Leite em Pó

Crítica


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Sinopse

Em Leite em Pó, um músico obcecado por rock vê sua vida desmoronar após uma perda familiar devastadora. Sozinho e sem dinheiro, ele aceita um novo trabalho que o leva a percorrer a cidade e a cruzar o caminho de pessoas com diferentes perspectivas de vida. Entre lembranças incômodas e novas conexões, tenta encontrar uma forma de enfrentar seus próprios fantasmas e reconstruir sua relação com a realidade. Drama.

Crítica

Tem cineastas que gostam de tirar o espectador do volante. Carlos Segundo é desses. Desde Sideral (2021) e Big Bang (2022), o diretor vem construindo uma filmografia marcada por atmosfera e, principalmente, imprevisibilidade. Em Leite em Pó, seu segundo longa de ficção, após Fendas (2019), essa característica ganha escala maior. A ideia é quase matemática. Você puxa o gatilho e não sabe exatamente o que acontecerá depois. A bala pode sair, pode falhar, pode acertar o alvo, pode errar por pouco. Com Segundo, o cinema funciona assim. Quando parece que sabemos para onde a história está indo, ele muda a direção. E, no centro dessa roleta de possibilidades, está Vicente, um jovem solitário que parece tão perdido quanto o próprio espectador. É justamente aí que mora boa parte do charme.

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O protagonista, vivido por Vinicius de Oliveira, é jovem, mas já carrega aquela sensação de quem chegou cedo demais ao cansaço. Músico obcecado por rock, vive com a avó em Natal (RN) e tenta sobreviver de trabalhos temporários enquanto sonha com carreira musical que, convenhamos, talvez nunca aconteça. Depois de uma perda familiar, fica ainda mais sozinho e precisa encontrar maneiras de seguir em frente. Há pouco dinheiro, relações que não engrenam, um trabalho que não realiza e uma vontade que ronda o personagem de simplesmente desistir. Só que Vicente ainda guarda alguma coisa. Uma centelha pequena, quase escondida, de que a vida pode mudar. E é nesse espaço entre o desejo de abandonar tudo e a insistência em continuar que Vinicius encontra seu melhor registro. O eterno Josué de Central do Brasil (1998) agora é um homem adulto, machucado e perdido, mas ainda procurando alguma saída.

O realizador nunca entrega completamente o controle da narrativa. E isso pode incomodar. Leite em Pó não está interessado em conduzir o espectador pela mão. Há momentos em que acreditamos que algo ruim vai acontecer e vem outra coisa. Em outros, esperamos alguma espécie de redenção e recebemos justamente o contrário. É cinema que trabalha com possibilidades, quase como se cada encontro pudesse mudar o rumo da história. Há algo de Wim Wenders nessa ideia de personagens atravessando espaços enquanto tentam descobrir o que fazer com a própria existência. Só que Segundo acrescenta camada bastante particular de absurdo e melancolia. O próprio título ajuda nessa brincadeira. Leite em pó é leite, mas não exatamente. Parece, mas não é. E talvez Vicente também esteja nesse lugar. Ele é um homem tentando ser adulto, embora ainda não tenha descoberto muito bem como fazer isso.

Essa escolha torna o longa interessante, mas também estabelece seu principal obstáculo. Não será todo mundo que vai embarcar. Há certo hermetismo, situações que parecem pedir mais tempo de digestão e decisões narrativas que não oferecem respostas imediatas. Não é cinema para sair da sessão com tudo resolvido. Aliás, talvez seja justamente o contrário. Leite em Pó parece querer continuar depois que acaba, ocupando aquele espaço incômodo da cabeça em que ficamos remontando cenas e pensando no que poderia ter acontecido de outra maneira. Em alguns momentos, a estranheza funciona muito bem. Em outros, pode afastar quem espera algo mais convencional. É um risco. Mas também é o que impede a obra de cair em fórmulas já conhecidas.

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Leite em Pó também encontra força na maneira como constrói seus coadjuvantes, figuras que entram e saem da vida de Vicente como acontece fora do cinema. A mulher que também carrega luto, a cabeleireira presa a um casamento infeliz, os amigos de uma noite no bar e tantos outros encontros breves que poderiam parecer apenas desvios de rota. Não são. Cada um acrescenta alguma coisa ao protagonista e ajuda a ampliar esse retrato de uma vida em movimento, feita de pessoas que aparecem, deixam marcas e seguem seus próprios caminhos. Talvez seja aí que Carlos Segundo encontre sua melhor síntese. A vida também funciona assim, sem roteiro prévio, cheia de esquinas e encontros que podem não significar nada ou mudar alguma coisa para sempre. 

Filme visto no 54º Festival de Cinema de Gramado (2026).

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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