Crítica

Após o sucesso da trilogia X-Men no cinema, nada mais natural que o integrante mais popular de toda a turma ganhasse uma aventura solo na tela grande. Pois bem, em X-Men Origens: Wolverine, é quase isso que acontece – se o mutante com garras de adamantium é o protagonista, a profusão de outros heróis e vilões na tela é tão grande que por alguns momentos chega a ser difícil manter o foco. A proposta era simples: contar como surgiu um dos personagens mais famosos do universo das histórias em quadrinhos. Mas a impressionante bilheteria do terceiro filme da série – X-Men 3: O Confronto Final (2006), justamente o que possui a maior quantidade de seres fantásticos – influenciou decisivamente na formatação desta nova aventura. Assim, além de Wolverine, temos ao seu lado figuras fundamentais do seu passado, como Dentes de Sabre e o general William Stryker, ao mesmo tempo em que aparecem outras que até este momento não possuíam relação alguma, como os habilidosos Gambit e Ciclope! Essa aparente confusão se reflete também na própria avaliação do filme: é bom, mas poderia ter sido muito melhor.

Quem é habituado com os gibis não irá estranhar muito o que é visto em cena. O início, por exemplo, é idêntico ao que foi mostrado na série Origens, que relatava exatamente a primeira manifestação dos poderes do jovem James/Logan (Wolverine) – ainda adolescente, ele descobre não ser filho do próprio pai, possuir um meio-irmão (Victor Creed, o Dentes de Sabre, que possui dons similares) e ser capaz de feitos espetaculares, como auto-regeneração e projetar garras assassinas de suas mãos. Com sede por sangue, ele e o novo irmão partem para uma vida repleta de violência – como não envelhecem, acabam se envolvendo, sem maiores danos, nos maiores conflitos bélicos dos dois últimos séculos (a Guerra Civil Norteamericana, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, Vietnã). E assim seguem até que se deparam com o militar William Stryker, que os convoca a participar de um grupo de seres igualmente poderosos. Porém, ao invés de lutarem pelo bem, acabam se envolvendo em chacinas ainda maiores, o que termina por provocar o afastamento de Logan e uma consequente briga entre ele e Victor – a partir deste momento eles estarão em lados opostos.

Logan parte para o Canadá, se apaixona e tenta levar uma vida normal. Mas a tragédia está em seu caminho, e Stryker reaparece com um novo convite: participar de uma experiência inovadora, que só alguém como ele poderá sair vivo dela – revestir todo o seu esqueleto com adamantium, um metal ultra-resistente e praticamente indestrutível. Só que por trás de tudo isso há uma conspiração ainda maior, envolvendo a captura de outros seres mutantes e a possível extração dos poderes destes para a criação de um ser invencível, uma verdadeira máquina de guerra que estaria a serviço de Stryker. E só um homem poderá impedi-lo, mesmo que isso signifique se colocar contra o próprio irmão: Wolverine!

É fácil fazer duas listas, de prós e de contras, sobre X-Men Origens: Wolverine. De um lado temos Hugh Jackman, que pela quarta vez dá vida ao personagem que nasceu para interpretar – ele É Wolverine! O humor, a ferocidade, a garra, a paixão – está tudo ali, mais uma vez, de uma forma que só ele consegue fazer e como muito bem já havia demonstrado nos longas anteriores da série. Outro fator é a surpreendente revelação de Liev Schreiber (Um Ato de Liberdade, 2008), que, como o antagonista Dentes de Sabre, consegue criar um contraponto perfeito ao herói, assustador e dominado pela violência, numa composição memorável. Ao mesmo tempo, outros atores, como Dominic Monaghan (O Senhor dos Anéis) e Ryan Reynolds pouco conseguem acrescentar, seja pelo escasso tempo em cena, seja pela caracterização pouco convincente. Danny Huston (Um Louco Apaixonado, 2008) é outro ponto forte no elenco, oferecendo um Stryker tão alucinado quanto o exibido por Brian Cox em X-Men 2 (2003).

Mas X-Men Origens: Wolverine não é só elenco – há muito mais a ser percebido. Pena que o diretor Gavin Hood – vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pelo sul-africano Infância Roubada (2005) – não possua a habilidade suficiente para dominar todos os aspectos necessários diante seres tão complexos. E como resultado temos diálogos pouco criativos e soluções previsíveis ao lado de personagens inovadores e fantásticos. E se as cenas de ação não chegam a deixar ninguém de queixo caído, por outro lado a tarefa de narrar como tudo começou é concluída de modo competente e definitivo. Wolverine está aí, sabemos do que é capaz e é possível vislumbrar de forma convincente não apenas tudo o que ele já fez no futuro (na trilogia X-Men) como também o que ainda fará (quem ficar até o final dos créditos poderá conferir um preview da segunda aventura solo do herói). E a avaliação não tem como ser diferente: agrada gregos e troianos, fãs e novatos, mas não chega a passar de um aperitivo, apenas uma amostra de tudo o que ainda está por vir num futuro próximo.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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