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Em Natal Amargo, duas histórias se desenvolvem entre Madri e as Ilhas Canárias, acompanhando personagens que enfrentam crises pessoais em meio aos festejos de final de ano. Enquanto Elsa lida com o luto pela morte da mãe e se afasta da rotina ao viajar, o cineasta Raúl enfrenta dificuldades para distinguir realidade e ficção, conectando trajetórias marcadas por instabilidade emocional. Drama.
Crítica
Um homem atrás de sua própria arte. Uma mulher em busca da sua verdade. Quem é real, e quem faz parte da ficção? Essa é a dúvida que percorre grande parte da narrativa de Natal Amargo, filme escrito e dirigido pelo espanhol Pedro Almodóvar – e talvez o último a ser lançado por meio dessa lógica. Afinal, após construir uma carreira sendo responsável pela escrita original de seus trabalhos, ele recentemente começou a adaptar obras de outros – como fez no curta A Voz Humana (2020) e no longa O Quarto ao Lado (2024). Agora, tem declarado estar pronto para conduzir textos redigidos por outros, sem sua influência na redação. É como se estivesse afirmando que “o que tinha a dizer, já disse. A partir de agora, emprestarei minha visão às ideias de terceiros com as quais me sinta de alguma forma alinhado”.

Se essa intenção se confirmar, este será o seu ‘canto do cisne’, o adeus a uma autoria completa, do início ao fim do processo. E faz sentido, pois em Natal Amargo é possível identificar muitos dos elementos, temas e parceiros que pontuaram a filmografia de Almodóvar desde o início dos anos 1970 e que hoje soma mais de quatro dezenas de projetos entre os mais diversos formatos. É como se tivesse escolhido, deliberadamente, voltar seu olhar a si mesmo, reviver muitas das suas angústias e compulsões, e remodelá-las para novas audiências – e antigos admiradores. Ao mesmo tempo em que oferece uma sensação familiar de estar mais uma vez em casa, há ainda o prazer da descoberta proporcionado por uma das mentes mais inquietas e geniais do cinema contemporâneo.
De partida, o espectador é convidado a adentrar na história de Elsa (Bárbara Lennie, que havia trabalhado com o diretor em A Pele que Habito, 2011), uma publicitária – e cineasta frustrada – que sofre de intensas dores de cabeça em meio às comemorações das festas de final de ano. Está fazendo um ano que a mãe dela morreu, e o sentimento de culpa por não ter estado ao lado da matriarca em seus minutos finais, devido ao trabalho com o qual estava ocupada, voltou com mais força do que nunca. Seu sofrimento só não é maior por ter ao seu lado Boni (um escultural Patrick Criado, de Bird Box: Barcelona, 2023, representando um piscar de olhos do Almodóvar de hoje ao seu eu do início da carreira), o namorado perfeito: atencioso e preocupado, ganha a vida como bombeiro, mas, em seu tempo livre, faz as vezes de stripper, atividade que o casal encara com tranquilidade – e até certa galhofa. No intuito de encontrar uma ideia que possa desenvolver em um novo filme, acaba negligenciando o companheiro, optando por passar mais tempo ao lado tanto da melhor amiga, Patricia (Victoria Luengo, que estava também no já citado O Quarto ao Lado), que ao perceber que está sendo usada opta por se afastar, e na ausência dessa, Natalia (Milena Smit, vista em Mães Paralelas, 2021), que pode lhe fornecer um argumento potencialmente mais interessante: perdeu o filho há pouco, e ainda está envolta pelo luto.
Os limites entre o que pode ou não ser adaptado como fantasia tem atormentado também outro diretor de cinema, no caso, Raúl Rossetti. Esse é interpretado por Leonardo Sbaraglia, cuja primeira parceria com Almodóvar se deu em Dor e Glória (2019). Aliás, Natal Amargo, sob esse aspecto, é quase uma continuação deste anterior, com o astro argentino amadurecendo tanto quanto aquele no comando dos acontecimentos: se antes aparecera como o amante mais jovem, agora ocupa a vez do artista envelhecido e em crise (papel que antes fora de Antonio Banderas). Após mais de duas décadas juntos, ele perdeu aquela que via como um ‘braço direito’ – a assistente vivida pela italiana Aitana Sánchez-Gijón, que também esteve em Mães Paralelas. Mas nem mesmo esse afastamento voluntário – da parte dela, que fique claro – será suficiente para que, em um bloqueio criativo, faça uso de um drama pessoal dela como argumento para o roteiro que está escrevendo. O conflito ético dele é por demais similar ao enfrentado por Elsa. A diferença é que ela só está passando por isso por culpa dele. Afinal, Raúl é o autor. E Elsa é a criação. É ela a protagonista da história a qual ele está se dedicando. E o que se passa com um, acaba por se refletir nos acontecimentos percorridos pela outra.

Como tantas vezes antes, Pedro Almodóvar faz uso de sua jornada pessoal como fonte dos elementos presentes em Natal Amargo. A ausência materna e a determinante relação entre mãe e filho, vista em títulos como alguns dos acima percorridos, mas também em Tudo Sobre Minha Mãe (1999), está mais uma vez sendo explorada como elo de ligação entre os personagens. Conflitos experimentados no hoje e no passado (Volver, 2006), a dualidade entre a angústia e a alegria da criação (A Flor do Meu Segredo, 1995), o cinema como referência constante (Abraços Partidos, 2009) e a identidade em transformação (Julieta, 2016) são outras das combinações que se unem em um emaranhado que dribla tanto as expectativas da audiência, quanto as esperanças de personagens perdidos uns nos outros, mas em permanente busca pelo próximo desafio que deverão se autoimpor.
Essa metalinguagem, do filme dentro do filme, é tanto uma inovação relativa, como também a maneira encontrada por um artista que, de tanto olhar para si, parece não mais saber a quem recorrer. “Você se deu conta que já falou antes sobre tudo isso?”, uma personagem pergunta a um dos autores, alter-ego do próprio realizador, que sem hesitar, mas com um tanto de injúria por ser pego naquilo que deveria ter sido melhor disfarçado, responde como num misto de desabafo e fúria: “mas não com a mesma ênfase de agora”. O dito é tanto uma confirmação, quanto um grito de desespero. E assim ele segue desenvolvendo uma colcha de retalhos como tantas vezes antes, mas reciclando tais influências e afetações sob uma ótica particular, que determina o carisma colocado em movimento, assim como a identidade que o torna único, e ao mesmo tempo, universal.

Talvez sem o mesmo desprendimento de alguns dos seus esforços anteriores, Natal Amargo se posiciona dentro da obra de Pedro Almodóvar como um relato pessoal, de tintas carregadas e mais uma vez disposto a investigar seus temores, arrependimentos e observações. As lágrimas não corridas, os sacrifícios por vezes minimizados, os relacionamentos condenados e os pequenos prazeres ignorados – momentos substituídos em nome da arte, tanto nas realizações mais íntimas, como nas obras que o tornaram mundialmente reconhecido. E mesmo assim, se revela disposto a compartilhar sua expressão: quando parece pronto para uma reviravolta há muito aguardada, decide simplesmente encerrar este conto de perda, apropriação e encantamento, permitindo que a audiência também desta trama se aproprie, ficando ela responsável por sua conclusão. Cada um a sua forma, mas unidos por uma provocação que aproxima, contamina e transforma. Abrir mão é também demonstração de coragem, eis um testemunho do menos que, como poucas vezes antes em seu universo, também agrega.
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