o Papo de Cinema conversou com Rodrigo García Saiz. A seguir, fique com um trecho em texto e, em seguida, com o bate-papo, na íntegra, em vídeo:

MORRO :: ENTREVISTA COM O DIRETOR RODRIGO GARCIA SAIZ
Ao falar sobre a origem do projeto, Rodrigo explica que queria tratar de um problema presente no México sem recorrer à representação explícita do sangue e da brutalidade. “Eu cresci no México, que é basicamente parecido com o Brasil. Temos muitas diferenças sociais, muitos problemas sociais, e estamos lutando muito com isso. Eu estava tentando falar um pouco sobre a violência, mas gostaria de fazer isso de uma perspectiva diferente, não contando uma história óbvia sobre sangue ou coisas assim, mas sobre o que aconteceu com as pessoas que decidiram continuar vivendo lá”.
A relação entre Mateo e Morro surgiu como o caminho para desenvolver essa abordagem. O diretor conta que a história foi inspirada por uma conexão especial entre um homem e um cachorro, que teria salvado sua vida ao receber uma bala durante um confronto ligado ao narcotráfico. A partir dessa situação, ele encontrou uma maneira de falar sobre esperança sem ignorar a realidade ao redor. “Nesse mundo em que estamos vivendo, que não é só o México, mas o mundo inteiro, com as guerras e todos esses monstros que estão controlando basicamente tudo, precisamos de mais empatia, mais amizade e mais conexão, como os animais conseguem ter com os humanos. Sempre sinto que os animais fazem de nós seres humanos melhores.”
O silêncio é outro elemento central de Morro. Em vez de explicar os sentimentos dos personagens por meio de diálogos, García Saiz procurou construir a relação entre eles com gestos, olhares e contato físico. “Desde o começo, uma das minhas ideias como diretor foi tentar fazer um filme realmente silencioso, usando as ferramentas que o cinema me oferece. Eu queria uma abordagem mais observacional. Estava quase obcecado com a ideia de ter um cachorro que não fosse treinado, então precisávamos dar espaço para que eles se conectassem e pudéssemos capturar isso”.
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