Crítica


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Sinopse

Rob Anderson definitivamente detesta responsabilidades. Evitando ao máximo os deveres da vida adulta, ela está desesperado com a possibilidade de se casar. E sua desregrada vida lhe reservou uma surpresa trágica: ele acorda misteriosamente pelado no dia de seu casamento, dentro do elevador de um hotel.

Crítica

Um homem acorda nu dentro de um elevador do outro lado da cidade, no dia de seu casamento, faltando uma hora para estourar o prazo aos votos. Não fosse o suficiente, quando os sinos da igreja tocam, anunciando o fim dos sessenta minutos, ele volta no tempo involuntariamente, sendo jogado novamente pelado dentro do elevador do início. Ora, com uma trama dessas, mesmo se utilizando da estrutura hoje já batida de Feitiço do Tempo (1993), Nu poderia ser um filme divertido e interessante – relembrando as velhas e sábias palavras de Roger Ebert: “não importa sobre o que é, mais sim como é sobre o que é.” Bem, Roger que perdoe a citação para falar a respeito de algo tão inócuo quanto esta produção. Pois, o longa estrelado por Marlon Wayans vem empacotado numa embalagem tão clichê de comédias românticas, que nem mesmo elas ainda a utilizam.

Não para menos, o projeto é dirigido por Michael Tiddes que, junto a Wayans e ao roteirista Rick Alvarez, já havia cometido Inatividade Paranormal (2013) e Inatividade Paranormal  2 (2014), e ainda Cinquenta Tons de Preto (2016). Sem um pingo de personalidade, o diretor parece seguir uma cartilha à risca. Aliás, parece não, com certeza segue, já que mesmo quando seria instintivo para qualquer realizador brincar com a montagem (nos momentos em que o protagonista tenta a mesma tarefa de diversos modos diferentes, por exemplo), se entrega a piadas sem imaginação, como Rob (Wayans) surgindo em trajes diferentes na frente da igreja, até acertar o mais apropriado. Não que o texto ajude. Alvarez é especialmente "hábil" criando figuras que já vimos em outras centenas de títulos: o sogro bem-sucedido que não gosta do genro, a melhor amiga mal-humorada, o melhor amigo desbocado, a noiva compreensiva e o ex-namorado metido e egocêntrico.

Aliás, as funções dos personagens são tão desnudas (hã?) que o pequeno mistério sobre quem drogou Rob e o colocou nu no elevador surge tolo desde o início, porque, apesar de todos possuírem motivos para tal, fica claro quem o roteiro quer condenar moralmente – quando você inevitavelmente descobrir quem é, vai perceber o quão alarmantemente retrógradas são também as noções políticas do filme. O que se reflete na “visibilidade” que determinados projetos pensam estar dando a atores negros, já que preenchem seu elenco com esses artistas só para fazê-los viver estereótipos da minoria.

Além disso, Nu se sabota o tempo inteiro, criando situações embaraçosas para o protagonista em “realidades”, nós sabemos, que está prestes a abandonar, o que fará com que apenas ele se lembre dos constrangimentos – retirando então do espectador a consequencialidade que o faria rir ou temer por Rob. Da mesma maneira, embora somente o noivo tenha ciência das múltiplas vezes que vive as situações, não é incomum que Alvarez coloque os personagens em situações diferentes daquelas em que os encontramos antes, além de tornar completamente implausível que certos planos do herói se concretizem em uma hora, demonstrando total falta de controle sobre os elementos de um universo de figuras que nem é tão complexo assim.

Talvez fosse mais divertido passar a hora e meia de filme atrelado a qualquer outro personagem, a não ser Rob, que, na pele de Wayans, soa apenas aborrecido. De repente, um ator que não confundisse expressão corporal com careta já daria cara nova ao projeto, que, diga-se, possui uma boa ideia base – completamente desperdiçada. E não deixa de ser irônico que num filme chamado Nu, faltam justamente alguns acessórios simples para tornar o corpo mais coerente e interessante.

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é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.
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