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A sexta noite do 54º Festival de Cinema de Gramado foi marcada pela exibição de Nosso Segredo, longa dirigido por Grace Passô. Produzido pela Entre Filmes em coprodução com a Globo Filmes, o projeto acompanha uma família que tenta reconstruir a rotina depois de uma perda recente. Enquanto cada integrante encontra sua própria maneira de lidar com o luto, o filho mais jovem guarda um segredo que pode alterar a dinâmica daquele núcleo e abrir um novo caminho para a família.

Representando a produção, passaram pelo tapete vermelho a diretora, Grace, a diretora de fotografia Wilssa Esser, o produtor Ricardo Alves Jr. e os integrantes do elenco Ju Colombo, Tássia Reis, Jéssica Gaspar, Glaucia Vandervel, Marisa Revert, Flip, Ana Paula Santos Gomes, Efraim Santos, Robert Frank e Juan Queiroz.

Na manhã desta sexta-feira, 21, em Gramado, Grace conversou com o Papo de Cinema sobre a construção de Nosso Segredo, o espaço dado ao mistério e a maneira como a obra convida o público a completar aquilo que permanece em aberto.

FESTIVAL DE GRAMADO 2026 :: NOSSO SEGREDO

QUANDO O SEGREDO DIZ MUITO

Em Nosso Segredo, a ideia de mistério ultrapassa o elemento narrativo que movimenta a trama. Para Grace, o conceito também está relacionado à própria maneira como memória e identidade se organizam dentro de cada indivíduo. “Acho que são vários segredos que estão ali dentro. A noção de segredo está ali também para dizer que as nossas memórias e a nossa família são um pouco nossos segredos. Existe uma dimensão nas coisas, na nossa vida, que é secreta, mas diz muito sobre nós”.

Festival de Gramado 2026 :: Equipe de Nosso Segredo no tapete vermelho
Festival de Gramado 2026 :: Equipe de Nosso Segredo no tapete vermelho

Essa escolha ajuda a explicar uma das características mais marcantes do longa: a disposição de não entregar todas as respostas. “Eu sabia que isso ia acontecer por já ter vivido no teatro histórias parecidas, ficções parecidas, e já ter vivido modos diferentes de recepção, esse tipo de característica de linguagem. Acho que ele é muito falado porque tem uma medida de mistério, mas também de entrega. Ele promete revelar algumas coisas que são reveladas, e algumas outras continuam pairando ali”.

“OS SENTIDOS NÃO ESTÃO ALI ENTREGUES”

Ao manter determinadas questões em suspensão, Grace transforma o espectador em parte ativa da experiência. “Isso faz as pessoas pensarem, gostarem, não gostarem, perguntarem o que é isso, o que diz, o que não diz. Elas vão correndo atrás do que está dizendo, do que está sendo dito. Eu gosto disso. Gosto de criar um campo onde a dimensão do mistério é explícita, um campo onde as pessoas não controlam tudo. Os sentidos não estão ali entregues completamente”.

Festival de Gramado 2026 :: Equipe de Nosso Segredo no palco
Festival de Gramado 2026 :: Equipe de Nosso Segredo no palco

Para a diretora, essa falta de controle não é uma consequência involuntária da narrativa. Pelo contrário, faz parte da experiência que ela deseja proporcionar. “Como fazer uma obra legal, excitante, ao mesmo tempo em que quem assiste não tem o controle completo dela? Me interessa isso, gosto disso. E espero que ele gere ainda mais debates. Não tenho dúvida de que ele vai gerar, porque ele também incomoda. O mistério incomoda, incomoda muito. Ele existe, o filme existe. Ele se propõe também a incomodar em um certo lugar”.

UMA FAMÍLIA, MUITAS HISTÓRIAS

Outro desafio enfrentado pela cineasta foi construir a família que ocupa o centro da narrativa. Com diversos personagens, era necessário fazer com que cada integrante tivesse sua própria trajetória sem perder a dimensão coletiva daquele núcleo. “Essa família é muito grande, tem muitas pessoas ali. Entender essa trama, como fazer esses personagens terem vida própria, terem uma trajetória própria e, ao mesmo tempo, uma trajetória coletiva, essa foi a grande tarefa. Foi um processo de muitas reescrituras de roteiro para que esses personagens fossem fortes sozinhos e coletivamente ao mesmo tempo”.

O luto funciona como um ponto de encontro entre essas diferentes trajetórias. “Cada personagem vive o luto da sua forma. Todos estão num momento em que não conseguem expressar o que estão sentindo, mas cada um mostra isso de uma forma. E o jeito que cada um é na sua relação com o luto, de alguma forma, revela também as gerações diferentes de negritude do nosso país”.

DIFERENTES FORMAS DE VIVER A NEGRITUDE

A diretora explica que essa perspectiva estava presente desde o início da construção dos personagens. A mãe, a filha e o filho ocupam posições diferentes dentro da família e, por consequência, estabelecem relações distintas com questões de identidade, pertencimento e raça. “A gente tem a mãe, que é mais velha, e o modo como ela lida com as questões relacionadas à negritude é diferente da filha, que é mais nova e é criança, e do outro irmão, que é o homem negro da família e tenta entrar no lugar do pai. Desde o início eu tinha esse intuito de, de alguma forma, revelar através desses personagens essas gerações diferentes e como elas lidam com a negritude de formas diferentes”.

Festival de Gramado 2026 :: Nosso Segredo
Festival de Gramado 2026 :: Nosso Segredo

Essa diferença também aparece naquilo que é dito e no que permanece silenciado. Enquanto a filha conversa mais abertamente com a criança sobre determinadas questões, a mãe estabelece uma relação diferente com sua identidade e sua experiência. “Essa filha fala mais abertamente com a criança sobre isso, sobre as coisas. Essa criança já começa a elaborar, desde criança, sobre isso. A mãe não fala muito e é a mulher negra da casa. Tem a ver com isso”.

ARQUÉTIPOS DE EXPERIÊNCIAS NEGRAS

Ao olhar para o conjunto de personagens, Grace identifica ainda figuras que remetem a experiências recorrentes dentro de diferentes famílias negras. “Todos os personagens que estão ali nasceram também de uma profunda reflexão sobre alguns arquétipos que existem nas nossas vidas negras. São quase arquétipos mesmo. Pessoas muito recorrentes na nossa vida, modos diferentes de lidar com as questões, com o luto, modos diferentes de fugir do luto. São coisas que estão na minha vida e nas vidas negras também”.

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Fanático por cinema e futebol, é formado em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Feevale. Atua como editor e crítico do Papo de Cinema. Já colaborou com rádios, TVs e revistas como colunista/comentarista de assuntos relacionados à sétima arte e integrou diversos júris em festivais de cinema. Também é membro da ACCIRS: Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul e idealizador do Podcast Papo de Cinema. CONTATO: [email protected]

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