Crítica

Já dizia o sábio Nelson Rodrigues: “toda unanimidade é burra”. Por isso, é bom sempre ir com um pouco de desconfiança quando todos insistem em afirmar que algo ou é muito bom, ou muito ruim. No caso de Logan, última aparição de Hugh Jackman como o herói Wolverine, personagem que interpretou em oito filmes anteriores, a tendência tem sido, desde suas primeiras exibições para a imprensa, enaltecer as diversas qualidades da história e do projeto. E essas, de fato, existem. Mas não se pode, ao mesmo tempo, fechar os olhos para algo de desconfortável que pontua todo o desenrolar da trama. Afinal, qualquer análise mais depurada irá apontar dois óbvios poréns. O primeiro, uma vez solta a selvageria, a conclusão é que foi quase impossível domá-la, ultrapassando os limites necessários aqui e ali. E, por fim, nada mais triste do que um adeus em que o protagonista, em última instância, não passa de mero coadjuvante.

Pausa para uma rápida, e urgente, recapitulação. Hugh Jackman assumiu o a barba e as garras do Wolverine graças um acaso do destino, após Dougray Scott se machucar durante as filmagens de Missão: Impossível 2 (2000), o que o obrigou a ficar de fora de X-Men (2000), filmado logo em seguida. Ainda que distante da figura das histórias em quadrinhos – um baixinho invocado e sem meias palavras – a performance do ator convenceu a ponto de ser o grande destaque entre os fãs. Assim que a primeira trilogia chegou ao fim em X-Men: O Confronto Final (2006), Jackman foi o primeiro a dar o passo seguinte, assumindo o solo em X-Men Origens: Wolverine (2009). A coisa não funcionou muito bem, mas sua popularidade seguiu intacta, e após uma troca de diretores – saiu o sul-africano Gavin Hood e entrou o nova-iorquino James Mangold – foi a vez de Wolverine Imortal (2013), um filme mais denso e sem tantas concessões, mas ainda aquém das expectativas. Seria o fim das aventuras individuais do personagem? Talvez ainda não, pois com o sucesso de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) – a mais bem-sucedida de todas as suas incursões na tela grande – chegou-se a conclusão que havia espaço para mais um esforço. E se seria essa sua derradeira aparição, por que não fazer de Logan aquele filme pelo qual todos aguardavam há quase duas décadas?

Pois é quase isso que Mangold, novamente no comando e desta vez mais familiarizado com esse universo, entrega. James Howlett, também conhecido como Logan, também conhecido como Wolverine, não é mais o homem que nos acostumamos a conhecer. Desta vez o encontramos em 2029, quando os mutantes já foram praticamente dizimados, e há anos não se tem registro do nascimento de um novo. Logan está velho, cansado, e seus poderes – força bruta e capacidade regenerativa – estão falhando, para não dizer que os está perdendo. Com ele restam apenas o Professor Charles Xavier (Patrick Stewart), um idoso que precisa de medicação constante para manter o próprio controle, e Caliban (o comediante, roteirista e diretor inglês Stephen Merchant), um ser albino vampiresco que vive nas sombras, se escondendo de tudo e de todos – e, principalmente, do sol. Para cuidar dos dois, ele vive como motorista de limusine. Mas sua vida sofre outro baque quando uma enfermeira mexicana vai até ele não só o acusando de ter uma filha que desconhece, mas obrigando-o a tomar conta da menina (Dafne Keen).

É neste ponto que Logan corre o risco de sair dos trilhos. Afinal, como logo descobrimos, a criança não é exatamente sua descendente, mas, sim, compartilha do mesmo código genético que ele – ou seja, é tão poderosa quanto ele um dia já foi no auge de sua forma. E a partir de então, será missão dele cuidar da segurança dela, já que representa o futuro de sua espécie. A trama, como se percebe, é bastante similar a de Filhos de Esperança (2006). Só que ao invés de investir no contexto, o diretor prefere apostar nas características dos tipos que tem sob comando. Assim, investe-se até onde se imagina ser possível na decadência do protagonista, fazendo dele um verdadeiro saco de pancadas de seus perseguidores – os investidores e cientistas que criavam crianças em laboratório, todas elas alteradas geneticamente, como numa formação sob medida de mutantes. E à medida em que o sadismo do espectador – e dos realizadores – é alimentado, também se torna justificável qualquer forma de revanche: ainda que essa venha através de infantes dispostos a todo e qualquer tipo de violência, quase que numa versão ainda mais cruel e graficamente explícita de Jogos Vorazes (2012).

Tal composição, no entanto, não seria mais do que um tropeço diante os membros mais exigentes da audiência se fosse ela isolada. O que, infelizmente, não é o caso. É salutar encontrar um cineasta disposto a entregar um Wolverine tal qual o mesmo foi desenhado em sua gênese – Mangold é também um dos roteiristas – mas a impressão que se tem é que, após tanta espera e preparo, foi-se com tal ânsia ao argumento original que se desprezou uma eventual – e responsável – adequação. Tudo bem que Logan é um filme para adultos. Mas seria isso desculpa para exageros e descuidos? Por outro lado, Hugh Jackman nunca esteve tão à vontade na pele do personagem, liberado para assumir sua idade – afinal, o ator também envelheceu – e disposto e aprofundar-se em suas contradições e fraquezas, abandonando de vez o porte heroico e inquebrantável. Ele não é mais invencível, insuperável, arrebatador. Possui problemas, está fraco e nada tem a perder. E uma combinação dessas pode resultar em momentos verdadeiramente mágicos.

Como de fato seriam, se não houvesse tanta preocupação com a história da garota e menos interesse em como Wolverine deixou de ser quem era ao ponto de reduzir-se apenas a Logan. Sua preocupação em salvá-la e protegê-la em sua jornada é tamanha que chega a fazer da missão dela, a sua própria. Em um determinado ponto, após ela abandoná-lo, mais nada tem ele a fazer a não ser reencontrá-la para, mais uma vez, seguir como guarda-costas de luxo. É o ocaso que tanto temia, quando tudo que lhe resta é o animal do seu interior, e não o homem que um dia foi, e que poderia voltar a ser. Sem um vilão à altura – o mercenário vivido por Boyd Holbrook é por demais genérico – e com Patrick Stewart fazendo não mais do que uma participação especial, Logan recai quase que exclusivamente nos ombros de um Hugh Jackman decidido a parar. O gesto é simbólico, mas também significativo. Sua despedida pode ser aquele momento em que finalmente nos deparamos com o Wolverine pelo qual sempre ansiamos – pena que não diante dos acontecimentos que fizeram dele o herói pelo qual tanto torcemos.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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