Nino de Sexta a Segunda

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Sinopse

Em Nino de Sexta à Segunda, um jovem precisa cumprir duas tarefas definidas por seus médicos ao longo de três dias decisivos. Durante esse percurso por Paris, ele enfrenta desafios pessoais e se vê levado a retomar conexões com o mundo ao seu redor e consigo mesmo. Drama.

Crítica

A alusão que o título faz a um clássico consta apenas na adaptação para o Brasil, mas até que faz (um pouco de) sentido. Nino de Sexta a Segunda acompanha o protagonista durante o seu percurso de surpresa, revolta, frustração e, por fim, aceitação de uma notícia capaz de mudar o curso de sua própria vida ao longo de um fim de semana. Se em Cléo das 5 às 7 (1962) o espectador era convidado a se manter ao lado da personagem-título enquanto essa aguardava pelos resultados de um exame médico, no filme escrito e dirigido por Pauline Loquès o que se descobre é o que acontece após o recebimento de tal avaliação feita por um profissional da saúde. Assim como Cléo, Nino também está com câncer. Ambos muito jovens, com uma vida inteira pela frente. Porém, essa versão 2025 está menos interessada no recebimento da confirmação de uma suspeita, e mais no que se faz a partir desta ciência. Uma vez a par de sua condição, como esse rapaz irá reagir? Irá mudar seu comportamento? Com quem dividirá a informação? E por fim, em até que ponto o espectador poderá fazer parte desse processo? Dúvidas que não se resolvem ao curso de alguns poucos dias, mas que aqui encontram espaço não apenas para se manifestarem, mas para também para almejarem um ponto de equilíbrio.

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Essa sensação – veja bem, é apenas um sentimento, e não algo concreto – de estabilidade acompanha Nino pela maior parte do tempo. Théodore Pellerin reduz ao mínimo suas reações, evitando exageros e propensões ao teatral. O que entrega diz respeito a um desdobramento íntimo, tão pessoal quanto a verdade que agora este homem carrega em si. Nino é filho, já foi namorado, pode vir a ser amante, é o melhor amigo de um e o vizinho inesperado de outra. Como qualquer outra pessoa no planeta, apresenta ao mundo diversas facetas, cada uma de acordo com a situação em que se encontra. A partir desse dia, no entanto, terá mais uma com a qual lidar: a de doente. O espanto inicial rapidamente se transforma numa fuga do termo vítima. Não quer se ver como alguém que irá sofrer, e pensa ser capaz de controlar isso em relação aos demais.

Busca, como todo menino perdido, o colo da mãe. Ao mesmo tempo, anseia por preservar a inocência de uma infância distante de perigos. No que depender dele, dessa forma as coisas seguirão. Mas a questão é justamente essa: não cabe mais apenas a ele decidir. Caminhando pelas ruas de Paris, Nino e Théodore se transformam em apenas um, como se ficção e realidade estivessem de mãos dadas. O ator se mostra tão comprometido com o personagem que desaparece por trás de uma resiliência que custa a se manifestar, mas quando presente, passará a ocupar seu semblante até mais não conseguir disfarçar. Pois eis algo do qual não conseguirá evitar: uma hora todas essas máscaras e defesas que num instante abraçou de uma hora para outra de mais nada servirão. Tudo virá abaixo. E precisará descobrir como ir adiante, não mais sozinho, mas cercado por aqueles que, de fato, com ele confirmarão uma estima. Na saúde e na doença, não é assim que dizem?

Pellerin é um intérprete silencioso, como já visto em longas como Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre (2020) ou É Apenas o Fim do Mundo (2016). Destas pequenas – porém marcantes – participações ao longo de uma carreira tão prematura, quanto consistente, passa a ocupar o centro das atenções com Nino de Sexta a Segunda, renovando uma curiosidade a respeito do seus atos, mas mais do que esses, de suas emoções. Sabe-se que em algum momento a represa irá transbordar e não mais será capaz de reter o tanto que com ele se passa. Quem estará ao seu lado é menos o tipo de ocasião – pode ser qualquer um, dos mais próximos a um mero desconhecido – e mais aquele que o observa: o espectador, o mais constante companheiro de uma caminhada de dor, transmutada em angústia, mas também de calculada consequência. Loquès, que estreia com essa obra no formato mais extenso, desenvolve sem atropelamentos uma jornada própria, mas de abrangência universal. O encontro dos dois – cineasta e intérprete – é particularmente feliz nesse ponto.

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Não há resposta a ser dada a uma pergunta que nem mesmo consegue ser formulada. O que fazer a seguir permanecerá com Nino por muito tempo, e no decorrer desses dias esse será o seu maior aprendizado – assim como também da audiência, que verá crescer seu interesse por ele, e não tanto pelo que faz ou deixa de fazer. Estará na pessoa, naquela figura complexa e agora sabiamente falha – algo o consome por dentro – o anseio de se resolver, se reencontrar e oferecer um exemplo não a alguém em particular, mas para si mesmo de que, sim, é possível sorrir mesmo diante da pior desgraça. Nino de Sexta a Segunda começa com um choque e chega ao fim próximo da contemplação, mas não passiva. Por outro lado, a força que enfim dá vazão é aquela capaz de transformar e progredir. Um passo de cada vez, absolutamente simples e banal, mas totalmente diferente do instante anterior.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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