A segunda quinta-feira, 20, do 54º Festival de Cinema de Gramado foi marcada pela presença de uma das vozes mais potentes da música brasileira. Exibido na competição de longas documentais brasileiros, Gonzaguinha: Da Maior Liberdade, novo trabalho de Susanna Lira, busca recuperar em letras, imagens e sons a trajetória de Luiz Gonzaga Jr., artista que transformou inquietações sobre o Brasil em música e poesia.
De volta aos documentários biográficos, a diretora encontrou no compositor uma figura cuja obra permanece surpreendentemente atual. O filme também recorre a cenas dramatizadas, com André Dale interpretando Gonzaguinha em trechos baseados em entrevistas concedidas pelo músico ao Pasquim.
Depois da sessão em Gramado, Susanna conversou com o Papo de Cinema na manhã desta sexta, 21, sobre a construção do documentário, a personalidade do artista e a força de uma obra que continua dialogando com o presente.
FESTIVAL DE GRAMADO 2026
A INQUIETUDE DE GONZAGUINHA
Para Susanna, o primeiro ponto de aproximação com o compositor está justamente na postura que marcou sua trajetória. Mais do que reconstruir cronologicamente a vida do artista, a cineasta buscou compreender aquilo que fazia sua voz permanecer tão singular. “O que mais me interessa no Gonzaguinha é essa verve rebelde, essa inquietude dele, que acho que é a mesma que tenho quando faço meus trabalhos. A atualidade dele também me impressiona muito, infelizmente, porque ele poderia estar falando algo do passado, mas está falando muito do presente também. É isso que mais me interessa na obra dele: essa atualidade e essa verve rebelde que acho admirável”.

A capacidade de transformar observações sobre a sociedade em canções é outro elemento central para Susanna. Em sua leitura, Gonzaguinha acabou construindo uma espécie de registro do país. “Ele conseguiu transformar em poesia a inquietude dele e os pensamentos sobre a sociedade, sobre esse Brasil. Acho que ele conseguiu ser o documentarista do Brasil enquanto compositor e cantor”.
DOCUMENTÁRIO NO RITMO DO ARTISTA
A personalidade de Gonzaguinha também determinou a própria linguagem do longa. Susanna explica que não queria impor uma dinâmica externa à trajetória do compositor. “Quando você decide fazer um filme sobre um cantor e compositor do estilo do Gonzaguinha, tem que entrar um pouco no tempo dele, no ritmo dele próprio. A gente tenta obedecer um pouco essa métrica, essa dinâmica dele. O filme permeia essa questão das letras de música, da parte de memória dele e também da contundência dele. Ele era um cara que falava muito calmamente coisas muito fortes”.
Essa escolha faz parte de um princípio que acompanha a diretora em seus documentários biográficos. Em vez de aplicar a mesma estrutura a diferentes personagens, ela prefere descobrir a forma do filme a partir da personalidade de quem está sendo retratado. “Toda vez que estou fazendo uma biografia, sempre tento escutar o personagem, mais do que trazer uma dinâmica minha, impor alguma coisa. Por isso os filmes são tão diferentes um do outro, porque eles estão falando de pessoas diferentes”.
A diretora lembra, por exemplo, do trabalho realizado sobre Fernanda Young, cuja personalidade exigia uma construção diferente. “Diferente do ritmo de projetos como Foge-me ao Controle (2024), o Gonzaguinha é um cara extremamente calmo, com um tempo que não é esse tempo frenético da gente. Porém, é um cara extremamente contundente. Então, na calma, a gente vai falando coisas muito fortes, estudos do Brasil atual, estudos sociais sobre o Brasil. É impressionante a obra dele, como fala sobre isso”.

ANDRÉ DALE E A VOZ DE GONZAGUINHA
Entre os recursos utilizados no documentário estão as cenas dramatizadas que reconstituem duas entrevistas importantes concedidas por Gonzaguinha. “O Gonzaguinha fez duas entrevistas muito importantes para o Pasquim. Fui atrás do áudio dessas entrevistas, não encontrei, só tinha no papel. E eu não tinha como, graficamente, colocar essas palavras dele, que são determinantes e fundantes do ser que ele é, do que ele pensava. A gente precisou de um ator para fazer isso”.
A escolha acabou se transformando em uma das surpresas do processo. “Foi o André que chegou e, na verdade, trouxe um espírito do Gonzaguinha para esse filme, que acho muito impressionante, porque se confunde muito com o próprio Gonzaguinha. Ele fez um trabalho brilhante. Eu, que sou avessa a dramaturgias dentro de documentário, acho que, nesse caso, foi muito apropriado e ficou muito bom. Hoje não conseguiria ver esse filme sem o André estar presente”.

GRAMADO ANTES DOS CINEMAS
A estreia no Festival de Gramado também foi pensada como o primeiro passo da trajetória comercial do documentário. “Estrategicamente, a gente decidiu não participar de outros festivais. A gente está participando somente de Gramado, que foi maravilhoso para a gente poder estrear aqui. O filme entra em cartaz dia 03 de setembro”.
A proximidade entre o lançamento e as eleições também desperta na diretora o desejo de que o filme provoque reflexões sobre o país. Para ela, a trajetória de Gonzaguinha pode servir como ponto de partida para que o público pense sobre consciência política e social. “Gostaria muito que, lançando esse filme um mês antes das eleições, as pessoas refletissem sobre suas consciências de classe, suas consciências políticas e fizessem disso um Brasil melhor. Acho que o Gonzaguinha é esse cara que batalhava por uma igualdade no país, falava de um jeito ou de outro, conseguia colocar nas músicas dele, querendo ou não, o sistema não impedia ele”.
Ver essa foto no Instagram
Gostou do conteúdo? Então, fique ligado no Papo de Cinema para saber tudo, e mais um pouco, sobre o que acontece no mundo do cinema, da TV, dos festivais, das premiações e muito mais! Também recomendamos que siga nossos perfis oficiais nas redes sociais, a fim de ampliar ainda mais a sua conexão com o mundo do entretenimento. Links abaixo:
PAPO NAS REDES
Tik Tok | Instagram | Facebook
Letterboxd | Threads | BlueSky | Canal WhatsApp
A todo momento tem conteúdo novo chegando e você não pode ficar de fora. Então, nos siga e ative todas as notificações!
PAPO DE CINEMA NO YOUTUBE
E que tal dar uma conferida no nosso canal? Assim, você não perde nenhuma discussão sobre novos filmes, clássicos, séries e festivais!
Últimos artigos deVictor Hugo Furtado (Ver Tudo)
- Festival de Gramado 2026 :: “O que mais me interessa nele é essa verve rebelde, essa inquietude”. Confira nossa entrevista com Susanna Lira, diretora de Gonzaguinha: Da Maior Liberdade - 22 de agosto de 2026
- Festival de Gramado 2026 :: “O mistério incomoda… incomoda muito”. Confira nossa entrevista com Grace Passô, diretora de Nosso Segredo - 21 de agosto de 2026
- Festival de Gramado 2026 :: Na Serra Gaúcha, Christian Malheiros fala sobre fé, redenção e a estreia de Justino, filme baseado em história real - 20 de agosto de 2026
Deixe um comentário