Moana

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Sinopse

Em Moana, a destemida garota atende ao chamado do oceano quando uma misteriosa praga ameaça sua ilha na antiga Polinésia. Para salvar seu povo, ela parte em uma jornada pelos mares em busca do lendário semideus Maui. Juntos, os dois enfrentam criaturas míticas e perigosos desafios para devolver o coração da deusa Te Fiti e restaurar o equilíbrio da natureza. Aventura.

Crítica

Não é difícil imaginar as razões para essa releitura “live action” (as aspas fazem sentido) de Moana: Um Mar de Aventuras (2016). No entanto, nenhum destes motivos são suficientes para justificar a existência de Moana (sim, agora sem o subtítulo), seja enquanto filme, manifestação artística, obra de entretenimento ou mesmo diversão passageira. O que se tem é não mais do que um produto, um objeto de consumo ligeiro e descartável, feito para não durar, seja em sua fruição – tão esquecível que não perdura nem mesmo até o término da sessão – ou ainda enquanto proposta. Como as duas animações – a sequência, Moana 2 (2024), foi lançada há meros dois anos – arrecadaram impressionantes US$ 1,7 bilhão (ou quase isso) nas bilheterias ao redor do mundo, e o estúdio responsável (a Disney, quem mais?) tem vivido de reciclar antigas propriedades intelectuais, sem propor nada de novo, era fato que seguiria explorando tal fonte. Pois bem, eis aqui a última gota – que, espera-se, tenha secado. Mas se os dólares seguirem entrando, pode apostar que a drenagem irá continuar de um jeito, ou de outro.

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Muitos verão na história dessa menina, filha do chefe da tribo e criada desde pequena para sucedê-lo no comando de seu povo, tendo que ir contra as orientações paternas para partir numa aventura mar adentro, domar uma lenda e por fim a uma maldição pois, somente assim, conseguirá salvar a população da ilha onde nasceu e que tanto ama, um exemplo de empoderamento feminino e emancipação de uma geração em relação às heranças familiares. É um conceito bonito, mas não chega a ser de todo verdadeiro – ou mesmo honesto com o que é mostrado em cena. Afinal, mais próximo do que é descrito seria identificar na protagonista uma criança criada sob pressão paterna para reproduzir apenas o que este espera dela, sem direito a ter aspirações próprias. Pior ainda é vê-la proibida de ir além dos olhos deste, quase que numa condição análoga a um cárcere limitado. Não causa estranhamento, portanto, sua rebeldia e vontade de confrontar tudo aquilo que lhe foi ensinado desde pequena.

A única a ouvi-la, e também incitá-la rumo à revolta, é a avó, não por acaso vista como “a maluca da aldeia”. Não irá demorar para que se identifique na anciã a que tem razão dentre tantos outros que simplesmente se calam, como a mãe, que até percebe os abusos do marido, mas nada faz para confrontá-lo. Quando já longe do controle familiar, Moana tem somente uma missão a cumprir: obrigar o semideus Maui a devolver o coração que roubou de Te Fiti, a deusa da criação e a vida, responsável por ter dado origem às ilhas da Polinésia. O malandro falastrão, antes visto como um larápio com segundas intenções, logo revela ter um bom coração – veja só que surpresa (contém ironia)! – e, juntos, os dois terão ainda que vencer um perigoso oponente: o demônio do fogo Te Kã, que estará no caminho deles, determinado a impedi-los a chegar até Te Fiti.

Como se vê, a linha narrativa não possui muitas voltas. É uma linha reta, a ser percorrida sem longos desvios. E esses, quando acontecem, são não mais do que meras distrações. Do convencimento de Maui, que no início resiste a atender aos pedidos de Moana, até os enfrentamentos contra os Kakamora (os piratas diminutos com cara de coco) ou frente ao gigantesco – e bem-humorado – Tamatoa, um caranguejo obcecado por tesouros e coisas brilhantes, tudo é por demais atenuado, sem que a tensão se eleve além do aceitável (e esperado). São quase como diferentes etapas de um videogame, fases a serem superadas rumo à recompensa final. O que causa estranhamento é que essa impressão já existia nas animações. Ou seja, se era para apenas repetir o original – inclusive nas canções, diga-se de passagem – qual o sentido de todo esse carnaval?

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A resposta é uma só: fazer dinheiro. E, com isso, manter em alta uma marca que seguirá sendo exaurida até a exaustão. Moana se mostra pálido em comparação aos dois longas animados (que já não eram grande coisa, aliás) e se confirma como um esforço que, no âmbito criativo, existe para atender apenas aos egos de Dwayne Johnson (que retorna como Maui, porém já envelhecido – afinal, uma década se passou desde que dublou o personagem pela primeira vez – e deslocado, seja pela peruca que parece estar prestes a ser arrancada, ou pelo físico potencializado pelos efeitos digitais) e de Lin-Manuel Miranda (que perdeu o Oscar pela canção “How Far I’ll Go”, e agora tenta de novo com a inédita “Along the Way”, inserida de última hora durante os créditos finais). No mais, o exagero nas inserções digitais – a sensação é que tudo foi filmado em fundo verde, em estúdio, pois nada é de fato “real”, o que provoca questionamentos até mesmo quanto ao uso do termo “live action” para o conjunto, uma vez que apenas os atores parecem ser verdadeiros (ao menos por enquanto) – termina por tornar a experiência ainda mais árdua e desnecessária. E sem nada a acrescentar, nem mesmo em deslumbre estético, eis um filme natimorto, que em sua concepção já se mostrava falho, e o que apresenta apenas confirma tal expectativa.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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