Todo Mundo em Pânico

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Sinopse

Em Todo Mundo em Pânico, mais de duas décadas após enfrentarem um assassino mascarado, Shorty, Ray, Cindy e Brenda voltam a ser alvo de uma nova sequência de ataques. Ao mesmo tempo, a trama parodia diferentes franquias de terror enquanto o grupo tenta sobreviver a mais uma onda de situações absurdas. Comédia/Horror.

Crítica

Os bastidores desse Todo Mundo em Pânico são, certamente, mais interessantes do que a tentativa de trama exibida na tela. Afinal, este é um filme-besteirol, uma sátira de outras produções, que só existe a partir dos demais, sem possuir ímpeto próprio. Para quem não tiver assistido aos títulos apontados – enfim, não entender as referências – tais esforços não farão muito sentido. Porém, os imbróglios ocorridos entre os realizadores, esses sim compõem os elementos necessários a uma novela de grande dramaticidade, imprevisíveis reviravoltas e resoluções tiradas do fundo da cartola. Assim, se há algo de válido nesse imenso pastiche é mais o uso da metalinguagem, presente desde a sequência de abertura, e menos o amontoado de ideias que atiram para muitos lados, acertando com efeitos poucos destes alvos.

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Para começo de conversa, o batismo Todo Mundo em Pânico, sem numeral ao término da determinação, se mostra equivocado – afinal, é fundamental ter assistido a alguns dos longas anteriores para que seja possível entender – ou ao menos ficar a par de – diversos dos esforços cômicos que pontuam a narrativa. Na verdade, esse é o sexto longa da saga, porém como houve um rompimento a partir do terceiro capítulo, esta é de fato o “a nova parte 3”, e não um “recomeço do zero”, como os distribuidores estão afirmando. Os Wayans – Marlon, o que possui a maior carreira como ator; Shawn, que desde Ela Dança com Meu Ganso (2009), ou seja, há quase duas décadas, não aparecia em frente às câmeras; Damon Jr., filho do protagonista da sitcom Eu, A Patroa e as Crianças (2000-2005); Craig, produtor e roteirista; Keenan Ivory, co-roteirista; além de Kim e Gregg, que também marcam presença no elenco – são tantos que chegam até a virar piada na fala de um personagem. Estão todos de volta – e como fazem diferença!

Sim, pois com o sucesso dos dois primeiros filmes – Todo Mundo em Pânico (2000) e Todo Mundo em Pânico 2 (2001) – a Miramax, estúdio responsável por estes lançamentos, acreditou ter uma marca capaz de sobreviver por conta própria, ignorando que o impacto provocado vinha dos seus realizadores – os Wayans, portanto – e não de uma fórmula capaz de ser reproduzida por qualquer um. Assim, os idealizadores do projeto foram demitidos e substituídos por David Zucker, cineasta que fez história com o pioneiro Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (1980), lançado duas décadas antes. Todo esse tempo pesou no seu fazer cinematográfico, e apenas repetir velhos maneirismos se mostrou insuficiente, além de antiquado. Assim foi nessa e nas sequências seguintes, de 2006 e de 2013. Com resultados cada vez piores, a franquia foi dada como morta e enterrada. Mas, mais uma vez, nada como um dia após o outro. Anos se passaram, e a dança de cadeiras aconteceu, os que ditavam as regras foram substituídos e o cenário foi alterado. Os Wayans, antes vistos como descartáveis, voltaram a representar a solução pela qual ninguém mais contava.

Este é, portanto, o terceiro Todo Mundo em Pânico de Marlon, Shawn, Damon Jr, Kim e o resto da família. E não apenas eles: Anna Faris, Regina Hall, Jon Abrahams, Cheri Oteri, Lochlyn Munro, Chris Elliott e Dave Sheridan, entre tantos outros, também retornaram. Mas como a proposta é usar como base outra saga de sucesso – Pânico, que também tinha sido vista como encerrada na primeira década dos anos 2000 e retornou com novo fôlego já nos anos 2020 – há também um conceito de “passagem de bastão” a ser perseguido. Sara (Olivia Rose Keegan, de Deu Match: A Rainha dos Apps de Namoro, 2025) e Tuesday (Savannah Lee Nassif, de Dance Rivals, 2024, fazendo as vezes da Wandinha – Wednesday, no original – da Família Addams e renovada com a série homônima) são filhas de Cindy (personagem de Faris), e a partir do momento em que um assassino mascarado passa a persegui-las, a família Campbell terá que mais uma vez se reunir, tanto para somar forças, como também para descobrir se o vilão está mesmo atrás dessa “nova geração”, ou por outro lado, está apenas as usando como meio de chegar às suas “antigas inimigas”.

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Esse fiapo de argumento é somente uma desculpa para uma série de deboches tendo como ponto de partida outros projetos recentes. Porém, para cada acerto em cima de John Wick (“nem vou mencionar Bailarina pois esta porcaria ninguém foi ver”), Guerreiras do K-Pop (2025) – o melhor trecho de toda a narrativa – ou Pecadores (2025), que de fato provocam algum riso, por mais tímido que seja, há dezenas de outras abordagens mal conduzidas, como as feitas em cima de Corra (2017) ou mesmo com o ainda em cartaz Michael (2026), que parecem tão improvisadas e deslocadas do conjunto que nem mesmo um esboço no sentido de se encaixar com o resto da história existe. Mais do que tudo, os tempos mudaram, e se é preciso entender que o projeto como todo não funciona junto àqueles que não trouxerem consigo uma bagagem prévia – e mesmo entre estes o alcance é limitado – há uma sacada final que, a despeito de tanta sensação de desperdício, uma verdade se confirma como fato: em meio à tanta renovação, a experiência é que faz, mesmo, a diferença. Tanto atrás das câmeras, como a própria existência desse Todo Mundo em Pânico faz jus, como também na ficção, que existe para reiterar uma regra válida, mas por tantas vezes esquecida – ou mesmo ignorada.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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