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A 21ª CineOP chegou ao fim na noite dessa terça, 30, encerrando seis dias de programação dedicados à preservação, à história e à educação no audiovisual brasileiro. Entre exibições, debates, encontros profissionais, atividades formativas e homenagens, o festival reafirmou sua vocação como um espaço de reflexão sobre o cinema para além das telas, valorizando sua memória, preservação e papel cultural.

Na cerimônia de encerramento, o público conheceu os vencedores da Mostra Competitiva. O principal prêmio da edição, o Troféu Vila Rica de Melhor Filme, foi entregue a Irritante Prodígio, primeiro longa-metragem da diretora catarinense Luiza Lindner. Construído a partir de imagens de arquivo da própria infância, registros produzidos ao longo dos anos e relatos em primeira pessoa, o documentário revisita experiências marcadas por internações, crises de saúde mental e pela tentativa de compreender essas memórias através do cinema.  Luiza conversou com o Papo de Cinema sobre a realização do filme, o processo criativo e os temas que atravessam a obra.

CINEOP 2026

CINEMA COMO FERRAMENTA DE ELABORAÇÃO

Ao recordar o início do projeto, Luiza conta que sempre soube que faria um filme sobre a própria história. Mais do que reconstruir lembranças, o documentário nasceu da necessidade de compreender sentimentos que a acompanharam desde a infância e que, ao longo dos anos, passaram a ser compartilhados em diferentes formatos.

Compartilhar com as pessoas sempre foi a minha saída para conseguir dar nome para o que eu sentia, para conseguir eu mesma reconhecer o que estava acontecendo. E ter essa resposta sempre foi realmente algo que eu cresci com, sabe? Não é nem algo totalmente novo para mim. No filme, é claro que acaba sendo ainda mais pesado e mais inteiro, porque eu me coloco ali de uma forma que eu não me coloquei nunca antes, compartilhando em blog ou em redes sociais. Mas eu gosto muito desse retorno. Para mim, é realmente o motivo para eu estar fazendo essa transformação dentro de mim.”

DEBATE QUE ATRAVESSA GERAÇÕES

Embora a discussão sobre saúde mental tenha ganhado maior visibilidade nos últimos anos, a diretora acredita que o tema sempre esteve presente. Para ela, o que mudou foi a maneira como essas experiências passaram a ser nomeadas e discutidas socialmente. A saúde mental é de sempre, né? Hoje em dia a gente vai vendo aumentar ansiedade, depressão, a gente começa a dar nome, tem um milhão de nomes, mas eu acho que elas representam principalmente o nosso lado mais sensível, aquilo que a gente sente realmente, que vem para o nosso corpo como dor.”

CineOP 2026. Foto: Leo Lara
CineOP 2026. Foto: Leo Lara

MARCAS DA INFÂNCIA

Durante a conversa, Luiza também falou sobre a dedicatória que encerra Irritante Prodígio. Segundo a cineasta, a frase sintetiza uma das principais reflexões do filme: as marcas deixadas pela infância não desaparecem com o tempo e continuam acompanhando muitas pessoas na vida adulta. A minha dedicatória final para o filme é justamente isso: ‘às infâncias interrompidas’, porque de fato as minhas crises começaram ali pelos meus 10 anos, e eu sinto que isso interrompeu totalmente a minha infância de uma forma muito brusca e impossível de eu assimilar naquela época. Mas também ‘aos adultos que sentem medo’, porque eu acho que esse medo nos acompanha, e a gente não fala sobre ele.”

Apesar de partir das lembranças de uma criança, Luiza acredita que o documentário estabelece um diálogo principalmente com o público adulto. Para ela, a obra propõe uma reflexão sobre a maneira como crianças expressam sofrimento e sobre como essas manifestações costumam ser percebidas por quem está ao redor. Inclusive eu acho que não é um filme muito para crianças, é um filme mais talvez para os pais olharem a criança. É um filme até para eu ficar com os meus pais e pensar: ‘Gente, por que vocês não me deixaram expressar isso que eu estava sentindo? Tinha que ter sido tão difícil? Às vezes não tinha.”

MEMÓRIA, ARQUIVOS E CRIAÇÃO

A construção de Irritante Prodígio foi guiada pela descoberta de imagens gravadas pelo pai durante a infância da diretora. Esses registros passaram a dialogar com imagens produzidas por ela anos depois, definindo a estrutura visual do documentário e a forma como passado e presente se encontram na narrativa.

Eu sabia que era um filme que eu queria fazer contando a minha história de uma forma muito pessoal, muito vulnerável. No início eu pensei até em chamar atores e montar algum tipo de ficção em cima dessa realidade, mas decidi que faria tudo sozinha, do início ao fim. Quando descobri que meu pai tinha gravado muito da minha infância, virou uma chave. Eu precisava misturar aqueles arquivos com essa trajetória do hospital e dos desafios emocionais.”

Além da direção e das gravações, Luiza também assumiu a montagem do longa. Segundo ela, essa etapa exigiu um mergulho constante em lembranças difíceis, tornando o processo tão intenso quanto necessário para concluir o filme. Foi mexer numa ferida que eu sabia que precisava mexer e que, no geral, ia me fazer bem, mas não é super fácil você estar contando sobre o seu maior trauma e montar um filme. Eu ficava, às vezes, mais de oito horas por dia revendo um texto de algo que foi difícil para mim.”

CineOP 2026. Foto: Leo Lara
CineOP 2026. Foto: Leo Lara

VITÓRIA QUE AMPLIA O DEBATE

Ao acompanhar as sessões do filme, a diretora conta que uma das experiências mais marcantes tem sido observar a identificação do público com a narrativa. Para ela, provocar esse reconhecimento é uma das razões pelas quais decidiu transformar sua história em cinema. Eu acho legal quando esse adulto se comove com isso, porque parece que vira uma chavezinha. E talvez seja essa a chavezinha que eu queria virar.”

Vencedora do Troféu Vila Rica de Melhor Filme, Luiza Lindner também integrou a Mostra Competitiva como a única mulher entre os longas selecionados. Durante a entrevista, a diretora refletiu sobre a necessidade de ampliar o espaço para novas realizadoras e diferentes gerações no cinema brasileiro. Eu também sou a única mulher dentro da competitiva e também a mais jovem. Parece até um experimento social. Por que essa diferença acontece? Por que eu sou um contraponto e não existem mais parecidos comigo?

Com Irritante Prodígio, Luiza Lindner transforma uma experiência profundamente pessoal em um convite à reflexão sobre saúde mental, infância e memória. Ao compartilhar sua própria trajetória, a diretora propõe um olhar sensível para temas que, embora façam parte da vida de muitas pessoas, ainda são cercados por silêncio. Reconhecido com o Troféu Vila Rica de Melhor Filme da 21ª CineOP, o documentário encerra sua passagem pelo festival reafirmando o potencial do cinema autobiográfico de transformar vivências individuais em experiências coletivas, capazes de provocar identificação, diálogo e novos olhares sobre o passado e o presente.

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Jornalista formada pela Universidade Feevale, é pesquisadora de cinema e diversidade, com foco no universo LGBTQIAPN+. Possui experiência em rádio e TV e atua como criadora de conteúdo no @ajuklein (TikTok e Instagram).

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