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Sinopse
Em Ruas da Glória, Gabriel se muda para o Rio e fica obcecado por Adriano, um garoto de programa, depois de sofrer uma grande perda. Quando Adriano desaparece, Gabriel inicia uma jornada de investigação até se tornar ele mesmo um acompanhante. Isso quase lhe custa a vida. Drama.
Crítica
Não são poucos os casos de quem acredita que o primeiro passo para uma mudança interna está na transformação do ambiente externo. Ou seja, como se uma troca geográfica fosse suficiente para garantir sucesso no que se propõe a alterar no seu âmago. É quase como uma distração: para não lidar diretamente com o problema, foca-se naquilo alheio – o cenário, o lugar onde se mora, a cidade em que se encontra – até reunir forças para, enfim, enfrentar o que de fato urge por ser tratado. Eis o dilema enfrentado por Gabriel, o protagonista de Ruas da Gloria, segundo longa-metragem do diretor e roteirista carioca Felipe Sholl (Fala Comigo, 2016). O cineasta segue disposto a não desviar de temas polêmicos. Se antes abordou uma relação intergeracional, agora se debruça sobre um outro tipo de romance, com potencial para o debate, e ainda assim problemático. Seus personagens, como se percebe, precisam enfrentar o chamado do mundo e se colocar em mais de uma oportunidade à prova para, enfim, ver a si mesmos.

Gabriel está em luto. O coração lhe aperta, não tem a quem recorrer, e nesse momento de desespero, ao invés de buscar ajuda entre os seus, pessoas que, por um motivo ou outro, ele deixou de nelas confiar, opta por fugir, desaparecer, ir embora. E será no Rio de Janeiro, no bairro que dá título à trama, onde encontrará repouso e acolhimento. Ele será, portanto, o ‘estranho no ninho’, ou seja, aquele que não faz parte do conjunto e, a partir de sua introdução, provocará ruído. Acompanhar tais modificações, tanto fora – pelos lugares que passará a transitar – como também em si – o quanto tais interações o afetarão enquanto pessoa – será o desafio proposto ao espectador. Afinal, se por um lado não há muita originalidade no trajeto sugerido – a descoberta do amor, o questionamento pessoal e valoração de autoestima, e falta que provocará (ou não) nos demais – há também imensa identificação, pois quem nunca se viu antes em situações similares?
O reconhecimento, enfim, é a chave para o entendimento – e aproximação. Pois Gabriel não ficará sozinho por muito tempo. Logo na primeira noite, seus olhos irão se cruzar com os de Adriano, e ficará claro surgir entre eles algo mais do que mera atração física. O que rapidamente se estabelece é, sim, desejo, mas cobiça, mergulho, desaparecimento um no outro também. Com um diferencial: o que recém chegou ainda está cru, é ingênuo e desconhece o que lhe espera. Já o outro é o vivido, que muito experimentou e aprendeu. No momento de crise, para o segundo será apenas mais um dia de uma vida dura e cruel que há tempos vem enfrentando. Já o protagonista sentirá seu chão desaparecer. Eis, portanto, a jornada de desapego para que se possa vir a ser outro. É preciso tropeçar, cair e sofrer para, também, aprender com estes erros.
A visão desenhada por Sholl não deixa de ter bases sólidas na realidade, por mais que seja, evidentemente, limitada. O que lhe interessa são apenas esses dois personagens, e todos os demais são figurantes em um drama maior, coadjuvantes do romance dos outros. É fácil problematizar – ainda que quase incontornável – o fato daqueles à frente dos acontecimentos serem dois rapazes loiros, brancos e na plenitude de suas formas físicas – os padrões, portanto – enquanto que a diversidade (étnica, estética, sexual) fica restrita ao pano de fundo, apenas compondo o cenário como não mais do que decoração. Sobre esses, importante destacar a presença de Diva Menner, a única a conseguir se destacar dentre o pouco que lhe é oferecido, visto o poder da imagem que carrega.

Caio Macedo e Alejandro Claveaux atingem pontos altos em suas carreiras enquanto Gabriel e Adriano. O desprendimento de ambos nas cenas de sexo mostram o comprometimento com a trama e a disposição em fazer de seus personagens mais do que meras figuras, mas seres contraditórios, inesperados e de reações complexas. Se o comportamento de Gabriel, da queda ao recomeço, por vezes soa quase infantil, também aponta para um Caio que vai além dessa superfície. Assim como a energia e a desilusão que Claveaux empresta à Adriano o tornam tão atraente quanto perigoso. A toxidade – termo bastante em voga – está presente, tanto como alerta, quanto elemento de sedução. Aproximar-se a ponto de se queimar, identificar o alerta e levantar a cabeça para seguir em frente faz desse um caminho árduo, mas necessário. Ruas da Glória poderia ser mais radical em sua premissa, mais ousado no desenho que percorre e mais incômodo frente aos elementos que agrega. Mas, se assim fosse, outro filme seria. E o que se apresenta, ainda que longe de ser perfeito, encontra eco nos tipos que reúne, tão perdidos quanto desesperados por se encontrar. Um filme falho, e talvez por isso mesmo, digno de atenção.
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