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Sinopse

Guillaume Canet, 42 anos e realizado na vida, tem tudo para ser feliz. Numa filmagem, uma linda atriz de 20 anos vai terminar com seu entusiasmo ao dizer a ele que não é mais tão “Rock”, e que, inclusive, nunca foi e, para acabar de vez com ele, que caiu muito na “lista” dos atores mais desejados. Sua vida familiar com Marion, seu filho, sua casa de campo, seus cavalos, seus cabelos, dão a ele uma imagem cafona e que não é mais exatamente sexy.

Crítica

Para o público francês, Guillaume Canet e Marion Cotillard formam uma dupla como Lázaro Ramos e Taís Araújo no Brasil, ou como foram Tom Cruise e Nicole Kidman ou Brad Pitt e Angelina Jolie, quando casados, nos Estados Unidos. Porém, com uma importante diferença: eles não são igualmente famosos, e muito menos ele é o mais reconhecido. Pelo contrário, pois é ela, a atriz vencedora do Oscar, do Globo de Ouro, do Bafta e de dois César a mais popular. Por isso, um filme como Rock’n’Roll: Por Trás da Fama, escrito e dirigido por ele e estrelado por ambos como versões de si mesmos, até desperta um grau de curiosidade a respeito, mas só deve funcionar mesmo – e isso nas poucas vezes em que é feliz no seu tom de sátira – entre os já iniciados, aqueles que desfrutam de um conhecimento prévio a respeito dos dois astros franceses. Para os demais, é difícil imaginar que esta improvável comédia auto referencial encontre algum tipo de ressonância.

Durante uma entrevista no set de filmagens do seu novo filme, em que interpreta um pastor que é pai de uma jovem garota, Canet fica estarrecido ao descobrir, tanto pela repórter como por sua colega de elenco, de que ele não é mais tão “rock” como imaginava ser. “Hoje você está casado, tem filhos, hora certa para chegar em casa. Não tem mais aquela atitude rock’n’roll”, lhe dizem sem muitos rodeios. Com apenas 42 anos, um filho pequeno e vivendo com a namorada (Marion), ele ainda se via como um galã, um tipo desejável por quem o assiste. Perceber que já existe uma nova geração de rapazes neste lugar, e que agora é a sua vez de interpretar o pai, o sogro, o mais sábio – o mais velho, portanto – não é algo que parece disposto a aceitar tranquilamente. E assim começa seu conflito.

Como se vê, trata-se da história de um homem diante da crise dos 40 anos – a ‘hora do lobo’, como diz o ditado. A narrativa busca sua comicidade em cada um destas situações-limite a que o protagonista é confrontado – como a visita ao urologista para o exame de próstata, por exemplo. E se muitos destes problemas são clássicos, outros são reflexos dos tempos atuais, como o exagero de drogas e bebidas em uma noitada que irá repercutir em vídeos feitos pelos fãs e postados na internet. A questão, no entendo, está em saber até que ponto se pode ir com esse tipo de discurso crítico sem fazer dele um mero denuncismo enfadonho e repetitivo. Canet, no entanto, deixa claro não estar preocupado com estas fronteiras, ultrapassando-as até perdê-las de vista. É um bom sinal perceber o quanto ele não se leva a sério e o quanto o casal e seus amigos parecem dispostos a rir de si próprios. Porém, com mais de duas horas de duração, o filme que poderia surgir a partir de uma boa e oportuna piada revela-se cansativo e exagerado.

Os melhores momentos, obviamente, são aqueles reservados aos dois protagonistas. Vê-la comemorando ter sido convidada para filmar com o cineasta canadense Xavier Dolan – e ser obrigada a treinar o sotaque de Quebec – ou os dois tendo que lidar com a cerimônia de entrega do César, na qual ambos foram indicados e apenas ela é premiada, gera boas risadas pela falsa simulação de estarmos diante de algo crível, ainda que obviamente artificial (na vida real, ela chegou mesmo a filmar com Dolan, mas não no papel principal, enquanto que no ano em que ambos concorreram juntos ao maior prêmio do cinema francês, os dois perderam). É artificial, é ensaiado, é ficção, portanto. Mas não deixa de ser convincente. Ao contrário das demais crises dele, solitárias ou ao lado de nomes como o melhor amigo Gilles Lellouche, o hollywoodiano Ben Foster ou o cantor Johnny Hallyday. São presenças que servem para oferecer um caráter episódico à trama, porém pouco contribuem ao seu desenvolvimento.

Se Rock’n’Roll começa como uma comédia instigante, num segundo momento ela se revela mais do que isso, buscando através de um riso constrangido algum tipo de reflexão sobre as exigências da popularidade e do mundo da fama. No entanto, é no seu terceiro ato que as coisas perdem, definitivamente, o controle. Canet assume seu egocentrismo deixando de lado praticamente todos os colegas de elenco – inclusive Cottilard, que volta apenas no final para, literalmente, roubar a cena como uma versão morena de Pamela Anderson em Baywatch (1989) – e concentrando-se apenas em sua transformação. O personagem muda tanto – e não apenas psicologicamente, mas também fisicamente, através de maquiagens e truques de cena – que se torna literalmente irreconhecível. Assim como seu filme, que prometia muito, porém acaba refém de si mesmo, como um arremedo de algo que poderia ter ido além, mas contentou-se com o mero pastiche. E quando essa conclusão de confirma irreversível, nem mesmo Marion Cotillard dublando Celine Dion é suficiente para salvar a sessão.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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