Enola Holmes 3

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Sinopse

Em Enola Holmes 3, a jovem detetive viaja para Malta em busca de uma nova aventura, mas seus planos mudam completamente quando seu irmão, Sherlock Holmes, desaparece misteriosamente. Envolvida em um caso repleto de enigmas e perigos, a garota precisará usar toda a sua inteligência para desvendar o mistério. Aventura.

Crítica

Chega a causar espanto o quanto o mundo mudou em menos de uma década. A realidade de 2026 é diferente daquela de apenas seis anos atrás, quando Enola Holmes (2020) foi lançado – não nos cinemas, mas direto em uma plataforma de streaming. Números de bilheteria, portanto, até para critério de comparação, não existiram. Mas não há dúvidas de que a empreitada funcionou, pois em menos de dois anos a mesma estrutura trouxe ao público Enola Holmes 2 (2022), que pode até não ter causado o mesmo impacto, mas ainda assim teve ótima performance, mantendo o nome de Millie Bobby Brown em alta. A pandemia do Covid-19 ficou para trás – algo que definitivamente marcou a recepção dos dois primeiros títulos, pois havia muito mais gente confinada em suas casas – e esse Enola Holmes 3 estreia com as audiências ainda indecisas entre as salas de cinema e o conforto de seus lares, sem o fenômeno da série Stranger Things (2016-2025) para impulsionar o público e com uma estrela que não é mais criança, nem mesmo adolescente: trata-se de uma jovem em vias do seu próprio casamento. Todas essas mudanças possuem um preço, e nem mesmo o jogo de cadeiras nos bastidores foi suficiente para evitar uma sensação de desgaste.

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Apesar de Sam Claflin ter abandonado o elenco logo após o primeiro filme, outros nomes de destaque, como Henry Cavill, Helena Bonham Carter e Himesh Patel, estão de volta. No entanto, talvez até mais do que nos dois episódios anteriores, Enola Holmes 3 é o que mais depende do desempenho da protagonista. Afinal, sua missão dessa vez será justamente descobrir o paradeiro do irmão (ninguém menos do que Sherlock Holmes, interpretado de modo engessado por Cavill), que foi sequestrado às vésperas do casamento dela. A mãe dos dois, Eudoria (Bonham Carter, recuperando a persona tresloucada que lhe cai bem), só vai dar as caras lá pela metade dos acontecimentos, enquanto que Patel, como o irredutível doutor Watson, colabora com o que pode, sem interferir além da conta em tudo que está a se desenrolar. E se o centro das atenções nessa história de detetives teve seu gênero deslocado do costumeiro personagem masculino para sua irmã mais nova, o mesmo se deu com o vilão da vez: Moriarty, portanto, passa a ser uma mulher, injetando energia por meio da interpretação vigorosa de Sharon Duncan-Brewster (Duna, 2021), a única a de fato elevar os ânimos em cena.

Mas o que levou Sherlock ser sequestrado e o que Moriarty tem a ver com isso? Ao contrário dos dois primeiros filmes, que se tratavam de adaptações diretas de romances da série literária escrita por Nancy Springer – que já conta com dez volumes até o momento, e contando – Enola Holmes 3 é uma história original, que apenas faz uso da personagem em um novo contexto. Isso se deve não só pelo fato da estrela principal ter crescido (nos livros ela segue sendo uma adolescente), como também pela mudança no comando artístico da produção. Foi deixado de lado Harry Bradbeer (vencedor do Emmy por Fleabag, 2016-2019), e quem assumiu a direção foi Philip Barantini (premiado no Emmy, no Bafta, no Gotham e no Spirit com Adolescência, 2025). Como se vê, a assinatura segue de um peso pesado da televisão. No entanto, por mais que o roteirista siga o mesmo – Jack Thorne, além de ter escrito toda a trilogia, também foi multipremiado pela minissérie Adolescência (2025) – poderia se esperar por um maior entrosamento entre direção e roteiro, o que não acaba acontecendo. Pelo contrário, aliás.

E qual o motivo disso? Se por um lado se abusa da quebra da quarta parede, com a personagem-título se dirigindo diretamente à câmera e conversando com os espectadores a cada um dos seus movimentos, por outro caminho tudo termina por ser demais pontuado, explicado e nada aprofundado – afinal, a repetição é tamanha, além de uma didática quase infantil, que até mesmo o mais desatento entenderá em linhas gerais o que está se passando. Eis, enfim, uma típica obra do seu tempo, destinada a competir com o uso de uma segunda – ou até mesmo terceira – tela, por meio de uma experiência na qual a concentração é uma moeda de troca com cada vez menos valia, pois o que importa é apenas seguir em frente, enfileirando uma atração atrás da outra sem muita ligação entre elas, com foco apenas em manter o canal ativo. Millie Bobby Brown, desprovida do carisma infantil que lhe era natural, se mostra uma adulta vítima de todas essas restrições. Ela não está desconfortável, nem mesmo inadequada. Porém, o que antes lhe era espontâneo, agora resulta em cada movimento seu sendo milimetricamente calculado. Um produto, tanto ela, quanto o filme, pensado para ser consumido e em seguida descartado. Que venha o próximo!

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Mas nem tudo é irrelevante. Se a identidade de Barantini, tão marcante em sua obra anterior, desapareceu por completo, e a figura central está apenas concentrada em não perder suas marcas dentro de uma coreografia idealizada para ser reproduzida à exaustão, Thorne consegue dotar seu discurso de um viés minimamente revolucionário, porém intrigante. A ambientação do eventos aqui vistos se dá na diminuta ilha de Malta, e há momentos que resgatam o passado colonialista dos britânicos, a necessidade de independência daqueles que raramente são ouvidos e o desmonte sistematizado das colônias, que perderam suas riquezas naturais por meio de saques e expropriações e que hoje dependem de uma situação de quase mendicância. Os paralelos com a realidade são muitos, mas somente os atentos perceberão. Enola Holmes 3 não tem como objetivo mudar o mundo. Por mais que esse siga em constante transformação.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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CríticoNota
Robledo Milani
5
Leonardo Ribeiro
4
MÉDIA
4.5

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